08 de julho de 2026

Verdades...


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No meio da correspondência eletrônica, uma mensagem daquelas: bem feitinha, perceptivelmente acompanhada por música adequada, imagens bonitas escolhidas a dedo.

O emissário ainda teve o cuidado de escrever como texto: ‘Liiiiinnddaaa!’, significando que eu devia abrir mesmo - e embalar meu coração, talvez. Eram apenas quatro Leis ou Orientações se não me engano, para eu alcançar um certo progresso interior. Por recebê-la, percebi que minha vida não é tão hermética quanto sempre pretendi; que minhas angústias são visíveis; meus sofrimentos menos internos quanto presumo. Quem mandou, achou que eu deveria estar precisando ouvir algumas verdades. Tinha tempo, pus-me a ler.

‘A pessoa que chega é a pessoa certa’. Sonho com mais dois dias na semana: o dia ‘antes de hoje’ e o ‘depois de hoje’. Completamente diferentes de ontem e amanhã, explico. Talvez assim teria tempo para as tarefas inconclusas, aquela visita adiada há meses, até fazer a consulta oftalmológica, absolutamente necessária. Subitamente a campainha toca: não é inspeção da dengue, nem pesquisa do Censo. É antiga amiga de mamãe: ia passando por aqui, bateu a saudade e pensou em me ver. As tarefas da agenda ficaram espremidas, mas ela me abasteceu com amor em meia hora, um café e uns sequilhos, a imensa lacuna provocada pela ausência materna, causa da dor de orfandade sentida toda vez que, ao acontecer algo bom (ou ruim), procuro pelo telefone a fim de enredar para ela, o que fizeram comigo. Estarei disponível para receber aquele que chega - conhecido, desconhecido; esperado, inopinado; amado ou não ... e interagir com ele. Tomarei cuidado, doravante.

‘O que acontecer com você, é a única coisa que podia ter acontecido’. Quando não gosto à primeira vista descarto, sem hesitar. Pessoas, conselhos, livros, filmes, objetos. Foi assim com essa orientação meio ligada à predestinação, à predefinição do meu destino. Não gostei, já ia rejeitando, quando me lembrei do ditado chinês gravado na placa de madeira, constantemente visto, no qual acredito: ‘Cuidado com o que planta hoje: futuramente você colherá os frutos’. Puras redundâncias através das quais torno-me absolutamente responsável por todas e quaisquer atitudes minhas. Idem por suas consequências. Optar, escolher, decidir: atos solitários, individuais, particulares e pessoais.

‘Não adie, sob pretexto de escolher melhor, a oportunidade para dar início a seus projetos: o momento certo é agora’. Geraldo Vandré cantava ‘quem sabe faz a hora, não espera acontecer’. Na angústia e ansiedade de fazer o melhor, já deixei de fazer o bom milhões de vezes. Postergando o encontro com amigos deixei de viver preciosos instantes de alegria e descontração. Depois eu faço, depois eu ligo, depois eu vejo, depois eu chamo... De repente o elemento surpresa chega, pega e acaba com esses adiamentos, transferências e adiamentos...

‘Quando algo termina, termina’. Óbvio, não? Não. Não consegui enterrar muitos dos meus mortos. Flagro-me chorando leite derramado. Percebo consumir parte da minha energia vivendo sonhos passados e irrealizáveis; lamentando atitudes que não tomei, benemerências que deixei de praticar, boas ações que ficaram pelo caminho. Não me reconheço humana: odeio errar. E lamurio, responsabilizando-me por tudo e por todos que sofrem ao meu redor, esquecendo que cada um é responsável por si mesmo.

Clichês e obviedades - pensei cá comigo. Ansiedade, sofrimento, aflição, tribulações e depressão são manifestações humanas - desses sentimentos a gente não escapa - e a cura de tais incômodos somente poderá ser alcançada com Desapego, Interação, Aceitação e Esperança, afirmativa que também não passa de lugar-comum, e que é absolutamente difícil de entender. A gente é bicho complicado mesmo. Complicadíssimo, aliás...

ESTRANHAMENTO
A Oscar Freire, a rua paulistana chiquérrima, maravilhosa, badaladíssima, está feíssima. Pela época natalina costumava ser enfeitada com luzes, laços e velas - lembro-me de um ano em que colocaram tapetes nas calçadas, simulando pequenas praças onde os maridos esperavam a mulherada gastar. O visual sugere terem pulado o Natal e passado direto para a quarta-feira de cinzas.

PRESENTES
Já pensou em fazer com suas mãos o presente de Natal para os familiares? Há cursos fantásticos sendo oferecidos na cidade: mesmo a mais imperita das criaturas é capaz de bordar um monograma, pintar uma caixa, produzir um objeto de decoração - um cachepô, um tapete. Sentar, pensar na pessoa que se quer agradar, trabalhar na execução do projeto: isso é mais valioso que o relógio aparentemente simples de 40 mil reais (juro!) exibido na vitrine de joalheria famosa.

LIVROS
Dois, de uma vez: Clarice Fotobiografia, de Nádia Batella Gotlib, a história em fotos de Clarice Lispector. Poucas vezes vi trabalho tão fascinante. E Eu, aos pedaços: memórias, de Carlos Heitor Cony, uma autobiografia que ele avalia como ‘desimportante história que lhe pediram para contar’. Ele fez uma seleção, sem obedecer ordem cronológica ou data de publicação. Não é do tipo ‘100 crônicas escolhidas’, ou ‘melhores crônicas’. E descreve o critério adotado como sendo ‘um indisfarçado tom de confissão ou memória’.

PARABÉNS
A revista de comemoração de aniversário da cidade resultou em trabalho digno de ser arquivado. Serviu - e servirá futuramente - de material para pesquisa: é um documento maravilhoso, feito com cuidado, carinho e precisão. As matérias são objetivas, realistas e as análises objetivas e criteriosas. A reportagem de encerramento, assinada por Sônia Machiavelli, é um primoroso e belo poema sobre nossas árvores. Fiquei orgulhosa e emocionada ao receber meu exemplar.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br