10 de julho de 2026

Hospital 'Allan Kardec' completa 88 anos e luta para conseguir verbas


| Tempo de leitura: 10 min
NO COMANDO - Wanderley Cintra, presidente da Fundação Allan Kardec, que gerencia o único hospital psiquiátrico da cidade, defende a ampliação de leitos para internação e mais verbas para a entidade

Fundada em novembro de 1922, a Fundação Espírita “Allan Kardec” completou, nesta última semana, 88 anos. Mais conhecida como Hospital Psiquiátrico, a instituição, criada por José Marques Garcia, é referência no atendimento de problemas mentais para Franca e região, apesar de já ter quase fechado as portas. Ao todo, são 23 municípios que recorrem aos seus serviços.

Com 200 leitos destinados aos pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde), o Hospital Allan Kardec se aproxima do seu centenário com a missão de virar modelo para o Estado de São Paulo em razão da qualidade do tratamento oferecido. Nesta entrevista, o presidente da entidade, Wanderley Cintra Ferreira, conta sobre o surgimento da Fundação, fala da luta em busca de recursos, da infraestrutura construída, do crescimento no número de casos e do reconhecimento obtido nos últimos anos.

Em 2008, o hospital recebeu o Troféu “Jornalista Corrêa Neves” de Empreendedorismo Social, idealizado pelo GCN Comunicação. Neste ano, a premiação veio do “Mérito Empresarial Acif 2010”, realizado pela Associação do Comércio e Indústria de Franca e pela Câmara Municipal. “O hospital hoje é mais reconhecido. Percebemos isto no dia a dia da instituição. As premiações que recebemos diz tudo. É o reconhecimento da sociedade. Poderiam contestar, mas foi uma unanimidade”, disse seu presidente.

Ocupando uma área de 80 mil metros quadrados no Bairro Cidade Nova, com alas divididas por sexo, oficinas terapêuticas, refeitório, lavandaria, área esportiva e até um bosque, o Hospital Allan Kardec opera no limite, com fila de espera e déficit nas contas.

Wanderley apresentou os projetos de ampliação da clínica particular criada para atender uma demanda existente e também ajudar na manutenção da filantropia. “Há ainda muito a ser feito. A nossa área é muito grande, no Centro de Franca, de fácil acesso. Tudo o que for proposto na área de saúde mental nós temos condições de fazer, desde que tenhamos recursos. Além disso, temos um papel social”.

Como na maioria dos hospitais psiquiátricos, o Allan Kardec tem cem pacientes/moradores, sem referência familiar. “Tem pacientes há 40 anos aqui dentro. A família deles é o hospital”.
Na entrevista, realizada no exato dia que a instituição completou seus 88 anos, o presidente do Allan Kardec destacou a importância de tratar os pacientes mentais muitas vezes esquecidos nas ruas e de como é importante o respaldo da família durante o tratamento. “Se não tiver continuidade do trabalho num ambiente familiar e de acolhimento, infelizmente esse paciente vai retornar para o hospital”. 

Comércio da Franca - Como surgiu a Fundação Espírita Allan Kardec?
Wanderley Cintra Ferreira -
A Fundação começou com atendimentos na residência de José Marques Garcia. Ele passou a atender pessoas que estavam na rua com problemas mentais dentro de casa e, com o temp,o o espaço se tornou maior até ele conseguir esta área onde nós estamos aqui, no Bairro Cidade Nova. Com a nova área, a procura aumentou. Muitas pessoas passaram a procurar o atendimento. Os 88 anos contam a partir do momento que os atendimentos passaram a ser feitos em hospital, no dia 19 de novembro de 1922.

Comércio da Franca - Qual a estrutura do Hospital Allan Kardec aos 88 anos?
Wanderley -
Ocupamos uma área de 80 mil metros quadrados, temos toda a estrutura. O prédio administrativo, os pátios dos pacientes, as alas de internação, espaço para terapias, campo de futebol, quadra, bosque para atividades, hortas, refeitórios, lavanderia, a clínica particular e o Hospital Dia. Ao todo, são 240 funcionários, incluindo os psiquiatras, médicos clínicos e parte de enfermagem.

Comércio da Franca - Nestas quase nove décadas, o hospital teve vários altos e baixos...
Wanderley -
O hospital começou pequeno e depois foi crescendo. O Allan Kardec já chegou a ter mais de 400 pacientes em um momento muito difícil em que o hospital esteve quase para fechar. Era muita gente e faltavam recursos. Houve providência por parte de governo para o fechamento do hospital, mas conseguiram reerguê-lo graças à administração da época e hoje a Fundação atende até 200 pacientes pelo Sistema Único de Saúde e mais 30 no Hospital Dia, além de outros 50 leitos da clínica particular.

Comércio da Franca - De onde vem a renda para manutenção da entidade? Há déficit?
Wanderley -
A maior renda que nós temos é do SUS (Sistema Único de Saúde). E aí está o grande problema nosso. O que o SUS nos repassa não paga o nosso custo de produção. Temos hoje uma despesa de R$ 500 mil e um déficit de R$ 150 mil mensais. Só da folha de pagamento são R$ 300 mil. Felizmente a clínica particular está indo bem. Já é uma receita que ajuda, pois temos convênios com várias instituições e a procura está crescendo, inclusive estamos ampliando a parte de geriatria e nos vai proporcionar uma renda maior. A nossa grande luta junto ao Sistema de Saúde é para que este preço pago possa ser melhorado. Apresentamos todos os nossos custos ao nosso gestor, que hoje é a Prefeitura de Franca, para que a gente possa conseguir uma remuneração mais adequada.

Comércio da Franca - As campanhas junto à população também ajudam?
Wanderley -
As campanhas que a gente tem feito são importantes, mas elas estão se tornando cada vez mais difíceis. Percebemos que a comunidade está muito sacrificada, pois são muitas entidades fazendo campanha o ano todo. Somos nós, a Santa Casa, o Hospital do Câncer, a Apae, as creches. É uma infinidade de instituições que fazem campanha e isso acaba sacrificando muita a comunidade. Esta é a nossa preocupação e a nossa dificuldade. Temos que trabalhar junto aos governos municipal, estadual e federal para que a gente possa conseguir verbas a fim de manter este tratamento digno. Fora as campanhas temos ainda um quadro de colaboradores com aproximadamente 200 pessoas que recebem um boleto mensalmente sem compromisso. Como esta quantidade de colaboradores varia muito, não é um valor significativo, mas ajuda. Já em termos de promoção, neste ano, não fizemos nenhuma ainda.

Comércio da Franca - O número de leitos da instituição é suficiente para atender à demanda de pacientes?
Wanderley -
Não, com certeza, temos que aumentar. E este também é um grande problema nosso porque, existe a lei de desinstitualização, de mandar pacientes para casa. A maioria dos pacientes que tem alta hoje acaba retornando pois as famílias não têm condições de cuidar, de dar uma alimentação adequada e medicação na hora certa. O paciente sai para a rua e tudo volta à estaca zero, por isso ele acaba retornando. O número de reinternação é grande, estamos sempre lotados. Existe até fila de espera e paciente mental não pode esperar, ele precisa ser atendido na hora do surto. A situação é preocupante e a gente não sabe onde irá chegar.

Comércio da Franca - Por falar em surto, como tem sido o respaldado dado aos portadores de doença mental atualmente?
Wanderley -
A situação atual da assistência em saúde mental no Brasil é preocupante. É preciso entender que uma pessoa delirante ou sob efeito de álcool e drogas não aceita tratamento espontaneamente. É assustador ver o número de moradores de rua que são portadores de doença mental. Desamparados, a maioria acaba em uma situação de completa decadência física e moral. As prisões, também, vem se tornando suas moradias provisórias, pois vivem cometendo pequenos delitos, agressivos e agitados. Até na semana passada tivemos um caso deste na cidade, com uma mulher que cometeu vários delitos acometida por um surto e foi para a cadeia. A pessoa deveria ter sido internada antes. Vemos isto todos os dias. Falta uma vontade política em nível nacional para poder reverter esse quadro.

Comércio da Franca - A quantidade de pessoas que sofrem com doenças mentais também vem subindo em nível nacional. Aqui em Franca também se verifica esse aumento?
Wanderley -
O quadro de novos casos tem aumentado, principalmente os relacionados com problemas de dependência química que acarretam outros problemas de saúde mental. É complicado. Sou presidente da fundação há um pouco mais de três anos e, durante todo este tempo, temos sentido o aumento de casos com drogas, a maioria envolvendo jovens. Isso nos preocupa.

Comércio da Franca - Muitos dizem que é difícil identificar uma pessoa com doenças mentais. Isso realmente é verdade?
Wanderley -
Não é difícil de identificar. Quando a família percebe qualquer diferença e toma providência logo e encaminha para o médico, ele descobre a necessidade do paciente. O que acontece bastante é que as famílias não percebem pequenas alterações de comportamento. Só se dão conta da doença depois que acontecem esses surtos psicóticos. Há casos de agressão e o paciente acaba indo para a rua. A saúde mental é muito complicada e abala a família inteira.

Comércio da Franca - O tratamento de um doente mental é delicado e exige muito da família...
Wanderley -
Cada caso é um caso. Há doentes que vêm para o hospital numa situação lamentável, mas, dentro de 20 a 30 dias, com um tratamento adequado, eles ficam bons e voltam para a casa. Agora, se não tiver continuidade daquele trabalho ao retornar à família, fatalmente esse paciente vai retornar para o hospital. A alimentação não será adequada, ele ficará sozinho em casa, sairá para a rua e todos estes fatores podem agravar a sua situação.

Comércio da Franca - Qual a posição da Fundação Allan Kardec sobre a lei antimanicômio?
Wanderley -
A lei até é importante, mas, se fosse colocada em prática tudo o que prevê, porque simplesmente diminuir leito de hospitais psiquiátricos não funciona. Hoje quem vê o dia a dia do hospital percebe que a demanda é cada vez maior, em razão deste aumento de drogas. Há muita gente precisando de internação, de acompanhamento e isso não está acontecendo. A cidade de Franca é exemplo disso. Basta dar uma volta pela rua e você vê o número de pessoas que precisavam estar internadas. O número de internações que temos aqui, tanto no hospital como na clínica particular, demonstra a necessidade de aumentar o total de leitos e não diminuir. Não é o atendimento ambulatorial que vai funcionar. Se ela não tiver uma internação fora do ambiente de rua e de marginalidade, a pessoa não irá se recuperar.

Comércio da Franca - Como funciona o Hospital Dia?
Wanderley -
O Hospital Dia funciona com pacientes que tiveram alta mas continuam frequentando o hospital, têm todas as refeições, tomam a medicação, participam das atividades e contam com terapias, assistência médica e psicóloga. Eles dormem em casa todos os dias e voltam no dia seguinte cedo, de segunda a sexta-feira, para este tratamento e acompanhamento.

Comércio da Franca - Dentro da clínica particular, o hospital fará também uma ala exclusiva para atendimento de geriatria.
Wanderley -
Essa ampliação da clínica é porque percebemos uma grande demanda na área de geriatria. Vamos expandir a parte já existente. Nossa intenção é construir o mais rápido possível. Serão 24 novos leitos e um novo refeitório. Percebemos que há um crescimento do Mal de Alzheimer e são idosos que as famílias não têm mais condições de cuidar. Acreditamos que esse aumento da clínica é o reconhecimento do nosso trabalho que já está sendo realizado. A área existente está lotada.

Comércio da Franca - A clínica particular é uma saída para as finanças do hospital?
Wanderley -
A clínica tem em torno de quatro anos, mas ela estava devagar, precisando de várias implantações, como melhorar as instalações e a equipe de funcionários. Estamos até evitando fazer novos convênios, pois estamos limitados no atendimento. Em algumas situações, precisamos dizer que não temos vagas. No momento, há demanda, mas não temos como atender por problemas financeiros, mas a grande jogada do hospital realmente é a clínica. Ela é um grande apoio na parte de filantropia que fazemos através do Sistema Único de Saúde.