08 de julho de 2026

Um significado íntimo e pessoal


| Tempo de leitura: 2 min

Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

Quando meu pai morreu re-signifiquei, intima e pessoalmente, a Missa. A profundidade do rito, a comunhão da palavra e ideia, o sentido e o sentimento, foram transformados a partir da minha Experiência Emocional. Só compreendemos verdadeiramente a partir de nossas experiências, o que nos torna falíveis e empreendedores, para o bem ou para o mal.

No ritual da Missa a repetição da reunião, solenemente festiva, a Memória da despedida de Jesus, a Última Ceia, a esperança da Ressurreição, o valor da Memória, guardada em Palavra, gestos, dramatização.

Um ciclo perene de perda e recuperação, de Morte & Vida, que todas as religiões celebram em cantos e palavras distintos, em rituais. A necessidade de reunião e a celebração do que nos une (Amor) para suportarmos o que nos divide (o ódio, a intolerância, a Destruição).

Na Missa, e em outros ritos espirituais, a Morte não é o contrário da Vida, é antes parte do movimento da Vida. Deus nasce e Deus morre e Deus renasce. O que parece diferir de religião para religião é o significado íntimo, esperançoso, da “vida após a morte” (aqui entendida literalmente como morte física).

Espiritualmente podemos ir além das diferenças de ritos e crenças, na reunião alegre e companheira, na Ceia que comunga ideias e sentimentos, a doar-receber presentes, em memória de Jesus-menino, esperando renascer, em um outro nível de solidariedade e tolerância.

O que nos protege da Destruição, do ódio, é a capacidade de Comunhão, de sentarmos à mesma mesa, e repartirmos o pão e o vinho, em meio às diferenças de idade, raça, origem (como os Reis Magos). O Natal é instante de reconhecimento da fragilidade humana, da nossa inter-dependência. Em laços invisíveis, a Esperança e a Fé nos unem à rede cósmica da espécie.

Hoje, no dia depois da Noite Feliz, espero que tenhamos conseguido a aurora de um significado: se quisermos sobreviver, enquanto espécie, nós precisaremos refinar nossas mentes e corações, e crer na ressurreição do que temos destruído (em nós), do que odiamos (em nós), e esperar o renascimento (em nós) do sentido comunitário.

Na comemoração celebramos os presentes espirituais dos três Reis Magos, um Rei com 20, outro com 40 e outro com 70 anos, de raças distintas, vindos de três cantos da Terra. Jesus-menino ganhou Ouro, símbolo da realeza e da necessidade material, já que a família tinha de fugir da perseguição de Herodes. Incenso, a “fumaça aos céus”, a oração espiritual, e a Mirra, sinal de reconhecimento do martírio de Jesus.

A Mirra era a substância usada para embalsamar os corpos na Antiguidade. Planta odorífica a lembrar da Morte, presente significativo para quem apenas nascia. Sábios Reis que nos lembram a eterna certeza: somos passageiros, feitos de Memória e Esquecimento.

A nos unir, e a nos eternizar, a nos livrar do olvido, o presente significado, intimo e pessoal, que damos ao que vivemos.

Celebro o renascer de significados para o Natal, que estejam entretecidos na Memória ao sagrado bem de cada um, e de todos nós.