08 de julho de 2026

O rango do Natal


| Tempo de leitura: 2 min

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor

Ermengarda era o nome dela, um daqueles nomes que não se encontram mais nas listas telefônicas, vão saindo de uso substituídos inexoravelmente pelos das heroínas das telenovelas e nunca mais retornam. Tinha sido Filha de Maria na paróquia do padre francês Zé Gautin, era catequista e seu outro ofício atual era rezar, rezar muito pelos pecadores, que existem aos borbotões, em muito maior número que os santos.

Além disso, Ermengarda era pobre, muito pobre, vinha de família humilde, de pai alfaiate e mãe do lar, a única coisa que tinha restado em sua solidão de órfã filha única solteirona, era a velha casa que tinha sido dos pais no centro da cidade.

Quando as madames endinheiradas da paróquia resolveram fazer caridade para os moradores paupérrimos da favelinha que o prefeito ranzinza e ególatra tinha feito com o dinheiro público num bairro distante do centro onde viviam antes (para limpar o centro da pobreza, dizia ele no rádio), ela logo se apresentou como voluntária e colaboradora.

A madame que comandava o esquema logo pediu para as voluntárias que apresentassem as possibilidades de ajuda na produção de comida para os favelados, eles tinham muita fome, coitados, dizia ela. Cada uma das madames foi falando sobre a sua cozinha, que era modulada, pré-fabricada, pré-moldada, pré-assada, todas com marcas de nomes estrangeiros. Eram modernas, maravilhosas, brilhantes, limpas. Mas quem fazia a comida era sempre uma gutcha, uma cozinheira contratada, com uniforme e tudo.

Ermengarda mais que depressa ofereceu também sua modesta cozinha para contribuir. Alguém perguntou qual era a procedência de seus armários. Ela respondeu com orgulho: “argentina”. A emproada que perguntou até ficou sem-graça com a resposta. No dia marcado, lá estavam em sua maltratada casa, precisando de pintura e outras reformas, toda a equipe escalada para fazer as receitas definidas pela manda-chuva. “Onde fica sua cozinha?”, perguntaram elas. “Ali, logo depois daquela cortininha de plástico”. Entraram e levaram um susto. Na cozinha, além da pia de granilite gasto, havia um velho fogão de quatro bocas, uma geladeira branca encimada por um pingüim e, sob a pia, um armário, o tal armário argentino, feito com tábuas de caixas de maçãs...argentinas.

Engoliram o riso e resolveram levar na brincadeira, afinal era tudo para os pobres mesmo. Montaram as cestas básicas. No dia marcado, perto do natal, uma das madames arrumou uma camionete cabine dupla da fábrica do marido para levar o rango na favela. Quando chegaram lá para distribuir a comida, tentaram organizar uma fila, uma cesta por família. A avalanche de pessoas e crianças que foi chegando impossibilitou qualquer ordem, houve um saque geral, a madame-chefe gritava alucinada com os pobres que queria ordem, ninguém obedecia. Não sobrou nada da comida, tudo foi carregado em minutos. No ano seguinte, resolveram: nada de comida para os pobres, aqueles ingratos. Só orações.