A frase que tomo emprestada como título para esta resenha faz parte de um dos primeiros textos do livro Pega-me, de Tânia Liporoni, lançado no último dia 4, em Franca, com prefácio substancioso de Maria Luiza Salomão. Esforço é um dos muitos textos de estrutura mínima que caracterizam o fazer literário da escritora de quem os leitores conhecem Parceria de Mim, de 2004. Em Esforço a autora parece não só explicar sua opção estética, como pontuar a vontade de continuar trilhando o caminho escolhido e buscar aperfeiçoá-lo: “Quero mais conteúdo, de pequeno tamanho”, reforça assertiva. É um desejo também poético, enquanto anseio atomístico, à moda de fissão nuclear. Enfim, condensação máxima de sentidos.
Mas o leitor atento terá encontrado antes, na página 28, outras frases definidoras da carpintaria textual de Tânia Liporoni. No imponente Passo Adiante, entre vocábulos-chave como pedras, edifício, restos fortificadores, ruir, ela afirma com convicção: “Gosto das fundações”. E eu, que acompanho a literatura de Tânia desde seus primórdios, através dos minitextos que enviava para publicação e surpreendiam pela forma concisa, associo suas palavras à arquitetura, principalmente a de Mies van der Rohe, que cunhou expressão icônica para traduzir o espírito pós-moderno, a vigir nas artes depois da Feira Universal de Barcelona, em 1929: “menos é mais”. Aboliu os excessos. Privilegiou o essencial. Criou o estilo que seria chamado minimalista.
É exatamente por aí que a moderna e cosmopolita Tânia Liporoni navega em busca de expressão a seus sentimentos de mundo e de ser pensante, questionador, sobretudo reflexivo, desejante, recenseador de entendimentos que expliquem o mistério da vida. Nesta empreitada irrompem as frases exatas, lapidadas, precisas na tradução da complexidade dos afetos, da curiosidade que move o ser, das custosas indefinições, de algumas certezas, de perplexidades várias. E principalmente do anseio pela apreensão do instante e tudo que nele existe - “ a escandalosa vontade de eternizar este momento”, conforme diz a narradora do lispectoriano Siena Queimada. Em A floresta azul, o mago que pinta todas as árvores nesta cor, e depois conta a história de seu feito, aproxima-se deste querer que é o de todos que tentam capturar pela escrita o milagre da existência, a todo momento reconfigurável.
No nível formal do gosto pela palavra, que Tânia explicita a toda hora, o uso de homófonos faz a diferença: “Não fico nem voo.” A competência vocabular opõe verbos, destaca pulsão, limita controles: “Posso menos do que desejo”. O prazer na economia de termos confere um tom de aforismo a frases do tipo “O outro lado do belo sempre pode ser cruel”. Tânia faz da frase limpa, clara, curta e elegante sua matéria prima. O que não quer dizer que não se permita alongamentos, como em Balanço, construído com único e longo parágrafo, à maneira de alguém questionando outrém num só fôlego. Essa correlação entre forma e fundo é uma das riquezas do discurso de Tânia, assim como o é também o vínculo que ela estabelece entre escritor e indivíduo, entre viver e escrever. No belíssimo Ponto de fuga, quem não precisa? mergulha fundo no exercício de alteridade (“Que me conceba macho por um tempo, depois um pássaro, uma pedra erguida do chão, talvez.”), para concluir: “Acordo dias de modos diferentes, requebro rotinas, reapareço para o espanto, e ainda é pouco. Volto às teclas.”
Como Van der Rohe, Tânia Liporoni ergue alicerces sólidos antes de construir paredes transparentes para mostrar interiores através de novas e ricas metáforas. Ela fundamenta seu verbo na experiência e no sonho, na razão e na sensibilidade, na cultura e na intuição. Traça um plano e o executa, pois a sua não é escrita que se deixe conduzir pelo aleatório. Se Van der Rohe mantém o mármore milenar e agrega aço e vidro às suas construções, Tânia, à maneira do que diz um de seus alter egos ( “tenho costumes antigos para os moldes atuais”) mostra em Pega-me, como já havia nos ofertado em Parceria de um, formas contemporâneas para constatações perenes e valores atemporais. Consegue alcançar um resultado precioso, pois fixa com estilo enxuto o humanismo que aos pré-modernos demandou centenas de páginas.
Espero que os leitores compreendam o valor de Pega-me no contexto da vida literária não só de nossa cidade, mas do Estado e do País. É obra que deveria concorrer a um destes prêmios que conferem visibilidade nacional a seu autor. Tânia Liporoni merece estar ao lado dos grandes escritores brasileiros.
O MÁXIMO NO MÍNIMO
Tânia Liporoni
Tânia Maria de Almeida Liporoni nasceu em 1962 numa família onde muitos exercem a profissão de advogado, como seu pai, Fábio Liporoni, com quem trabalha. Sua mãe, Niza Liporoni, é nome reconhecido pela cultura e inteligência nos meios universitários de Franca. Tânia cresceu portanto num ambiente onde o estímulo ao conhecimento foi sempre intenso.
Fez o curso fundamental no IETC e o colegial no Colégio Alto Padrão. Ingressou na PUC e ali se formou em Direito em 1985. Mudou-se para os Estados Unidos onde trabalhou durante sete anos com Direito de Imigração. Depois residiu no Canadá, atuando na área de Direito Internacional.
De volta a Franca, abriu escritório de advocacia e fez especialização em Direito Processual Civil. Mestre em Direito, tornou-se professora universitária.
Começou a escrever textos curtos no seu retorno ao País, encaminhando-os para jornais e revistas. Participou de concursos como o Mapa Cultural Paulista, colocando-se em primeiro, segundo e sexto lugares. Tem textos publicados em antologias de Campinas, São Paulo e Franca. Seu primeiro livro chama-se Parceria de um e foi lançado em 2004. Pega-me é o seu segundo título.
Serviço
Título: Pega-me
Autora: Tânia Liporoni
Editora: Ribeirão Gráfica e Editora
Onde comprar: nas livrarias da cidade