08 de julho de 2026

Aniversário


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Marco Antonio Soares
Professor de Lingua Portuguesa

Após observar bem, escolheu o ponto mais alto, ajeitou a túnica, sentou-se e desatou as sandálias, refrescando os pés na enorme pedra em que repousava. Pousou o queixo sobre as mãos, que foram encobertas pela espessa barba grisalha, os cabelos nevavam-lhe os ombros. Vagarosamente as pálpebras se cerraram, assim, Ele tudo pôde ver e ouvir.

Ouviu várias mães que, naquele instante, abençoavam seus filhos antes da partida. Escutou a atenção dos filhos que, submissos, anotavam em pensamentos todas as recomendações maternas.

Ouviu vários filhos que, naquele instante, choravam e vagiam, temendo a luz que lhes era dada. Escutou o sugar da fome saciando-se do primeiro leite e viu o corpo exaurido da mãe reclamando lágrimas de contentamento.

Viu um rapazinho andrajoso, agitando seus trapos, dançando, rodopiando sozinho no meio da grande praça com as duas mãos cheias de dinheiro que um sovina lhe dera. Enxergou um sovina nervoso que apertava, com as unhas, o dinheiro que lhe sobrara nos bolsos. Arrependido por não ter distribuído aquela parcela a mais de felicidade. Ouviu, em um canto mais ermo, um rapaz alto, forte e trêmulo jurar amor eterno à sua amada, prometer-lhe castelo, mesmo sabendo a sua pobreza. Viu a linda moça estender os braços, procurar com os lábios, entregar o corpo com toda a ternura e toda a lascívia de sua juventude. Sorriu.

Por fim, ouviu vários pedidos de perdão, escutou vários pedidos de reconciliação. Viu aldeias inteiras pondo fora suas armas, enxergou a paz entre as nações.

Sentiu um toque suave no ombro. Ele colocou as mãos sobre o colo, observou por segundos as chagas já cicatrizadas, atou as sandálias e levantou-se, arrumando a túnica.

Pai e Filho seguiram, cada um abraçado ao ombro do outro.

A voz Paterna indagou:

Gostou do presente este ano meu Filho?

- Pai, de todos foi o mais bonito.