08 de julho de 2026

Aurora, ou, a Bela Adormecida


| Tempo de leitura: 5 min

Vanessa Maranha
Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida e Cadernos Vermelhos


Então Aurora acordou. Quarto de casal, manhã seguinte à chegada da lua de mel.

Aportava na casa cheirando a ardido de tinta e verniz, não se familiarizara ainda com a acomodação dos móveis e, então, como se explorasse novidade que não fora por si constituída, vagou pelo território.

Os presentes de casamento esparramados pela sala, examinou-os um a um, farfalhar de papéis de embrulho ecoando; tudo brilhando de tão novo e sem uso naquela casa de bonecas, ainda irreal, ainda sem jeito de habitat humano, com cara de showroom transplantado da loja de móveis, porque assim ela o visualizara e quase menina ainda, não exercitava audácia para outras disposições.

O marido, Felipe, não despertara junto dela. Era mesmo estranho pensar assim: marido. Pontinha aveludada de dor no peito e a sensação de que em breve seria sacudida desse que não passava de um sonho nem bom nem ruim, só estranho. A luz intensa da manhã adiantada embaçava-lhe a vista na casa que esperava cortinas.

Mas, infernal mesmo, zunindo-lhe denso e amorfo, era o silêncio. Profundo, silêncio ecoado de cripta que fazia realçar o som de qualquer mínimo movimento. A vaziez se sobrepondo àquele instante que, esperava, se elevaria magicamente para outro plano menos incômodo. Assim mesmo? Reivindicara por tanto tempo a vida adulta e quando finalmente a possuía, certificada, dona presumida de sua própria casa, ao menos essa de tijolos e portas bonitas, não conseguia sentir nada além do árido, de um nada crescendo assustador dentro de si, num sufoco ainda tímido?

O jeito, o modo então, era preparar-lhes o café da manhã mais bonito que pudesse. Verdade é que daqui para frente, viveria às largas, sem os regramentos paternos, longe do olhar vigilante e inquiridor da mãe. Aurora, depois do longo adormecimento, agora ca-sa-da, achava que seguiria a trilha que bem desejasse, não suspeitando terem sido tais caminhos sulcados muito antes de si, à sua revelia. Não atinava também que pai e mãe, esses de quem tentava ca-sa-da se desvencilhar estavam impregnados quase sem retorno dentro da tênue delimitação de si mesma

Felizes, no suposto de uma liberdade toda nova, dentro dos próprios domínios, do seu cercado, a casinha com sofazinhos, mesinhas, enxoval e tapetes - descortinada, porém - brincariam de ser adultos. Ela cozinhando para ambos almoços relutantes, encontrara, ou pensava ter encontrado enfim um modo, um jeito, uma identidade para existir. Legitimada em seu contexto.

Resolveu que nesse ano de recém-casada não seguiria a profissão de professora. A casa seria o seu remanso, o seu lugar, sua fuga mais disfarçada, sua fruição mais solitária. Quando, o marido no trabalho, o silêncio começava a lhe oprimir, tirava o carro da garagem e passeava pelas lojas que nunca pudera frequentar em solteira. Granjeando a bajulação dos vendedores, aquecimento fugaz, quase nunca encontrava o que procurava nessas lojas. Frustrada, não raro, voltava para casa.

A maçante e subliminar imposição de visitar aos domingos os pais do marido. Esses almoços de domingo depois se estendiam em grupelhos masculinos e femininos apartes: os homens num canto e as mulheres-aquelas, mordazes, infelizes noutro.

Intuía que talvez conseguisse alguma autenticidade mais vivaz no meio deles, mas, não, não ousaria. Permaneceria entre a mãe, as irmãs, tias do marido, desviando-se das farpas afiadas que afinal tentavam atingir o que da forma mais cuidadosa tentava esconder de si própria e que, ali, naqueles domingos infernais se aclarava como se a desnudasse: não pertencia. Não fazia parte daquele mundo. Desagradavam-lhe as conversas daquelas mulheres, seus valores, suas ardências dissimuladas.

Mas o que salvava Aurora, ou talvez fosse adiante, a sua condenação fatal, era uma de certa forma alardeada inteligência e sua articulação. Falava com desenvoltura sobre qualquer assunto, o que provocava espanto nuns, inveja noutras, cautela entre os mais experientes, o orgulho do marido, raso mas afetivo, abrutalhado e de pouco raciocínio para perceber que neste ponto buscava na mulher-estandarte alguma compensação do que em si não havia.

Vinda de estrutura que pouco lhe oferecera, forjara a si mesma na base da observação dos mundos que ansiava. Mas, definitivamente, o mundo, aquele, não era o seu, embora verdadeiramente não soubesse a que mundo pertencia.

Sondava-se a si própria e constatava que em criança fora precoce para sobreviver. A adolescência restritiva, ela não vivera. Escondera-se num sono encantado, a roca premente a lhe desligar da realidade. Agora, na casa, havia, nesse primeiro tempo, sempre algo a ser harmonizado. Uma mesinha de canto com o respectivo vaso combinadinho pedindo providências. Uma parede nua, sem quadro, boilers para ovos que não podiam ser aquecidos sem a realeza da porcelana. Nessas miudezas, tentando diligentemente preencher o que faltava ela seguia e quase se perdia, bastando-se parcamente, gastando tardes inteiras, de loja em loja, sem poder olhar de fato para o centro cada vez mais claro do que realmente ali se figurava como grande ausência.

Mas persistiu nisso: a limpeza metódica da casinha, os almoços a elaborar, livros à espera de leitura, mascates sem fim a visitar em busca da completude exata naquele lar. Até um mal-estar, sono pesado, seu íntimo conhecido de outros tempos, começar a lhe infligir pensamentos estranhos. Viu-se ornamento ali, enxergou que maiores pedidos, outros quereres que não os decifráveis pelo cartão de crédito, não poderia fazer a Felipe.

Coincidência ou não, sorrateiros, eles entraram pelas (porque sempre as deixamos, sem percebê-las) frestas da casa. Uma familiazinha de quatro demônios, quatro ratos gordos que empestearam primeiro a cozinha com o rabujo deixado após as suas orgias noturnas. Depois invadiram o quarto dos presentes ainda fechados de casamento e roeram todas as caixas que viram pela frente. Até chegarem ao quarto, ao closet do casal e se instalarem aconchegados nos vãos de madeira do armário. Aurora, neste ponto, atordoada: a casa organizada, até então impoluta, fora invadida sem volta pela mundanidade, paraíso em queda. Buscou logo a antiquada roca de fiar que desde o casamento mantivera bem guardada no alto da despensa - coragem lhe faltara, inexplicavelmente para dar fim ao objeto enfeitiçado que lhe subtraíra tantos anos de vida - e, dedo agora voluntariamente sangrado, enredou-se num sono profundo, de novo bela adormecidamente, letargia de outrora.