08 de julho de 2026

61,8% para todos...


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A frase “O povo necessitado/, precisa um salário novo;/ mais baixo pro deputado,/ mais alto pro nosso povo” compõe o segundo verso da música “Dona Maria Teresa”, de 1963, onde o menestrel Juca Chaves, com sua festejada sátira, pedia para a primeira dama do País dar alguns recados ao então presidente da República. Há quase meio século sua reclamação era de que o deputado ganhava muito e o povo ganhava muito pouco. O tema é recorrente. Se tivesse sido escrito nos dias de hoje, continuaria atualíssimo, especialmente depois do grande trem da alegria que o Congresso Nacional fez circular ao votar o reajuste dos salários dos deputados de R$ 16,5 mil para R$ 26,7 mil mensais, equiparando-os aos dos ministros dos tribunais superiores.

Além dos deputados e senadores, beneficiam-se do reajuste o presidente da República (que até hoje ganha R$ 11.240,21 e será reajustado em 133,96%), o vice-presidente e os ministros (que terão reajuste de 148,63%), todos os deputados estaduais das 27 unidades federadas (credores de até 75% do que recebem os federais) e os vereadores dos 5566 municípios brasileiros, cujos salários podem variar de 20 a 75% do que ganham os deputados estaduais.

Será um grande rombo nos cofres públicos que comerão boa parte do dinheiro que poderia ser aplicado em serviços para a população. E o mais interessante é que, ao votarem essa grande benesse, em momento algum os dignos representantes do povo questionaram o impacto que sua aplicação poderá provocar aos cofres da União, dos Estados e dos municípios.

Os espertos congressistas lá não chega bobo, já dizia o decano Ulysses Guimarães podem até ter direito a esse reajuste de 61,8% em sua folha salarial. Mas será muito difícil para, apesar do traquejo pessoal e eleitoral, conseguirem olhar na cara do eleitor, especialmente do aposentado, que terá apenas 5% porque o governo irresponsável faz cortesia com o chapéu alheio e lança na conta da Previdência Social os proventos que resolveu pagar a trabalhadores rurais, perseguidos políticos e uma grande grama de indivíduos que não contribuíram para a formação do bolo. Se o governo concordou em pagar essa gente, teria de fazê-lo às expensas do Tesouro, jamais com o sacrifício da Previdência e com o suor daqueles que trabalharam a vida toda e hoje veem seus proventos sucateados e reduzidos a níveis de esmola.

Seria muito bom que todo eleitor nunca se esquecesse do nome daqueles em quem votaram em todas as eleições para, num momento como estes, cobrá-los e exigir, pelo menos, tratamento igual ao trabalhador, ao aposentado e ao povo em geral.

Já que o o deputado (representante do povo) e todos os utilizam seu índice de reajuste tiveram 61,8%, nada mais justo do que todo brasileiro – trabalhador privado, funcionário público, aposentado e até os autônomos – reivindicar esse mesmo percentual junto às suas fontes de rendimento. Sem choro nem vela.

Até o Juca Chaves que nas últimas eleições tentou mas não conseguiu eleger-se deputado federal poderia recuperar sua pregação de 1963 e continuar cobrando salário “mais baixo pro deputado, mais alto pro nosso povo”. Questão de dignidade e, até, de humanidade...

Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo