No interior do Paraná, meados da década de 60, uma pequena e acolhedora cidade dispunha de um serviço de entrega matinal, em domicílio, do pão e do leite. O encarregado do serviço era Sebastião Padeiro, conhecido de todos. Todos os dias, antes mesmo do raiar do sol, ele colocava a égua Pintura na carroça que era adequada e higienicamente abastecida e cumpria um roteiro de entregas pré-estabelecido.
Os moradores do lugar chegavam a afirmar que se um dia, por qualquer motivo, Sebastião não pudesse realizar o serviço, qualquer outro o substituiria tranquilamente, já que a égua Pintura conhecia - e bem - o roteiro de entregas a ser percorrido.
Nesta mesma cidade havia um cidadão muito espirituoso, porém e infelizmente, vítima do alcoolismo. O nome era Valdir, mas ninguém o conhecia pelo nome de batismo, e sim pelo apelido de ‘Pé de Cana’. Tinha hábitos noturnos. Era notívago. O álcool não lhe permitia trabalhar. Assim, de dia dormia pelas ruas em condições subumanas e de noite, embriagado, perambulava pela cidade. São incontáveis os episódios envolvendo ‘Pé de Cana’. Ele além de espirituoso era muito inteligente. Vítima do alcoolismo acabou falecendo precocemente.
Entre os vários fregueses de Sebastião Padeiro, havia um descendente de italiano, alto, forte, muito correto e com fama de violento. Era ele dono de uma loja de ninharias. Chamava-se Osvaldo, mas por razões óbvias era conhecido como Osvaldão. Sucedeu, porém, que em vários dias seguidos Osvaldão, ao acordar, encontrava o leite na janela, mas não o pão.
Insatisfeito com o fato foi ter-se com Sebastião Padeiro. Noticiou o ocorrido e ponderou que pagava religiosamente pelo serviço. Sebastião Padeiro, com voz firme, garantiu que as entregas eram feitas regularmente e que alguém, provavelmente, estava surrupiando o pão. A história de vida e o reconhecido profissionalismo do entregador eram a garantia de que ele estava falando a verdade.
Assim, o lojista não teve dúvidas: era ‘Pé de Cana’ que estava pegando o seu pão e deixando o leite. Sabidamente leite não combina com cachaça. Resolveu então falar com o provável autor da apropriação indevida e o fez em tom ameaçador. Disse a ‘Pé de Cana’ que se no dia seguinte acordasse e não encontrasse o seu pão na janela, ele iria dar nele uma surra que o obrigaria a banho de sal. ‘Pé de Cana’ de joelhos, jurava inocência a plenos pulmões.
No dia seguinte ao da ameaça, ainda de madrugada, Sebastião Padeiro chega à casa de Osvaldão para a entrega e encontra ‘Pé de Cana’ desolado, sentado na sarjeta. O padeiro intrigado com o fato no mínimo suspeito dispara a pergunta: ‘’Pé de Cana’ o que é que você está fazendo sentado aí?”. O indagado, com voz trêmula natural de uma noite não dormida, responde meio sem jeito: “vou vigiar o pão do Osvaldão até ele acordar!”. O fato teria se repetido por muito tempo. Soube-se depois que não era o ébrio a pessoa que se apropriava indevidamente do pão de Osvaldão.
O verdadeiro autor do pequeno delito, em momento de arrependimento, teria confessado a alguém a prática do ilícito. Realmente, como diz o dito popular, ‘a verdade sempre aparece’.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca