09 de julho de 2026

Há coisas que precisam ser ditas numa noite de chuva


| Tempo de leitura: 2 min

Téo Lopes
Escritor

Primeiro: quando finalmente a mãe achou o fósforo e acendeu a vela, o garotinho entendeu o que ela havia dito segundos antes:

-Calma, meu amor, vai ficar tudo bem.

Segundo: antes de acabar a força, quando o vento parou de assobiar e começou a gritar forte, quando os relâmpagos e trovões pararam de conversar e começaram a bater boca, o garotinho havia contado:

-Mãe, o céu tá falando palavrão.

Terceiro: quando uma criança descobre o tamanho do seu medo, é porque ela está deixando de ser criança. Foi o que aconteceu quando a chama da vela golpeou a escuridão com sua pequena claridade. Um redemoinho de alegria e de conforto se pronunciou no coração do pequeno. Ele abraçou a mãe e descobriu que todo o seu medo cabia naquela simples luz. E não só o medo do escuro. Outros medos também. O seu medo de ser adulto e de conquistar grandes coisas, o medo de ser corajoso e largar essas coisas para trás e abraçar o desconhecido, o medo do futuro e seu grande balaio de surpresas: todo esse medo cabia naquele pequeno foguinho. Também o medo de ser importante, de ter fé, de ter responsabilidades, tudo isso cabia, naquele momento, no pequeníssimo incêndio. E principalmente o seu medo da chuva, dos trovões, dos grandes estrondos e palavrões: ficaram todos daquele tamanho, do tamanho do minúsculo sol.

Quarto: observando o poder que tinha aquela pequena luz diante da braveza do céu, da noite e da água, o garotinho questionou se a luzinha não seria Deus. Ou uma pequena parte de Deus.

Quinto: quando a mãe disse que ia no banheiro e já voltava, o menino disse instantaneamente:

- Sai de perto da vela não, mãe.

Ou seja, a vela sem a mãe não tinha a menor graça. A claridade perdia a importância. Os medos ameaçavam voltar.

Sexto: a mãe pois o garoto na cama e entre um trovão e outro a vela fazia um silêncio no qual cabia uma oração. A mãe rezou com o filho e ele aprendeu muito mais coisas do que todo o céu saberia dizer com seu barulho. Ele pensou no grande poder que a mãe tinha, o poder de picar em palavrinhas suaves os palavrões da tempestade. E que grande poder a vela tinha, o de iluminar o rosto da mãe.

Sétimo: eles também fizeram silêncio, era hora de dormir. A vela passou a funcionar como um brinquedo. Um brinquedo de esperar. A mãe acabou adormecendo na cama, junto do filho. O garotinho ficou olhando para a vela. A vela ficou admirando o menino. Ele ficou com medo de dormir, pois queria também proteger a mãe daquela chuva enorme. A vela pensou: “que grande poder esse menino tem, o poder de acreditar na minha luz”.

Por fim, o soninho ganhou o menino para si. A vela percebeu, então, que agora era ela, como sempre, a enfrentar sozinha toda a fúria da natureza.