08 de julho de 2026

Negro e escravidão


| Tempo de leitura: 3 min

Se o país comemora em 20 de novembro o dia nacional da consciência negra, o que representa então o 13 de maio para os negros? O 13 de maio – de 1888 – não representou a liberdade esperada mas um pesadelo que marcaria profundamente as futuras gerações da raça. Na realidade o negro continuaria explorado pelos senhores e apenas se aventuraria a buscar empregos numa sociedade e numa economia que o rejeitava como empregado e como cidadão.

A Lei Áurea constituiu-se em mentira cívica e engodo para o ex-escravo. A Princesa Isabel a assinou mais por pressões internacionais e interesses econômicos que propriamente o de beneficiar realmente a raça. Benefícios não houve nenhum. Ali ainda estava o ex-escravo que ganhou a liberdade de não ter segurança, nem econômica, nem social e nem psíquica.

A Abolição, na realidade, libertou o senhor. Libertou-o das responsabilidades das vidas humanas que havia vilipendiado em função de seus latifúndios.

Os negros, considerados fonte de mão-de-obra, definidos como sub-humanos e “destituídos de inteligência”, não puderam sequer participar do processo decisório dessa “abolição” que o marginalizou ainda mais como povo, alijou-o o mercado de trabalho, deixou-o à mercê da própria sorte, jogado às ruas, sem emprego, sem assistência médica ou acesso à educação, completamente sem condições de igualdade.

Ensejou um exército proletário de segunda linha jogado de um lado para outro, destinatário de serviços aviltantes, tarefas brutas e desagradáveis, massa de marginalizados lutando pela sobrevivência.

Tudo se agravou ainda mais com a República, que cassou a participação do negro no processo político e concedeu poder de voto apenas aos alfabetizados. Ora. O negro escravizado, que não tivera oportunidade para nada, como aprenderia a ler e a escrever o português?


Como vemos, a abolição revoluciona inteiramente a vida do negro. Se sua posição como escravo estava longe de ser desejável, a “liberdade” também se tornava impraticável. O Estado, em nenhum momento, se preocuparia em praticar política com as transformações necessárias ao grande número de negros trazidos ou nascidos aqui. As modificações tímidas colocadas em vigor só fortaleceram o branco como senhor dominante. Tal estado de coisas ainda persiste, apesar de todos os avanços sociais.

Isto posto, basta para discordarmos da ‘história oficial’ que hoje já reconhece o 20 de novembro como o dia Nacional da Consciência Negra, mas ainda insiste em afirmar o 13 de maio como o da ‘libertação” dos escravos. Esta data, na verdade, não quer dizer nada. Foi no mesmo dia em que Rui Barbosa resolveu tocar fogo nos documentos relativos à escravidão e ao tráfico negreiro, tentando apagar a nódoa que pesava no suposto humanismo brasileiro.

Tal ação impede, a exemplo, conhecimento real sobre a significação da diáspora negra, uma das maiores dentre todos os povos. Também, sobre o genocídio praticado, um dos maiores crimes da humanidade.

Da fé ainda à história “oficial” de que quilombo dos palmares foi apenas um refúgio de escravos, e não o reduto de resistência do povo negro – verdade histórica real –, liderado pelo verdadeiro herói e libertador da ração, o mártir Zumbi. Para refletir.

Vanderlei Tristão
Sociólogo, pós-graduado em Ciência Política, vereador (PTB) e consultor imobiliário