Por Marina Garcia Garcia,
Pedagoga e professora de Português
O olhar distraiu-se assuntando o guarda, que com a caneta e a prancheta na mão parecia multar uma jovem motoqueira. Foi num átimo, não dava nem para dizer como aconteceu, mas aconteceu: um baque surdo e o chão áspero. Olhou em volta, sem graça, limpou o ferimento que sangrava e foi-se. Ninguém apareceu para oferecer ajuda ou demonstrar preocupação. Melhor assim, evitou-se maior constrangimento. Só mais tarde, já em casa, é que notou a dor no joelho.
A dor persistiu e agora um pequeno caroço despontava. Deveria procurar um médico. E se fosse coisa mais seria? Recuou. Aguardou um tanto mais...
Qual foi sua surpresa, certo dia, ao levantar e fixando a vista ver uma hastezinha. Seria um broto?
Passou a usar calças compridas para esconder. Como não sabia explicar o quê, teve vergonha de procurar ajuda. Também não doía; para que se preocupar?
O fato é que aquilo foi se desenvolvendo. Os galhos finos e verdes já não eram tão fáceis de disfarçar. Na calça faziam volume.
Começou a evitar aglomerações. Tornou-se sisudo. Não respondia mais às perguntas dos familiares e amigos. Isolou-se. Na hora do banho, percebia que havia uma certa alegria das folhas ao receber a água. Mas que diabos era aquilo?
Certo dia, notou admirado que um fruto vermelho despontava . À tarde, já estava completamente formado. Com medo, num único puxão arrancou-o. Olhou minuciosamente, cheirou-o. Não resistiu, mordeu. Tinha gosto de sangue. Boca a dentro, o líquido descia provocando-lhe contrações.
Precisava de mais ar. Correu para o quintal. Ouviu o barulho de passarinhos que sobrevoavam sua cabeça. Estendeu os braços para sentir mais vento. Os pés cravaram-se na terra úmida. De todas as partes do corpo surgiam novos galhos. Não resistiu mais...Entregou-se.