Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço
A literatura que se constrói em Franca, distinguindo a comunidade desde o final do século XIX, tem mostrado sob diversas facetas o perfil do nosso povo e as nuanças de cada momento, posto que as cidades estão sempre em construção, erguendo-se em camadas. Aliás, a literatura também. E por isso o livro de Luiz Cruz de Oliveira Esboço de História da Literatura Francana (2005, Ribeirão Gráfica Editora) é tão importante. Nele encontramos o levantamento de todos os nomes que publicaram na cidade, seja em jornais, seja em livros. Trabalho de pesquisa gigantesco, contemplou mais de um século de escrita que sedimenta alicerces que nos permitem escrever hoje. A literatura de um povo é em cada etapa a soma dos livros escritos em todos os momentos anteriores.Um livro repercute não só a tradição dos livros lidos pelo autor ao longo da vida, também condensa ou refina o espírito de todos os que foram publicados na sua comunidade- a social, a linguística, a política, a dos afetos e afinidades.
Não é pois justo que os escritores francanos que já morreram permaneçam ignorados das novas gerações; e que os vivos continuem fadados a perambular com seus livros sem ter um lugar onde expô-los para que sejam vistos, lidos, avaliados, comentados, analisados, criticados e relacionados a outros. A cidade precisa saber quem e quantos são aqueles que vêm dia após dia, ano após ano, década após década tecendo o que no futuro serão memórias e registros de uma maneira de sentir e pensar, de existir e refletir sobre si e o seu meio. Seja o escritor ficcionista, poeta, cronista, ensaísta ou historiador, o autor levará para as páginas de sua obra elementos de um universo que é pessoal mas também social, individual e gregário, singular e plural.
Um livro se esboça e alça o visível por meios intangíveis. No espaço de criação o escritor reina solitário mas pleno, enquanto ergue seus mundos nos quais acaba introjectando a realidade circundante. História, poema, relato, ensaio, crônica, narrativa, história exigem ao autor tempo, paciência, labor interno, dedicação e respeito. E rogam ao leitor algum reconhecimento sobre os signos locais, temporais, emocionais que latejam em suas páginas. Nelas se encontram notícias de modos de viver e sentir que são mais do que os do autor, são também os daqueles de quem o escritor herdou língua, crenças, costumes e toda uma mitologia rural ou urbana. Na literatura de um povo vive latente a memória coletiva, acessada pelas diversas leituras, fonte de resgates inesgotáveis.
Isto posto, por que não pensar numa Casa do Escritor Francano nos moldes da rica e comovente exposição organizada por Regina Bastianini e amigos na semana de 24 a 31 de julho passado, no prédio onde funciona o curso Ave Palavra? Articulada para privilegiar informação, acolhimento, conforto e estética, a mostra que teve por tema obra e vivências de Luiz Cruz de Oliveira revelou que para construir algo substancioso e belo basta encantar-se pelo que se faz.
E porque naqueles dias tão claros de inverno francano era voz geral que nossos escritores mereciam um espaço semelhante, para mostrar suas obras mas também encontrar leitores, conversar com o público, trocar idéias, falar de lançamentos, dar notícias de seus passos pela cidade, é que trago a sugestão nesta véspera de aniversário de Franca, terra onde tantos gêneros literários têm sido exercitados.
Espero ser levada em consideração pelos que, detentores de poder público, conseguem agir e transformar sonhos em realidade. Asfalto se gasta, fachadas se deterioram, avenidas esgotam sua capacidade de fazer o trânsito fluir, canais perigam se tornar estreitos em curto prazo. Mas o livro, de alguma forma memória armazenada, continuará contando a história de um tempo que não sendo mais o mesmo, sempre explicará o presente e a identidade de um povo. É uma das razões das quais me valho para argumentar a favor deste espaço que poderia conferir a Franca ainda maior visibilidade. E valor, para os que ainda enxergam nesta palavra o peso semântico que a trouxe até nossos dias.