08 de julho de 2026

Impossível abrandar...


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Uma bela maquiagem, digna de prêmios e, mesmo não sermos lindos como Angelina Jolie e Brad Pitt, transformamo-nos num casal de noventa e talvez tantos anos, ambos lúcidos, com brilho no olhar, talvez limitados fisicamente pela idade, porém cheios de dignidade e rodeados por uma numerosa família sorridente e cúmplice na solidariedade. Na foto, todo mundo feliz, um monte de crianças sentadas no chão e uma, em especial, no colo da ‘Angelina’. Provavelmente a última tataraneta. Esse é o sonho. A realidade, no entanto, é outra.

Velhice é um tema meio tabu. Primeiro, ninguém aceita ser considerado idoso: o eufemismo ‘terceira idade’, convenhamos, é muito mais simpático. A categorização designada por ‘velho’, então, virou xingatório. A realidade, porém, também é outra: ou somos crianças, ou jovens, ou adultos, ou velhos. Não adianta tentar suavizar substituindo as palavras por outras mais agradáveis. É impossível abrandar a realidade com esse artifício. Embora as categorias sejam distintas e perceptíveis, são tênues as certezas do momento da transição de cada uma delas. Crianças são facilmente identificáveis, porém quando elas viram jovens: quando as meninas menstruam? Quando o menino tem sua primeira ejaculação? Quando um jovem se torna adulto: quando entra no mercado de trabalho? Muda de estado civil? Consegue um emprego? Cria família? E o adulto, em que momento passa para a classe seguinte: com a aposentadoria? Ao ganhar prioridade em atendimentos? Com a chegada de netos? Difícil precisar. Percorremos a trajetória da vida em permanente estado de vir-a-ser, como crisálidas. Se cada vida fosse um filme e como num filme tivesse quadros apostos uns aos outros, em sequência, ainda assim seria difícil exatificar, nas evidentes transições e mudanças físicas, o preciso momento da metamorfose.

É engraçado. Quando crianças, tentarmos reproduzir atitudes e costumes dos pais - ou avós - usando suas roupas, sapatos, bolsas e adereços, imitando-os nas atitudes e gestos. É até conveniente: com tais imitações vamos estabelecendo parâmetros para nossas personalidades, vamos nos configurando internamente. A coisa vai perdendo a graça à medida em que o tempo passa. Além da graça, também a eficiência: tentar permanecer na categoria anterior, pulando etapas ao contrário, não é mais engraçado. É ridículo. Do lado feminino, minha avó, com minha idade, era uma anciã. Minha mãe, com a mesma idade, era uma senhora comportada e discreta. Atualmente, mulheres com a mesma idade, não são anciãs, nem comportadas, muito menos discretas. São mulheres que trabalham, viajam sozinhas, decidem, escolhem, optam, têm sonhos, sabem seus limites, conhecem suas potencialidades. Às vezes recorrem a artifícios cirúrgicos para minimizar os efeitos do tempo: um direito, uma opção que redunda em desastres, algumas vezes. (Ou muitas.)

Aí ficamos velhos. Ou idosos. Ou entramos na ‘terceira idade’. Independente do termo, a realidade é que perdemos a tonicidade da pele, as mãos enrugaram, a flacidez geral se tornou evidente. De ganho, mas ganho mesmo, apenas a possibilidade do atendimento especial em filas de bancos, aeroportos, supermercados e hospitais. Para entrar em ônibus e metrôs ainda dependemos da velha disputa e do salve-se quem puder. Dentro deles, outro privilégio: lugar especial, geralmente ocupado por alguém analfabeto e cego que não entendeu a orientação ‘Lugar Reservado para Idosos’. Ia esquecendo: vagas especiais nos esperam nos estacionamentos dos shoppings, identificadas e também ocupadas por analfabetos. Porém ser idoso, ou velho, ou mais erado, ou ser da terceira idade se não é horrível, não é uma delícia: temos memória e sabemos como era bom desempenhar algumas funções com mais desenvoltura e desembaraço. O corpo perdeu a flexibilidade. As dores se generalizaram. Uma noite mal dormida provoca evidentes consequências faciais. O paladar permanece intacto, o cardápio fica limitado. Pior, porém, são os bailes da ‘terceira idade’ terminarem e começarem muito cedo. De todas as mudanças e transformações, essa é a mais triste de todas!

ASPAS 1
‘Um homem começa a ficar velho quando prefere andar só que mal acompanhado’. (Millôr Fernandes)

ASPAS 2
‘Envelhecer suaviza um pouco a pessoa. Um monte de medos desaparecem’. (Richard Gere)

ASPAS 3
‘A tragédia da velhice não é ser idoso, mas ter sido jovem’. (Oscar Wilde)

ASPAS 4
‘Quarenta anos é a velhice dos jovens. Cinquenta anos é a juventude dos velhos’. (Victor Hugo)

ASPAS 5
‘A velhice, que hoje tarda bem mais do que décadas atrás, pode ser bela na sua beleza peculiar; alegre na sua alegria boa; alerta na medida de seus interesses; procurada e apreciada enquanto não for amarga’. (Lya Luft)

ASPAS 6
‘Nosso amor pela pessoa velha não deve ser uma opressão, uma tirania a inventar cuidados chocantes, temores que machucam. Façam o que bem entendam, cometam imprudências, desobedeçam conselhos. Libertemos os velhos de nossa fatigante bondade’. (Paulo Mendes Campos)

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br