Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
Ultimamente, prezado leitor, tenho pensado muito no significado da vida, na luta pela vida, na correria, na emulação, nos temores, nos horrores, no estresse, no cansaço e nas angústias que a vida nos impõe. Tenho pensado na longa elaboração cultural que se processou no transcorrer de séculos e mais séculos para consolidar-se nas civilizações com seus monumentos arquitetônicos, sua arte, seu engenho, sua organização político-social, sua economia estatal ou de mercado, suas máquinas , suas invenções, seu conforto , seu bem estar. Após milênios de trabalhos, guerras, sacrifícios e esforços conjugados, conseguimos uma certa independência da natureza: a casa nos abriga da chuva, o aquecedor nos esquenta no inverno, o avião encurta as distâncias, a geladeira refresca a nossa cerveja. Se, por um lado, conseguimos algum controle sobre a natureza, por outro, somos inteiramente dependentes do ambiente artificial que criamos. O que faremos se a água acabar, a luz faltar, o gaz não chegar, o etanol não for entregue aos postos, os alimentos desaparecerem das prateleiras dos supermercados? Estaremos perdidos e desamparados. Frágil homem civilizado, eterno dependente de suas próprias criações!
Boa mesmo era a vida do aborígene, do índio, do selvagem. Não precisava pagar a Sabesp, a CPFL, as tarifas telefônicas. Não precisava declarar imposto de renda, quitar o IPTU, o ISSQN, o IPVA. Não precisava fazer o exame do ENEM e nem freqüentar escolas para saber a gramática e falar difícil. Aprendia com a vida e os exemplos. A água lhe era dada por um córrego próximo : pura, límpida, cristalina, sem cloro , sem fluor e sem qualquer poluição. O fogo, perenemente aceso, dava-lhe o calor e a luz . Os alimentos, buscavam-nos nas matas e nos rios. Caçar e pescar, lazeres do homem hodierno, eram o “árduo “trabalho do aborígene. As mulheres plantavam e colhiam. Depois do parto, quem descansava na rede eram os homens. Os velhos, segundo Pero de Magalhães Gandavo, eram mortos e comidos ao invés de apodrecerem debaixo da terra ( o estômago era mais sagrado do que a cova). Os pajés curavam as doenças sem intervenções cirúrgicas, internações hospitalares ou remédios desagradáveis: curavam com fumaça, cantos e orações.
E tudo de graça!
Como nós, os índios nasciam, cresciam e morriam. Diferentemente de nós, sua vida era muito mais tranqüila e alegre. Viviam da natureza, pertenciam à natureza, submetiam-se à natureza. Enfim, viviam completamente pelados num verdadeiro paraíso, paraíso do qual fomos arrancados pela civilização.