“Um homem sem lembranças é um homem perdido”
Armand Salacrou, dramaturgo francês
Nasci, cresci e vivo em Franca. Excluídos uns poucos anos em que morei em São Paulo para estudar, é justo dizer que passei minha vida toda nesta cidade. Aqui nasceram meus dois filhos, foi aqui o lugar em que meu pai morreu. Franca foi onde comecei a trabalhar e, quase duas décadas depois, é nesta cidade que continuo a exercer o meu ofício. Aos 36 anos, acumulo um razoável número de experiências com a cidade que eu e outras 320 mil outras pessoas chamam de casa. Franca, a terra do calçado, do basquete - e nos últimos tempos, do Magazine Luiza - é o meu lar.
Minhas lembranças mais remotas me remetem à Franca do final dos anos 70. Morava na rua Manacá, uma pequena quadra com nome de árvore no meio da Vila Flores. Era uma casa de esquina, com alpendre vermelho, cerca viva e portão baixinho. Tive uma infância privilegiada. Passava o dia na rua, brincando com dezenas de amigos. Matança, pique-esconde, pique-de-pegar, ‘gol de classe’ (uma pelada rudimentar disputada na rua), maré e béti (assim mesmo) eram atividades que recheavam minhas tardes durante toda a infância.
A gente brincava na rua todos os dias. Depois do almoço e de algumas horas reservadas ao estudo e às lições (tempo que, na verdade, só os muito aplicados, como o Ricardo Andrade, usavam para este fim) a ordem era sair de casa. E brincar até a exaustão. Ou até que os pais começassem a nos chamar de volta. ‘Tia’ Carmem puxava a fila. “Luciana e Rafael, já para dentro. É hora do jantar”, gritava sempre às 19h45, pontualíssima, lembrando a todos que o ‘tio’ Roberto estava a postos. E com fome. Numa sequência quase sem tréguas, Tonho, Tulinho, Márcio Grande e Fernando também eram convocados por seus respectivos pais, quase sempre na base do grito disparado de dentro da casa de cada um. Impossível ignorar. Por último, ficávamos Pim, Ricardo e eu. A glória era quando o Renato e o David, bem mais velhos e que não dedicavam mais tanto tempo à rua, nos concediam a “honra” de brincar conosco. E aí a gente improvisava um ‘gol de classe’, que em São Paulo é chamado de melé, e ficava na rua mais um pouco, desafiando, além das horas, a paciência de nossos pais.
Nas férias, a gente descia algumas quadras e passava o dia no Vale dos Bagres, uma espécie de parque onde hoje passa a avenida Hélio Palermo, debaixo do pontilhão da General Telles. Havia quadras de esporte e o lugar funcionava como um centro de convivência, com moleques de todos os bairros ocupando seus espaços. Numa época sem internet, as comunidades sociais eram bem reais. E divertidas.
A Franca desta época tinha o mercadão, que ficava onde hoje está o terminal central de ônibus. Do lado de cima, era a rodoviária, um lugar sujo e muito pouco convidativo. Na parte de baixo, o mercadão tampouco era um lugar onde a higiene fosse exemplo, mas era muito mais interessante. Uma bagunça divertida, um entra e sai de gente... Havia as barracas com frutas, verduras, legumes, tudo muito colorido. O açougue, porque carne também se comprava por ali. Mas o melhor mesmo era a barraca de vitamina. Adorava a de abacate. Um copão de frapê bem gelado com pastel de queijo era um banquete num tempo em que eu podia comer sem contar o número de calorias do que ingeria. Meu irmão e nossos primos preferiam a vitamina mista cujo resultado era sempre um líquido espesso de cor rosada. Para mim, só o verde do frapê de abacate é que valia. Uma delícia.
Do lado do mercadão ficava a Pucci, que resiste até hoje. Ali tinha pão francês sempre fresquinho. E também pão italiano, brioches, pão sírio. O trajeto que separa a Pucci da rua Manacá foi o primeiro que fiz sozinho, aos sete anos, sem nenhum adulto por perto. Minha tarefa era buscar pão e leite.. Tinha que conferir o troco e acertar na quantidade, um desafio razoável para uma criança. Subia a rua Vitória Régia, virava à esquerda na Augusto Marques e vencia um trecho da General Telles até chegar à Pucci. Missão cumprida, era só fazer o caminho inverso para casa, levando junto o pão quetinho, embrulhado em papel áspero, rosa escuro, que depois ainda virava rascunho.
Poucos anos mais tarde, já adolescente, final de semana passou a ser sinônimo de cinema. Havia o São Luís e o Odeon, um ao lado do outro e em frente ao fliperama do Pimentinha, onde a gente sempre passava - escondido dos pais - para jogar um pouco naqueles videogames rudimentares antes da sessão. Tinha também o Bristol, mais novo, com poltronas brancas, e o Santo Antônio, em cujas dependências nunca entrei. Não que faltasse vontade. Sua programação, recheada de fimes pornôs, era sonho de consumo de todo moleque - e território proibido. O dinheiro contado da mesada dava para comprar suprasumo de limão e, na saída, um chocolate na Bomboniere. Quem morava no Centro, como eu, ia e voltava à pé, à noite, sem traumas.
Trinta anos nos separam da Franca da minha infância. Nestas três décadas, o mercadão sumiu, a rodoviária velha foi junto e a nova precisa de reformas urgentes. O Vale dos Bagres não existe mais, salas de cinema só no shopping e raras são as crianças que brincam nas ruas, como nós fazíamos. Não que todas as mudanças e transformações porque Franca passou tenham sido negativas. A cidade, hoje praticamente três vezes maior, é um centro regional importante. Menos provinciana, oferece estrutura ampla e centenas de opções - de lazer, inclusive - para seus moradores. Infelizmente, junto com o crescimento, problemas desconhecidas dos anos 70 e 80, como violência urbana e mortes no trânsito, viraram assuntos do dia a dia. Assustam e preocupam a todos.
Quando tiverem a minha idade, as crianças de hoje viverão numa cidade de 500 mil habitantes, com uma estrutura urbana infinitamente mais complexa. A cidade que nossos filhos vão amar se estrutura desde já. A violência e o trânsito talvez sejam os desafios mais flagrantes, mas a própria população, de maneira geral, precisa se educar para estabelecer um novo nível de relacionamento com a cidade em que vive. Se quisermos um bom lar, capaz de gerar lembranças felizes e onde nossos filhos possam viver em paz, sem medo, não há tempo a perder. O desafio é imediato - e permanente. Franca merece o nosso esforço.
CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br