Marco Antonio Soares
Professor de Lingua Portuguesa
Assim que a água atingiu ponto de fervura, ela segurou firmemente a alça da chaleira e, em círculos suaves, derramou o líquido fumegante sobre as partículas amorenadas.
Logo, o aroma inconfundível de café ganhou o ar, perfumando-lhe as narinas, desabrochando lembranças em sua alma. Ela encostou o corpo no armário, apoiando, com o antebraço, o peso do corpo.
Carinhosamente, as pálpebras estenderam seu manto sobre os olhos da mulher. Agasalhadas, as retinas enxergaram um mundo repleto de lembranças. De repente, viu-se em cima de uma pequena colina, lá embaixo, suas irmãs e as outras crianças da colônia brincavam de roda. Pisou o chão rapidamente, tentando livrar-se da agonia de estar ausente da brincadeira. Mãos dadas, seus dedos sentiram os nós de outros dedos, seu corpo girou, e sua voz cantou muitas cirandas de roda.
Quando se cansou, ouviu cantilena familiar, correu até à cozinha da velha casa, a mãe escolhia feijão. Acomodou-se, observou por minutos aqueles olhos que teimavam em saltar os aros dos óculos. Mão em concha, arrastou um punhado de feijão para perto de si, os dedos mais novos não possuíam a mesma habilidade daqueles dedos mais velhos. De quando em quando, como que por piedade, dava oportunidade para algum grão disforme servir de alimento junto aos outros sadios, a mãe sabia, mas fingia não ver nada.
Os cachorros ladraram, as crianças dispersaram-se em fuga desnecessária. As visitas chegavam. Viu a coragem e a força do pai assomarem na sala. As mãos do homem traziam um livro de Monteiro Lobato. A voz grave pedia:
– Leia, minha filha
A menina narrava histórias. Todos permaneciam quietos. Às vezes se emocionavam, às vezes riam, às vezes não suportavam a curiosidade e pediam antecipação dos acontecimentos. O pai ouvia, admirando a fisionomia de quem estava na sala, profetizava:
– Essa vai ser professora.
Os visitantes anuíam com a cabeça.
Uma brisa mansa, aproveitando-se de uma janela aberta, acariciou o rosto da mulher, levando consigo o aroma de café que se espalhara dentro do apartamento. Todas as suas lembranças dispersaram-se em fuga desnecessária. Escondidas no coração, elas ficaram silenciosas com os olhos cheios de receio e curiosidade.