Falar da história de Franca sem recorrer ao professor José Chiachiri Filho é praticamente o mesmo que deixar para trás parte da história da cidade. Aos 65 anos, Chiachiri é uma referência quando se trata do assunto. Foi em 1968, quando concluiu duas graduações, Direito pela Faculdade de Direito e História pela Unesp, que ele optou em continuar pesquisando a história, especialmente a de Franca, e a ensinar aos mais jovens o que sabia. Atuou na Unesp e no antigo Colégio Champagnat, em Franca, e na Universidade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto. Sua carreira durou exatos oito anos e se encerrou em 1977, quando perdeu a visão por conta de um descolamento de retina no olho direito. Deixou de fazer o que mais gostava que era ler muitos livros por mês e, pelo menos, três jornais diários. “Minha vida foi ler. Deixei de fazer o que era minha vocação”.
Casado, pai de três filhos, Chiachiri ficou completamente cego aos 32 anos. Na cirurgia em que corrigiria a visão direita, perdeu também a esquerda. À época, além de lecionar, o professor ocupava a cadeira de vice-prefeito de Franca (entre 1977 e 1982, na primeira gestão de Maurício Sandoval). Deixou de dar aulas e se trancou num gabinete da prefeitura. “Fui tentando me adaptar à nova vida. Foi muito difícil. E quando deixei a prefeitura, não tinha nada para fazer. Só dormia”, conta.
Em 1989, ele foi convidado a ser secretário de Governo na segunda gestão de Maurício Sandoval. Depois, entre 1997 e 2004, durante a administração de Gilmar Dominici, ocupou o cargo de diretor do Arquivo Histórico Municipal, onde permaneceu por oito anos. Apesar de ser um amante da história, Chiachiri confessa que assumir o arquivo não foi um desejo pessoal. “Não queria ir para lá. Uma secretaria eu até administro bem, mas no arquivo é preciso ler e ler muito”.
Há 16 anos, o professor voltou a “ler” por meio de um programa virtual que instalou no computador pessoal. Utiliza livros digitalizados e escaneia livros, jornais e revistas para ouvir. Um programa especial de computador também o auxilia a escrever crônicas para o caderno Nossas Letras, do Jornal Comércio da Franca, que circula todos os sábados.
Desde que deixou o Arquivo Histórico, Chiachiri não mais trabalhou. Em 2006 e 2008, se candidatou a deputado federal e vereador, respectivamente, pelo PV (Partido Verde). Perdeu as duas eleições e garante que desistiu da política por falta de recursos para as campanhas. Sua renda vem da aposentadoria como professor.
Nesta entrevista, Chiachiri fala, entre outros assuntos, sobre o histórico Hotel Francano, inaugurado em 1928 e fechado definitivamente em 1970. A construção foi demolida na época em que ele era vice-prefeito. Hoje é lembrada com nostalgia pelos francanos que tiveram a oportunidade de conhecer o prédio. “Foi uma pena (a demolição). Mas nós não tínhamos dinheiro para desapropriá-lo”. Conta também que herdou o gosto pela história do seu pai, que foi jornalista, historiador e fundador do Museu Histórico Municipal José Chiachiri. A denominação do museu foi feita em homenagem ao seu pai.
Comércio da Franca - O senhor é um estudioso de Franca e não abre mão de contar o que aprendeu. Por que essa luta para preservar a história da cidade?
José Chiachiri Filho - Acho que é por instinto (risos). Vem desde a época do meu pai. Gosto da história. Enquanto disciplina, acho muito bonita. Forma sua personalidade. Dá uma visão diferente, bem mais realista da vida, dos acontecimentos, das pessoas. É isso.
Comércio - Durante toda a sua vida, o senhor esteve envolvido em meio aos livros e, em especial, a documentos e estudos sobre Franca. Por que a história é tão importante para uma cidade?
Chiachiri - A história é importante para uma cidade da mesma forma que a memória é importante para um indivíduo. Um indivíduo sem memória não sabe onde está, quem é, não sabe seu nome, não tem perspectiva de futuro. Para cidade é a mesma coisa. É a memória coletiva.
Comércio - Até que ponto o senhor se aprofundou na história de Franca?
Chiachiri - Estudei parte dela, os primórdios da cidade. Essa é minha especialidade. Quanto às outras, eu li porque a história desta cidade faz parte do Brasil, além da história geral - precisei adquirir conhecimento. Tenho uma visão ampla de tudo isso.
Comércio - Qual sua fonte de pesquisa e como consegue guardar tanta informação?
Chiachiri - Antes de perder a visão, eu estudei muito. Li muita documentação, não apenas a existente aqui na cidade, mas no arquivo mineiro e em arquivos de outros municípios. Tinha material para fazer vários trabalhos. Além desse conhecimento da literatura histórica, você tem que se dedicar à leitura documental. Esses documentos darão a você a visão da sua história, da sua região, do assunto que você está estudando. Mas, não é só documento. Guardo depoimentos de pessoas mais velhas também. Mas, o que eu estudei com profundidade, que são os primórdios da Franca, não tinha ninguém para contar. É tudo de 1805 a 1824 e quando iniciei a pesquisa, não tinha ninguém vivo. Com base em documentos fui reconstruindo a história.
Comércio - Como é seu acervo pessoal?
Chiachiri - Tenho uma biblioteca razoável com uns quatro mil volumes. Mas não é só história de Franca. Tenho literatura e história de modo geral.
Comércio - Há alguma controvérsia do passado que o senhor esclareceu?
Chiachiri - Sim. Falavam que Franca tinha se originado de um pouso de tropeiros. Na verdade, Franca originou-se de uma freguesia, de uma igreja. Ela não foi nem capela. A freguesia que existia em Caconde (SP - a 222 km de Franca), foi transferida para cá, para a Praça Nossa Senhora da Conceição. É a partir daí que nasce a cidade.
Comércio - Por que se tinha essa ideia e qual a diferença de pouso e freguesia?
Chiachiri - Faltavam estudos mais detalhados, mais profundos sobre essa questão. Não distinguiam uma coisa fundamental. Pouso era núcleo populacional que geralmente ficava à beira dos córregos e servia de base para viajantes, negociantes, que paravam, descansavam, davam água para a tropa. O arraial (freguesia), não. Ele é embrião do núcleo urbano. E para que esse embrião se consolidasse era preciso a igreja, que à época exercia a função de cartório de registro civil, onde eram registrados os nascimentos, casamentos e óbitos. Com base nestes documentos é que se abria a sucessão, a herança. Franca é uma das cidades que têm sua certidão de batismo registrada no primeiro livro da freguesia.
Comércio - Como o senhor analisa o fato de as pessoas não darem tanta importância para a preservação histórica, especialmente imóveis abandonados - como aquele onde funcionou o Ateneu -, alguns derrubados, entre tantos outros?
Chiachiri - Penso que as pessoas dão mais importância para o lucro, para o dinheiro, por algo imediato, objetivo. Agora, em certas casas (derrubadas), é bom que a gente compreenda que, um dia, os donos daquelas casas antigas, tradicionais, bonitas, foram ricos. Hoje não são mais. Essas casas representaram patrimônio de alto valor, e eles não precisam do patrimônio, precisam é do dinheiro para viver. Então, tem que se compreender. Sou favorável à preservação de todos esses imóveis, mas o custo tem que ser pago pela coletividade. Nem sempre a Prefeitura, que seria o representante dessa coletividade, tem dinheiro para isso. Ela tem outras carências, necessidades e prioridades. E o dinheiro precisa ser usado nessas necessidades essenciais e não pode ser aplicado na compra daquele imóvel para preservação.
Comércio - Tem algum imóvel, em especial, que foi derrubado e o senhor lamentou a falta de empenho do Poder Público para preservá-lo?
Chiachiri - Tem vários que lamentei. Acontece que Poder Público sempre tem a intenção de preservar, mas não tem dinheiro para comprar. O Hotel Francano, por exemplo, foi uma pena. Naquela época eu era vice-prefeito. Mas nós não tínhamos dinheiro para desapropriá-lo e pagar o preço que porventura quisessem. Não dava para preservar o prédio numa época em que 80% da cidade não tinha infraestrutura. Regiões próximas do Centro não tinham esgoto. Em outros lugares não tinha água.
Comércio - Muito se fala do Hotel Francano até os dias atuais. O que ele representou para Franca?
Chiachiri - Foi um marco. Era muito importante. Representou a pujança da cidade naquele momento, na época do café. Quem vinha de fora se hospedava lá. Era um dos melhores hotéis do interior, de primeira qualidade. Para a época, era luxuoso. Uma construção muito bem feita. Tinha um espaço, chamado de Salão Rosa, que era uma espécie de salão nobre da cidade.
Comércio - Um dos episódios mais recentes e que mexe com a história de Franca foi a desapropriação pela Prefeitura de algumas casas antigas no Centro. A ideia é construir um Centro Cultural que levará o nome da atriz Regina Duarte, que nasceu em uma daquelas casas. O que o senhor acha desta iniciativa?
Chiachiri - Acho que vale a pena porque vai se instalar um memorial dela e tenho certeza que terá também todo o momento que ela representou na televisão. Quem sabe neste local se inclui também histórias de Janete Clair (autora de novelas) que não nasceu, mas estudou em Franca. Quem sabe se inclui o Vicente Leporace, que também se formou aqui e depois foi para São Paulo? Também não se inclui o Pedro Luiz Pauliello, um dos mais importantes narradores esportivos do Brasil e que começou carreira na Rádio Hertz? Acredito que não desapropriaram só para a Regina, que terá sua vida documentada ali, mas também histórias destes nomes importantes da radiofonia e televisão brasileira.
Comércio - E quanto à reestruturação dos imóveis antigos do lugar onde se construirá o Centro Cultural, qual sua opinião?
Chiachiri - As casas em si não têm valor. Claro que quem morou ali sente saudade. Mas é ponto positivo porque será mais uma instituição cultural.
Comércio - Na quarta-feira passada, em comemoração à última prova do ano, um grupo de alunos da Escola Estadual “Ângelo Scarabucci” rasgou e ateou fogo em cadernos e apostilas. Como o senhor se sente enquanto professor e historiador ao saber que estudantes não preservam nem mesmo a história de um ano de estudos que acabaram de concluir?
Chiachiri - Acredito que de todo modo esse material seria destruído. Neste caso foi destruído por atacado. Esses materiais iriam para a casa e, de lá, para o lixo. A folia é própria da juventude. Apesar de ter meus cadernos desde o primário guardados, não me assusto com isso. Acho normal.
Comércio - É uma mostra de uma juventude que não lê, que não visita o Museu e Arquivo Histórico?
Chiachiri - Até que não. O jovem realmente deve estar lendo menos porque acha outras coisas mais interessantes, mas quanto à visitação nestes locais é bem maior do que no passado.
Comércio -Depois de ser vice-prefeito de Franca, entre 1977 e 1982, o senhor tentou por duas vezes se eleger em cargos públicos. Em 2006 tentou vaga de deputado federal e, em 2008, para vereador, mas perdeu as eleições. O senhor se decepcionou com os francanos?
Chiachiri - Não. O povo tem o direito de escolha e deve escolher o que quiser. Por isso existe a democracia.
Comércio - Pergunto isso por conta da ligação que o senhor tem com a cidade, por ser uma referência quando o assunto é história de Franca.
Chiachiri - Não tem nada a ver. Uma coisa é a minha ligação com a cidade, outra coisa é a política. As pessoas colocam no cargo quem interessa a elas e não necessariamente um historiador.
Comércio - O que faltou para o senhor se eleger?
Chiachiri - Dinheiro para atingir o povo. O grande problema meu foi a falta de recurso. Se eu pudesse atingir o povo, ele votaria em mim.
Comércio - Apesar de não ter participado da política nos últimos anos, o senhor acredita que o Poder Público acompanhou a evolução da cidade?
Chiachiri - Claro. Franca cresceu 5,5% ao ano nas décadas de 70 e 80. Um crescimento extraordinário, gigantesco. E a administração pública acompanhou essa evolução e crescimento populacional. Muitas cidades importantes não têm a infraestrutura que tem Franca hoje. Isso demonstra que a cidade não inchou, ela cresceu e se desenvolveu graças aos serviços públicos. A administração incrementou, deu apoio, garantiu esse crescimento. Em bairros distantes, as pessoas têm a mesma qualidade de vida de quem mora no Centro, contam com farmácias, supermercados, padaria, asfalto, esgoto, etc... Essa qualidade de vida das pessoas é algo que precisa ser aplaudido e mantido a qualquer custo.
Comércio - Para finalizar, o que o senhor, um estudioso do passado, espera do futuro de Franca?
Chiachiri - Já é difícil estudar o passado, já imaginou profetizar o futuro? Mas acho que vamos continuar como estamos. Vamos caminhando. Uma cidade que tem quase duas décadas não pode ter medo do futuro. Somos uma geração dentro de tantas que nos antecederam. O futuro para nós só poderá ser brilhante. Temos história, raízes, o espírito dos tempos perfazendo a nossa vida. Crises vão continuar. Elas sempre vão ressurgir, mas continuaremos progredindo. A vocação industrial precisa ser estimulada, garantida. E, cada vez mais, se firmando ao comércio e serviços na cidade.