Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
Gosto de ouvir os sotaques, os modos de falar, as expressões regionalistas de nosso povo. Ouço-os com prazer e interesse. Em muitos casos, chego a identificar o Estado ou a região de origem do falante.
Tenho uma concunhada que insistia em me passar trote pelo telefone. Porém, suas tentativas foram infrutíferas. Frustrada em seus intentos , ela perguntou-me:
-Como é que você sempre descobre que sou eu?
Disse-lhe, então:
-É muito simples, baiana: seu sotaque é inconfundível!
O meu amigo Dr. João Alves Pereira Penha, filólogo de renome, era, antes de tudo, um mineiro da gema. A palavra olha por ele pronunciada, revestia-se do espírito e da cultura das Minas Gerais. Falada calmamente, com os olhos semicerrados e o nariz levemente erguido, tinha o sentido de “vamos ver, deixe-me pensar um pouco”. Pronunciada com ênfase e de olhos abertos, tinha o significado de “admiração ou espanto “. Dita com rapidez e com os olhos piscantes, expressava “tome cuidado, não entre nessa “. O Dr. João possuía em seu vocabulário mineiro algumas outras expressões que ele sempre deixava escapar em momentos muito oportunos. “Lá vem o cangaço” era aplicada quando uma pessoa desagradável dele se aproximava. “Que trem doido é isso, sô! “e “Tá danado ! “ eram outras expressões que indicavam situações estranhas, conflitantes ou embaraçosas.
A palavra “trem “, por exemplo, pronunciada por um mineiro, tem uso generalizado e amplo sentido. Significa quase tudo, menos “ trem de ferro”. A esse respeito, meu amigo Juca, gaúcho da fronteira, contou-me, dias atrás, uma anedota ilustrativa e hilariante. Uma família mineira, disse-me, estava esperando, numa estaçãozinha do interior, o trem para Belo Horizonte. Sentados num banco estavam o pai, a mãe, os filhos e junto deles as malas, os pacotes, as sacolas, as matulas etc. Tão logo a locomotiva apontou na reta e foi avistada pelo mineiro, este, resolutamente, gritou para sua esposa:
-Vamos, muié! Junta logo os trem que a coisa lá ivem!