08 de julho de 2026

O justiceiro


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No início dos anos 80 fomos selecionados e designados pela FAB para curso de especialização em salvamento e resgate na Base Aérea do Campo dos Afonsos, na época, no afastado bairro de Marechal Hermes, cidade do Rio de Janeiro

Naquele momento iniciava-se a instalação de Estados paralelos através do domínio de criminosos nas comunidades mais pobres. O Estado reagia a cada nova tentativa de dominação dos criminosos, os helicópteros da FAB eram constantemente deslocados para dar apoio nas incursões policiais. Em razão dos acontecimentos atuais o momento é propício para reflexões sobre a cidade do Rio de Janeiro do início dos anos 80 e a cidade de hoje. Recordamos que entre janeiro e agosto de 1980, surge a figura do ‘justiceiro Mão Branca’, que executava bandidos por toda a baixada fluminense, que surgiu da necessidade de ‘sensacionalismo’ e com o tempo passou a ser usado para esconder as ações de grupos de extermínio.

‘Mão Branca’ foi alçado a figura de ‘mito urbano’, se popularizando através de acervo de jornais, cartas com suas ‘supostas’ listas de execuções. Usava como justificativa para os crimes semanais a defesa de órfãos, viúvas e inocentes. Para ‘ele’, o que estava em questão era a concretização de uma justiça, de uma penalidade a ser aplicada em decorrência da ruptura do pacto social.

O tal ‘Mão Branca’ resumia a necessidade que os cidadãos sentiam de uma ‘limpeza’ na região, visto haver a questão de conflito entre os moradores e trabalhadores do local que viviam pressionados pelos bandidos do bairro, que assaltavam, cobravam ‘pedágios’ pela segurança, matavam, estupravam e comercializavam drogas. Desta forma, o ‘justiceiro’ praticamente transformou-se no substituto imediato do Estado nas questões referentes a segurança pública, pois nenhum cidadão acionava a polícia porque, simplesmente, não havia policiais. A única solução era acionar o ‘justiceiro’ local que, agindo sozinho ou em grupo, cuidava da segurança do lugar afastando, a seu modo, criminosos, vagabundos e qualquer coisa errada que ocorria no local.

A vida dos cidadãos em locais onde não existia a ‘proteção’ de ‘justiceiros’ era muito difícil, principalmente porque viviam sob constante ameaça em todos os sentidos. Para nós que analisávamos toda aquela situação, a existência de ‘justiceiros’ como o ‘mão branca’ era transgressão à ordem social, ao se posicionar acima ou abaixo da legalidade, rebelando-se contra a própria organização social, ora transformando-se num déspota, mantendo-se ativo através de uma prática continuada de ilegalidades, violência, abuso e arbitrariedade; ora era aclamado por um povo sedento de justiça que, como última solução, legitimava as transgressões cometidas. Vislumbrávamos que no futuro, para extirpar tal Estado paralelo não seria fácil visto que, com o passar dos tempos, a proteção “dada” passaria a ter um ‘alto preço’ para a comunidade.

Agora, passados mais de 30 anos, finalmente o Estado parece querer retomar o território perdido no qual cidadãos ficaram à mercê da bandidagem, em razão da falta de um projeto educacional que pudesse oferecer possibilidades de trabalho, de dignidade, de inserção social.

Enfim, todos estão comemorando a ‘vitória’. Parece que ainda não entenderam que o principal derrotado foi o Estado omisso em políticas sociais, quando esses bandidos ainda não eram bandidos e eram jovens adolescentes que precisavam de uma escola decente, abrindo caminhos para seus ‘sonhos’ e perspectivas de vidas melhores, ao invés da única opção dada, ou seja, os caminhos da criminalidade.

A. A. FRANCANA
Outro dia, minha mãe remexia seus ‘guardados’ e me presenteou com uma de suas relíquias, um enorme cartaz que anunciava jogo entre a A. A. Francana e a A. A. Portuguesa de Desportos, para o dia 02/01/1949, no estádio da Bela Vista. O fato curioso era um aviso que assim dizia: ‘Ficando essa partida em Cr$ 50.000,00 para o clube e como a mesma será realizada para a obtenção de numerário que venha a cobrir as despesas feitas com os últimos jogos do campeonato, todos os srs. associados pagarão ingresso. Agora, mais do que nunca precisamos ver quais os que verdadeiramente querem bem a A. A. Francana. Assim, espera a Diretoria contar com a máxima boa vontade de todos. Ide, pois, ao Estádio da Bela Vista’. Parece que o aviso de janeiro de 1949 vale para o atual momento. Ou seja, com uma nova diretoria cheia de idéias e projetos, vamos ver quem verdadeiramente quer o bem da A. A. Francana, através da campanha de sócio torcedor.

Toninho Menezes

Advogado, administrador de empresas, professor universitário -

toninhomenezes@comerciodafranca.com.br