08 de julho de 2026

O cheiro da cesta


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O pessoal um pouco mais rodado no tempo, já entrado nos ‘enta’, não esquece a Cesta de Natal Amaral. Tratava-se de um empreendimento alimentício voltado para o consumo de final de ano, com forte apelo mercadológico. Os anúncios para a compra eram veiculados na imprensa e, principalmente, no rádio. Aliás, a televisão apenas engatinhava naquela época.

A propaganda da Cesta de Natal Amaral centrava-se na comodidade de o comprador poder parcelar o pagamento. Ao contrário das transações atuais, pagava-se adiantadamente, contando ainda com o direito de concorrer a vários prêmios durante o ano. Para colaborar com a sorte, bastava manter em dia a quitação da prestação. Se não ganhasse, restava aguardar dezembro, mês em que o produto natalino seria entregue diretamente na casa do cliente.

Por sinal, numa das propagandas, uma voz feminina cantava: ‘Acaba de chegar no meu lar a Cesta de Natal Amaral’. Na sequência, um locutor completava: ‘Na festiva noite de Natal, quando as bênçãos do Menino Deus descem sobre a terra, jubilosamente participamos das alegrias de seu lar. Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade’.

Quando a cesta não chegava até o dia 20 de dezembro, a molecada ficava em polvorosa. Ia brincar na rua mas mantinha um olho bem aberto para ver se a Kombi com o logotipo Amaral apontava na esquina, em meio à poeira, para entregar o sortimento de Natal. Ao avistar a perua cada um corria para sua casa e avisava a mãe sobre a chegada da esperada encomenda.

Depois de receber a cesta de vime em casa, começava todo um ritual de cheirar as gretas. Pelo costume, a abertura só se daria na noite da véspera de Natal. Antes disso, a família toda apenas imaginava as nozes, a ameixa seca, as frutas cristalizadas, a uva passa e outras guloseimas mais pelo cheiro. O pai e a mãe pensavam no suculento vinho tinto ou branco.

Ninguém se atrevia a enfiar a mão na cesta para pegar alguma iguaria antes da noite de Natal. Todos resistiam ao adocicado e inebriante cheiro natalino por vários dias. Somente um pouco antes do arranjo da ceia, cabia ao pai levantar solenemente a tampa. Nesse momento, a família toda se dobrava sobre a cesta para sorver completamente o aroma característico do final de ano.

Passado o protocolo de abertura da cesta a mãe retirava cuidadosamente as tirinhas de papel envolvidas nos produtos. Espalhava tudo pela mesa e a criançada se atirava aos doces sem remorso algum. Não havia problema em comer demasiadamente. No outro dia, todo mundo correria a não mais poder, queimando as calorias extras ingeridas na noite anterior.

Passado o Natal, a cesta ficava por muito tempo vazia. Não se guardava nada nela, simplesmente para conservar o cheiro. Será que nesta consumista época atual, alguém ainda guarda alguma coisa somente para ter o gosto de cheirar?

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br