Pela primeira vez após o choque de presenciar a morte do marido, a comerciante Ângela Pereira, 37, concedeu uma entrevista ao GCN Comunicação, em sua residência no Jardim Pinheiros, junto com os dois filhos, de 3 e 7 anos. Doze dias após o assalto, ela conta que sua rotina mudou completamente. Além de cuidar dos dois filhos sozinha, a comerciante assumiu o controle total de suas duas padarias e tenta tirar forças dos sorrisos das crianças para continuar a vida. “Estou triste e nem sei como estou de pé. Toda hora acho que ele vai chegar. Tudo que tenho feito é pelos meus filhos”, disse emocionada.
Fernando Pereira, de 37 anos, morreu vítima de um assalto. Ele foi alvejado por três tiros (dois na cabeça) na frente da mulher ao reagir à ação de um ladrão armado no dia 22 de novembro. O assaltante invadiu a padaria da família no Jardim Vera Cruz, onde também funcionava um posto de recebimento de contas da CPFL. Quando o criminoso se aproximou do caixa, Fernando foi em sua direção armado com uma faca e acabou sendo baleado. A Polícia Civil ainda não conseguiu identificar o autor do crime.
Ao falar sobre os momentos com o marido, Ângela se emocionou várias vezes. A todo momento, esfregava as duas alianças que mantém unidas no anelar esquerdo, a sua e a de Fernando. Eles estavam casados havia nove anos e levavam uma rotina atarefada, comandando as duas padarias, uma no bairro Vera Cruz - onde aconteceu o latrocínio - e outra padaria no Leporace.
Assim como muitos comerciantes, Ângela abriu mão de receber contas da CPFL e irá requerer o seguro pela morte do marido. A viúva pede justiça. “Quero que peguem esse rapaz que levou a vida do Fernando. Só prender ele na cadeia também não vai me confortar. Queria o meu marido aqui comigo”.
DIA DO CRIME
“Estávamos eu e duas funcionárias na frente padaria. Meu marido estava nos fundos desligando tudo para fecharmos. Veio um rapaz magro, de capacete e entrou empurrando nós três. Disse que era um assalto e queria dinheiro. O Fernando veio lá do fundo com uma faca na mão. Foi tudo muito rápido. O moço viu ele com a faca e se aproximou. Fernando perguntou a ele o que estava acontecendo, o ladrão apenas deu dois tiros na cabeça do meu marido. Não deu tempo de reagir. Eu e as meninas agachamos e gritamos socorro. O rapaz mexeu no caixa e foi embora. Quando ele saiu, um outro rapaz o aguardava com uma moto. Depois disso, os vizinhos entraram. A Polícia e o Corpo de Bombeiros chegaram, mas meu marido já estava morto”.
A REAÇÃO
“Não sei se ele estava errado ou certo em reagir. Se tivesse mais segurança nas ruas, não haveria tantos roubos, assaltos. Isso (a morte do marido) não teria acontecido. Não há policiamento naquele bairro, nem se quer uma ronda preventiva passando devagar e olhando. É raro, principalmente, na hora de fechamento do horário comercial”.
PADARIA
“As duas padarias ficaram fechadas quase uma semana após a morte de Fernando. Só voltei a reabri-las no último sábado, dia 27 de novembro. Reabri porque tenho que dar continuidade às padarias. Esse era o sonho dele. Preciso também sustentar as crianças, criar meus filhos. Só por causa deles que continuarei na padaria. Mas agora em menor ritmo, pois tínhamos oito funcionárias nos dois estabelecimentos. Demitimos duas pessoas e, agora sem o caixa da CPFL atendendo, teremos que dispensar mais outras duas, pois não tenho como pagar o salário de tanta gente. Tive que diminuir a minha produção, porque o meu marido era o padeiro e não dou conta de produzir tantos pães e roscas”.
O MARIDO
“Ele era tudo para mim. Finjo que ele não morreu. Ele fazia muitas entregas na rua, então, penso que ele está lá fora neste momento e que ainda vai voltar. Prefiro assim. Não quero acreditar que ele morreu. É difícil acreditar que isso aconteceu. Uma pessoa justa, boa, que fazia tudo certinho. Ele ajudava muitas pessoas, era bastante conhecido no bairro. Ele não era bandido, não tinha passado ruim, nada a ver com crime. Fernando era o padeiro das nossas padarias, gostava de cozinhar e fazia com maior zelo os pães, roscas, e ainda cuidava da parte financeira e de toda movimentação. Apenas o ajudava. Hoje tenho que fazer tudo sozinha”.
OS SONHOS
“O Fernando tinha o sonho de comprar terrenos para colocarmos as padarias e deixarmos de pagar aluguel. Queria crescer e dar boas condições aos filhos. Estávamos planejando uma viagem em família. A gente era muito feliz juntos. Tínhamos uma vida simples, mas cheia de sonhos. Agora tudo acabou”.
FILHOS
“Foi muito difícil contar para as crianças que o pai delas foi assassinado. Para o menor, de 3 anos, eu disse que o papai tinha virado uma “estrelinha” e ido para o céu. Já o garoto de 7 anos entendeu o que aconteceu e chora às vezes. Minha família está me ajudando a lidar com eles. Meu sogro está indo junto comigo à padaria. Agora tenho que ser mãe e pai ao mesmo tempo”.
CPFL
“Foi meu marido que insistiu para colocarmos o caixa de atendimento da CPFL nas duas padarias. Ele queria ajudar os moradores do bairro e dizia: “agora eles não têm onde pagar as contas, vamos colocar aqui para eles não precisarem sair do bairro”. Havia três anos que recebíamos essas contas, mas, há seis meses, o movimento dobrou por causa do corte de recebimento nas lotéricas. Era muito bom porque o cliente que chegava para pagar as contas, já levava um pão ou uma rosca, acabava comprando alguma coisinha. Agora, após o assalto, estou devendo para a CPFL cerca de R$ 23 mil, que era das contas recebidas. Esse dinheiro sumiu. Dar continuidade sozinha com essa dívida, não tenho condições. É a mesma coisa que tirar da boca dos meus filhos e dar para eles (a CPFL). Não tenho nada de bens, a única que coisa que tenho são as padarias para poder trabalhar e me sustentar. A CPFL exigiu até o extrato da minha conta bancária para confirmar se não depositei esse dinheiro”.
JUSTIÇA
“Eu quero justiça. Quero que peguem esse rapaz que levou a vida do Fernando. Só prender ele na cadeia também não vai me confortar, queria o meu marido aqui comigo”.
ROTINA
“Minha rotina está super carregada de coisas. Agora tenho que levantar todos os dias 4 horas para ir para a padaria assar pão de queijo, bolos e pães. Deixo as crianças em casa e tenho que ficar passando aqui sempre ou ligando para monitorar se eles ainda estão dormindo. Em seguida, faço entregas e corro atrás de todas as pendências. Como não tem tido mais tempo, meus filhos tem almoçado e jantado no meu sogro. À noite, a gente fica juntos em casa. Nessa hora tem sido ainda pior, porque as crianças sentem mais a falta do pai. Éramos nós quatro, agora somos apenas três...”.
NATAL
“Não quero nem imaginar como vai ser o Natal. É muito difícil. Essa era uma das épocas das quais o Fernando mais gostava. Nós trabalhamos demais com as encomendas de pudins, doces, bolos. Era o que ele gostava de fazer, era o que ele queria, vivíamos felizes. Às vezes, nós aproveitávamos para curtir semanas depois por causa da correria. O Papai Noel chegava atrasado para as crianças, mas chegava. Esse ano não sei se ele vem”.