A edição de domingo do Jornal da Cidade deu uma sacudida na alma de Bauru. De forma pungente, e sob o título ‘Zumbis do crack vagam na madrugada bauruense’, o jornal trouxe reportagem sobre os ‘jovens sem rumo’ que, em grupo, perambulam pela linha férrea para consumir droga. Pupilas dilatadas, pele colada aos ossos, respiração acelerada e fala comprometida são traços desses usuários que formam uma espécie de ‘cracolândia’ nos quatro cantos da cidade.
A repórter Rita de Cássia Cornélio, que tem mais de 20 anos de ofício, descreve o cenário com a força da palavra: “A cena impressiona qualquer ser humano. Em um determinado momento da madrugada, os usuários chegam ao linhão na área central, em bando, como uma ninhada de ratos à procura de comida”. O objetivo é fumar crack. “Quando acaba a fumaça, eles querem mais e ficam andando de um lado para outro. A fissura só passa quando o cachimbo alcança novamente a boca e o cérebro recebe a mensagem de saciado”. Os depoimentos são fortes e servem de alerta a pais e educadores: “Me sinto um lixo”, admitiu um deles.
A professora de psiquiatria Florence Kerr Correa, da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu, diz que nos últimos cinco anos triplicou o número de usuários de crack. O crack substituiu rapidamente a cocaína, como derivado dela. Antes, se discutia se a cocaína causava dependência ou não. Até então, ela era injetada ou inalada. Com o crack, a fumaça é absorvida mais rapidamente que a cocaína injetada e chega ao cérebro em menos de 10 segundos. A partir daí, a ação é devastadora.
Opinião
Em editorial de primeira página intitulado A vida pede socorro, o jornal diz que o crack se alastra de forma alarmante e transforma pessoas em viciados já na primeira experiência, para em pouco tempo depois transformá-las em zumbis, “vagando como vivo-mortos” até o óbito. Diz o jornal que polícia, profissionais de saúde, pais e familiares, religiosos, conselhos e vários outros segmentos da sociedade e o trabalho voluntário de cidadãos solidários, mesmo somados, não conseguem evitar o primeiro contato de muitos com a droga e, o pior, depois do vício a luta pela recuperação é quase impossível. “Corrupção, violência e desestruturação familiar são causas e consequências” do problema, que “precisa de atitudes efetivas de nossas mais altas autoridades do Executivo, Legislativo, Judiciário, especialistas”.
Outras regiões
Na coluna de hoje, Bauru é notícia. Na semana passada, foi Araraquara. Amanhã poderá ser qualquer outra porque o problema não diz respeito unicamente a essas duas cidades, mas atinge em proporção menor ou maior todo o Interior de São Paulo.
Epidemia
No Brasil, as internações de pessoas para se livrarem do crack cresceram 225% em cinco anos; 82% são homens abaixo dos 30 anos de idade. “A ONU vem censurando as autoridades brasileiras por não considerarem a dependência de drogas uma questão de saúde pública que exigiria a criação de um sistema de serviços de saúde especializado para atuar e controlar a incidência desse grave flagelo social”, afirma o delegado de polícia em Araçatuba, Vilson Disposti. Fundador do Centro de Reabilitação Ave Cristo e autor do livro Filhos da Dor: Prevenção e Tratamento da Dependência de Drogas, o delegado Disposti afirma: “Seja pelo comovente símbolo de degradação humana que emerge das tristes cracolândias; seja pelo alerta que vem do Rio de Janeiro, onde o Estado resgata para a si e para a sociedade os territórios ocupados pelo narcotráfico; ou ainda porque o problema das drogas entrou, afinal, para o debate nacional, ampliam-se as pressões sociais para as ações governamentais”.
Pesquisa
Segunda-feira, a Confederação Nacional dos Municípios (CNM) divulgou o resultado de levantamento que aponta a existência de 1,2 milhão de pessoas consumindo crack no Brasil. A droga é consumida em 3.871 dos 3.950 municípios pesquisados pela entidade. Desses, apenas 134 declararam ter firmado convênio com o governo federal no âmbito do Plano Nacional de Combate ao Crack. A maior parte não encaminhou ou não teve projeto aprovado. Em apenas 8,43% das cidades pesquisadas há programas municipais de combate ao crack. “Falta ao país uma estratégia para o enfrentamento do crack. Não há uma integração entre União, Estados e municípios”, afirma o presidente da entidade, Paulo Ziulkosky.
Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br