Ouvi, certa vez, que o ser humano consegue até com certa facilidade mudar de namorada, de cônjuge, de religião, de partido político, de convicção filosófica, de hábitos de vida, deixar de beber, de consumir drogas e até de fumar, mas dificilmente consegue mudar sua preferência pelo time de futebol, geralmente adquirida na infância.
O futebol desperta paixões inimagináveis. As pessoas realmente se modificam quando estão assistindo a uma partida de futebol do seu time do coração. Isso ficou mais claro e evidente para mim no último 13 de novembro, sábado passado, ocasião do jogo entre Corinthians e o Cruzeiro. Os dois times disputaram a liderança do campeonato brasileiro.
Naquele sábado eu me encontrava em Cássia, na residência do meu sogro. Como a partida não foi transmitida por TV aberta, fui com alguns amigos assistir ao jogo no Bar do Clube Cassiense. O clube instalou um telão e dezenas de pessoas foram assistir e principalmente torcer pelo seu clube do coração. A divisão era clara. Apenas os corinthianos torciam pelo Corinthians. Os cruzeirenses e os torcedores dos outros times torciam pelo Cruzeiro. O jogo bastante disputado foi apitado por um árbitro mineiro, o que torna o episódio paradoxal e mais surpreendente.
O jogo caminhava empatado já para o seu final. Eis que, aos 45 minutos do segundo tempo, um lance dentro da área envolveu um defensor do Cruzeiro e o atacante Ronaldo Fenômeno. O árbitro marca pênalti que é convertido em gol pelo próprio Ronaldo. A reação das pessoas no local onde me encontrava – e por todo o Brasil, certamente –, foi absurdamente diferente e beirando irracionalidade.
Os corinthianos comemoravam como se deve comemorar um gol em final de Copa do Mundo. Os demais torcedores, irados e descontrolados, sinalizavam para um possível complô armado para dar o título ao Corinthians no ano do seu centenário. Assacaram contra a honra do árbitro e de sua genitora. A mesma reação de indignação e descontrole tiveram os jogadores, a comissão técnica e os dirigentes do clube mineiro. Eu, estático, como mero espectador, me detive na análise da dimensão de uma paixão em todas as suas formas e manifestações, bem como das reações irracionais e desmedidas que ela pode suscitar.
Após a partida e serenados os ânimos, pelo menos aparentemente, os torcedores, de parte a parte, se detiveram na análise do lance capital. Para uns, pênalti claro. Para outros um verdadeiro absurdo que só se prestaria a manchar o eventual título do Corinthians.
O interessante é que a crônica esportiva, no dia do próprio jogo e no dia seguinte também não chegou a uma conclusão segura do lance. Para muito cronista de escol pênalti indiscutível. Para outros, igualmente importantes, mero contato físico entre defensor e atacante disputando o mesmo espaço.
Pensei comigo mesmo e concluí como é difícil ser árbitro de futebol especialmente em um País como o nosso, em que a paixão pelo futebol extrapola – e muito os limites da racionalidade e da razoabilidade. O episódio, no entanto, serviu e muito para confirmar algo que de certa forma eu já sabia e que foi bem delineado por Tati Bernardi: ‘Nunca tente medir a extensão de uma paixão, ela pode ser maior que sua imaginação’.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca