A voz da cidade foi ouvida. A Secretaria da Educação anunciou que as 7 escolas ameaçadas de fechamento até 2013 voltarão a receber matrículas para as séries de ensino fundamental.
Centenas de francanos se manifestaram duramente contra o mau jeito do anúncio – a dirigente regional de ensino Ivani Marchesi repassou ao conhecimento público, como simples gerente, a fria decisão tomada pela Secretaria da Educação do Estado, respaldada, segundo ela, em “falta de demanda” – e, especialmente, contra o silêncio de autoridades frente ao assunto.
Afinal, “não se fecha escolas como o ‘Caetano Petráglia’ e o ‘Cel. Francisco Martins’ simplesmente por economia”, ou “que história é essa de municipalização a qualquer custo?”, ou ainda, “que País buscamos ter quando fechamos escolas e abrimos presídios?” – para ficar apenas em algumas das teses apresentadas. Pais se uniram e ampliaram o grito contra a ignomínia. Professores, habitualmente calados – ou censurados? – criaram coragem e foram para a rua.
O resultado – um primeiro resultado, é bom que se diga –, consolidou-se nos últimos dias. Uma reunião na Diretoria Regional de Ensino oficializou a revisão da decisão de fechamento. Bem ao estilo de Marchesi e seus superiores, não aconteceu explicação pormenorizada sobre a reversão. Extraoficialmente soube-se que o deputado Roberto Engler (PSDB) se encontrou com o governador Alckmin (PSDB) e com Paulo Renato (PSDB), Secretário de Educação do Estado e, destes encontros, resultou a manutenção das salas e matrículas.
Dói saber que nossos representantes agem – na maioria das vezes – quando o incêndio acontece e as labaredas ameaçam. Penso que represantes do povo deveriam estar sistematicamente atentos a decisões urdidas entre quatro paredes refrigeradas e gritarem a plenos pulmões quando os interesses das pessoas fossem contrariados, mas, quando se trata de política, parece que ninguém quer queimar a mão e a guarda no bolso.
Verdade é que o assunto apaixona e arrasta. Não houvesse acontecido o anúncio da reversão da decisão, a comunicação quase diária da grande massa de antenados que se corresponde com este Comércio também teria se mantido. Volta e meia, defronto-me com uma cartinha ou e-mail pedindo aos meios de comunicação do GCN que continuem investindo no assunto; que não deixem a decisão de fechamento cair no esquecimento. Como tenho dito, sábio, o povo. São sopros que mantêm acesa a chama.
Mesmo sabendo-se que o anúncio de retomada de inscrições pode ser fogo de palha pensado para acalmar – por enquanto – os ânimos e não empanar as próximas decisões da municipalização que, irreversivelmente acontecerá a partir de janeiro, ouso continuar afirmando que é só a união que faz a força – e não açúcar, como diz a infame piadinha popular. Digo mais. Só a união inteligente, de olhar acurado e determinado nesses tempos de desprestigio educacional, é que vale. Mais do que nunca, precisamos continuar atentos.
REFLEXOS
Recebi e-mail de leitor desta coluna em cidade do Estado de São Paulo, com comentário sobre a discussão que empreendi em colunas anteriores, sobre o fechamento de escolas em Franca e sobre o que está nas entranhas do projeto de municipalização que o governo de São Paulo vai empreender. Transcrevo. As palavras são suficientemente fortes: “Caro Jornalista e Editor de Opinião, Luiz Neto. Sou professor de biologia com 28 anos de exercício de profissão em escolas públicas do Estado de São Paulo. Sonhei, trabalhei, lutei. Sempre tive horário para chegar em meu trabalho e nunca tive horário para sair. Sacrifiquei minha esposa e meus filhos pela paixão que tive pela escola. Pensava que estava construindo um futuro promissor para o nosso Brasil, através da juventude que esteve sob meus cuidados... Desencantado, hoje chego ao final da carreira ciente de que estive a construir castelos sobre pântanos pois, inocente, fui conivente com o instinto maquiavélico de nossos governantes que, como predadores, têm conduzido educadores e a juventude brasileira à varanda da charqueada, onde, como hienas ou abutres, os poderosos carecem da vida de outros para se manterem no topo pirâmide alimentar.
(Li) seu ‘Mesmo com pito’, publicado neste Comércio em 13 de novembro (disponível em http://www.gcn.net.br/jornal/index.php?codigo=112248), (sobre) fechamento de escolas em razão da municipalização do ensino de 5ª à 8ª séries, postura que não temos aqui por parte da imprensa local, que nesta história, tem faltado com a verdade. A ausência da consciência cidadã, é um prato cheio para as hienas e os abutres fazerem da juventude um verdadeiro banquete. Um jornalista (pode ser) é um inconveniente, uma ‘persona non grata’”.
‘TAMBÉM SOU’
“Conheço essa história. Aqui em (minha cidade), eu também sou ‘persona non grata’ por ter declarado que não compactuo com esta aberração.Em 2007, decidiram municipalizar o ensino fundamental de 5ª à 8ª série, concentrando o ensino médio em um espaço limitadíssimo sem consultar o Conselho Municipal de Educação e a comunidade. Concretizaram em 2010 o que decidiram em 2007 e já se passou um ano com os alunos concentrados em uma escola sem sala de informática, sem biblioteca, sem laboratório, com uma quadra de esportes a 12 metros de salas de aula, com os arquivos da secretaria em um banheiro etc.; enfim, em um lugar onde os detentores do poder público jamais colocariam seus filhos. Prevendo esta situação em 2007, como membro do Conselho Municipal de Educação, fui contestado nos seguintes termos: ‘Você está preocupado por quê? Os pais e os alunos não estão preocupados’. Embora este questionamento seja uma grande verdade, entendo que jamais poderia ser apresentado como justificativa para que eu me acomodasse. Não é ético, mas é a realidade do Brasil que muito me decepciona. A luta foi árdua e as conquistas nulas. Tenho em mãos um dossiê referente a este processo, com aproximadamente 100 páginas, envolvendo documentos remetidos às autoridades municipais e estaduais, todas com protocolo de recebimento. Coloco-me ao seu dispor para partilhar detalhes desta luta e aproveito oportunidade para parabenizá-lo pelo compromisso jornalístico”. Vou pedir uma cópia.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br