Farisa Moherdaui
Professora
Naquela noite, um tanto cansada pelos afazeres do dia, a minha maior certeza era a de que iria dormir o sono dos justos ou dos anjos, porque do que eu precisava e queria mesmo era dormir, mas o sono não vinha.
Viro de um lado para o outro, troco a cabeceira pelos pés da cama, coloco mais um travesseiro, retiro os dois travesseiros e nem um bocejo sequer. Busco um livro, ligo a TV e só consigo ficar mais desperta. Depois, rezo um terço em louvor à Virgem Maria, mas não um só e acabo por rezar três terços, um rosário inteiro e nem pestanejei.
Ah! Mas agora sim, tive uma brilhante idéia, lembrar ou inventar histórias, aquelas que me vierem à mente. E foi assim:
- Embrenhar e me perder naquela mata fechada, densa, caminhando sem rumo, mas encantada e sem medo, pensando ser a Branca de Neve que logo encontrou a saída; não dormi.
- Andar sozinho à noite pelas ruas de uma cidade grande e desconhecida, quando aquele homem mal cuidado, vestes rotas, veio ao meu encontro e com voz serena indicou-me o caminho; impressionou-me o estranho cavalheiro e não consegui dormi.
- Saltar da ponte e atravessar a nado a represa do rio Grande, lá em Rifaina, mesmo sem saber nadar, mas a água muito fria espantou o meu sono.
- Desafiar o trânsito querendo atravessar de carro ou a pé, as avenidas e ruas de Franca, principalmente em horários de pico. Se assustada, como dormir? Que raiva!
- Ainda sem sono a lembrança de minha mãe a aconselhar as suas crianças quando teimavam em não querer dormir. E ela a dizer:
- Contem os carneirinhos do rebanho, mas só os branquinhos ta? Um, dois, três, dez ...vinte ...cem ...e nós dormíamos o mais doce sono.
Nesta minha noite, ainda tive tempo de dizer para mim mesma:
- Boa noite, durma bem. E dormi.