Sair de madrugada para controlar a turba que ameaçava colocar abaixo o Clube Castelinho durante uma festa, passar 24 horas em patrulhamento atrás dos responsáveis por um atentado contra um posto policial da região e se embrenhar no meio do mato a cavalo na zona rural em perseguição a assaltantes. Capitão Alexandre Wellington, comandante da companhia de Força Tática e do pelotão de trânsito da Polícia Militar de Franca, adora a adrenalina e a agitação que fazem parte de sua vida de policial militar. “O pessoal diz que eu pareço um para-raio, tropeço em ocorrências”, disse ele.
Wellington entrou para a Academia do Barro Branco em 1985, influenciado pelo pai, sargento aposentado da PM. Em seguida, entrou para o Corpo de Bombeiros e voltou para Franca, em 1992, para assumir o comando do grupamento da região. Durante os 13 anos que ficou à frente da unidade, recebeu medalhas e condecorações por serviços, como o resgate às vítimas do acidente com o ônibus de estudantes de Sacramento na Curva da Morte, em 2002. “Ver uma pessoa deitada no meio do mato, olhando para você, a chuva caindo sobre ela, no frio. Ela olhar pra você e pedir ‘pelo amor de Deus me tira daqui’ e você estar impotente porque depende do meio de transporte para tirá-la de lá, é uma coisa que mexe muito com a gente”, lembrou.
Mas a carreira do Capitão Wellington não é marcada apenas por atos de bravura. Em janeiro de 2006, denúncias de irregularidades administrativas derrubaram o comandante da corporação em Franca. O Ministério Público investigou o envolvimento de Wellington na expedição de alvarás de projetos para proteção contra incêndio e exercício irregular de função. “Chegaram à conclusão que não havia crime a ser apurado. Existiam problemas de natureza administrativa, mas que não eram criminais, não houve má fé. (...) Ao final do processo, a melhor decisão foi exatamente de eu trabalhar em outro lugar, pois eu tenho meus pais e pessoas próximas que trabalham nessa área e sempre alguém ia querer relacionar uma coisa com a outra”, disse ele.
O capitão foi para Ribeirão Preto, deixou o Corpo de Bombeiros e voltou ao policiamento. No entanto, não demorou para o oficial retornar à região. No fim daquele mesmo ano, Wellington já comandava a 2ª Companhia da PM em Batatais. “No primeiro dia pedi para dar uma volta e fiquei sabendo que havia um local conhecido como Matadouro, em que a polícia era proibida de passar. Na mesma hora mandei dar a volta, equipar e reforçar a viatura com mais gente e descemos no local para fazer uma operação e ‘botar os pingos nos is’”, disse ele. Cinco meses depois, no início de 2007, chegou à Franca para chefiar o departamento operacional e comandar a companhia de Força Tática. Emocionado, lembra de quando a unidade se mudou para o atual prédio. “A Força Tática ficava em três salinhas na 1ª Companhia, viemos para cá em 2007. Levantamos o quiosque juntos. A transferência do Copom (Centro de Operações) para cá aconteceu de surpresa na madrugada de uma quinta-feira”, disse o capitão.
Hoje ele tem 111 homens diretamente sob suas ordens no trânsito, no Copom, no setor administrativo e na Força Tática. É um dos mais antigos capitães do CPI-3 (Comando de Policiamento do Interior), ao qual o Batalhão de Franca é subordinado, e espera ser promovido a major a qualquer momento. Quando isso acontecer, acredita que mais uma vez deva deixar a cidade, mesmo que contra sua vontade. “Nasci paulistano, mas minha família está aqui, meus amigos, meu trabalho... Amo essa cidade”, disse ele, que é casado e tem dois filhos adolescentes.
Comércio - Como é o suporte da Polícia Militar ao Trânsito em Franca?
Capitão Wellington - A PM tem com a Prefeitura um convênio que foi celebrado para que a polícia execute ações de fiscalização que são próprias do município, como estacionamento proibido e infrações de solo. O Estado entra com o homem e a Prefeitura com os equipamentos para que façamos as fiscalizações que são próprias do município: radares, decibelímetro, etc. Para o município é interessante porque não altera a folha de pagamento, especialmente devido a despesas previdenciárias.
Comércio - A PM participa do planejamento da malha viária?
Capitão Wellington - Temos um diálogo, mas não participamos das decisões. Somos informados sobre delas. Avaliamos a quantidade de veículos que passam pelas principais vias, a necessidade de expansão, readequação, os gargalos que Franca terá nos próximos 5, 10 anos. Quando você leva pessoas, você tem de levar infraestrutura, porque aumenta o tráfego, transporte, escolas, pedestres... A Frei Germano e a Francisco Marques, por exemplo, devem se tornar gargalos ainda maiores do que são hoje porque são as vias que interligam o Centro com o setor de maior crescimento da cidade, a zona Oeste. Inclusive, as viaturas têm dificuldade para passar em determinados momentos e a gente fica com a parte de policiamento prejudicada. Se tivermos qualquer problema naquele pontilhão, não temos alternativas...
Comércio - Onde há mais dificuldade?
Capitão Wellington - No Centro velho de Franca. Temos vias que foram abertas em décadas atrás quando o transporte era feito em carroças e bondes. Elas foram projetadas para outro perfil de ocupação. Tem também o problema de verticalização dos imóveis que aumenta a concentração de pessoas em uma região em que as vias eram programadas para uma população reduzida. E o problema de circulação se agrava.
Comércio - Qual é o principal problema do trânsito de Franca hoje?
Capitão Wellington - A qualidade do motorista, que é muito ruim e muito mal educado: 99% dos acidentes ocorridos em nossa cidade são por falha humana, excesso de velocidade, de confiança... É lógico que em outras cidades temos os mesmos problemas, mas percebemos em Franca que o motorista se porta como se estivesse em uma cidade de características interioranas. Se a via tem duas faixas, ele fica bem no meio. Tem síndrome de formiga cabeçuda, que faz um trilho e ignora o resto da rua. Bebe ao volante, fala ao celular e não gosta de usar cinto de segurança. E acha que tem o direito de fazer isso.
Comércio - Como resolver o problema?
Capitão Wellington - É muito difícil mudar a educação das pessoas depois que já adquiriram hábitos ruins. Aliás, temos que começar com os instrutores de autoescolas. Já flagramos alguns ensinando errado na rua, multiplicando bobagem. Então, a gente tem de começar um processo de formação. Criamos um grupo para atuar em escolas, junto às crianças. Só vamos corrigir o atual motorista com a fiscalização, seja eletrônica ou pessoal. Infelizmente o cidadão tem mais medo do policial de trânsito com um talão de multas do que do policial de radiopatrulhamento com um cacetete ou uma arma.
Comércio - Não há solução em curto prazo?
Capitão Wellington - Não. É educar as crianças e reeducar os adultos, inclusive com punições.
Comércio - E os ciclistas?
Capitão Wellington - Ciclista em nossa cidade é brincadeira. Precisamos urgentemente licenciar para trafegar em vias públicas. Nossa malha de ciclovias é pequena e não temos ideia de quantos ciclistas temos em Franca. Se a polícia flagrar um ciclista fazendo barbaridades na rua, vai fazer o quê?
Comércio - O senhor acredita que a Guarda Municipal deva voltar a multar?
Capitão Wellington - O papel da Guarda está transcrito no texto constitucional, é a guarda do patrimônio municipal. Minha opinião é legalista. Eu não sou a favor de atuação fora do que diz a norma, porque você emprega um esforço muito grande em algo que no futuro a lei poderá desqualificar. Mas, sou a favor de todas as formas de atuação policial que venham a melhorar o trânsito.
Comércio - Como foi o início de sua carreira militar no Corpo de Bombeiros?
Capitão Wellington - Vim para cá em 2002, pouco depois da academia. Fazia a formação dos bombeiros para trabalharem com o projeto Resgate. A época foi de mudança e também de muita resistência. Passei 13 anos no Corpo de Bombeiros de Franca. Trabalhei até chegar ao posto de capitão. Em 2005, fui para o policiamento em Ribeirão Preto e depois vim trabalhar no 15º BPMI, em Batatais. Quatro meses depois assumi a função de planejamento estratégico operacional em Franca e, por consequência, o comando da Força Tática.
Comércio - Enquanto trabalhou como bombeiro, teve alguma ocorrência que o tocou mais?
Capitão Wellington - A primeira ocorrência que eu fui atender aconteceu na Serra do Mar, no 8º Grupamento dos Bombeiros, em Santo André. Era um acidente de trânsito envolvendo um Fusca e um caminhão. No Fusca havia uma mulher grávida morta, o homem preso nas ferragens ao lado e podíamos ver a criança viva no ventre da mãe. Felizmente conseguimos salvar a criança.
Comércio - O senhor comandou a ação de resgate às vítimas do acidente com o ônibus de estudantes na curva da morte. Como foi?
Capitão Wellington - Eu estava em casa quando o tocou o telefone e era o pessoal me avisando do acidente. Uma viatura já estava designada para me levar até o local. Nós chegamos lá, o ônibus estava caído na ribanceira. Havia estudantes lançados para fora no meio do barranco, na parte de baixo e também dentro do ônibus. Os bancos internos se soltaram, dentro havia uma massa de gente, de banco e de coisas. Tivemos que iniciar a operação pelo método start para verificar as condições de sobrevivência de cada um. Eram 44 pessoas. No caminho fomos avisando ambulâncias de municípios vizinhos, como Pedregulho e Jeriquara. Foi terrível. Enfrentamos problemas de natureza estrutural. Lá embaixo é uma área de terra e as ambulâncias não conseguiam ir nem para frente e nem para trás. Daí tivemos que arrumar tratores para puxá-las para conseguir chegar no local onde estavam as pessoas. Chegou um momento em que até eles estavam atolando. Houve muita boa vontade da polícia, dos bombeiros, de voluntários e das prefeituras da região. Passamos a noite e a madrugada procurando os estudantes. Ver uma pessoa deitada no meio do mato, olhando para você, a chuva caindo sobre ela, no frio. Ela olhar pra você e falar: “moço pelo amor de Deus me tira daqui”. E você estar impotente porque depende do meio de transporte para tirá-la de lá. Mexe muito com a gente.
Comércio - No início de 2006, o Comércio publicou ampla matéria sobre seu envolvimento em irregularidades administrativas. Foi por isso que o senhor deixou o Corpo de Bombeiros?
Capitão Wellington - Meu nome foi envolvido em uma denúncia anônima. Como eu não queria estar perto da apuração para que ninguém falasse que eu poderia influenciar no resultado, preferi me manter afastado. Por isso pedi para ir para Ribeirão Preto trabalhar no 9º GB. Foi um processo administrativo, feito pela corporação para apurar o caso.
Comércio - E o resultado?
Capitão Wellington - Eles chegaram à conclusão de que não havia crime a ser apurado. Existiam problemas de natureza administrativa, mas que não eram criminais, não houve má fé. São problemas que existem em todo o lugar. Por exemplo, chega um empresário aqui e diz que tem um container parado no porto de Santos com 40 mil pares de sapato dentro, que a vistoria está fora da ordem cronológica, mas se não embarcar vai perder o crédito disso. Eu diria: “Vamos vistoriar, verificar”. Na verdade, atrás disso havia outras coisas. A apuração do envolvimento de outras pessoas em atividades extracorporação, em determinado momento, fez com que passassem a achar que eu era um empecilho para essas atividades. A corporação apurou a parte disciplinar para verificar o quanto eu tinha realmente errado. E os procedimentos estavam realmente errados, assinados e despachados. Não havia nada escondido. Ao final do processo, a melhor decisão foi exatamente de eu trabalhar em outro lugar, pois eu tenho meus pais e pessoas próximas que trabalham nessa área e sempre alguém ia querer relacionar uma coisa com a outra.
Comércio - Gostou de ter mudado do Corpo de Bombeiros para o policiamento?
Capitão Wellington - Toda mudança gera tensão. Não era uma atividade nova, já que eu era formado para aquilo, mas não tinha aquele sentimento desenvolvido no dia a dia. A atividade de policiamento é muito dinâmica e a criminalidade evolui dia após dia, o modus operandi evolui.
Comércio - O senhor se identifica com a Força Tática?
Capitão Wellington - Sou apaixonado pelo que eu faço. E a gente tem que lidar com tantos conflitos, com a perspectiva de violência, mas nem sempre a gente é bem entendido naquilo que estamos fazendo. Às vezes, você quer fazer o bem para a comunidade como um todo e para isso tem que atentar contra a pertença liberdade de uns. Lido com isso muito bem porque gosto.
Comércio - O senhor considera a Força Tática uma companhia violenta?
Capitão Wellington - A Força Tática é chamada dessa forma porque ela emprega armamento, técnicas e táticas especiais de policiamento. Ela é treinada para ser a precursora do “Choque”. Enquanto no interior a Força Tática estiver dando conta do recado, não precisa da atuação de forças como a Rota (Ronda Ostensiva “Tobias de Aguiar”) e o Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais). Então, é preciso treinar aos homens da Força Tática para o exercício de todas essas atividades.
Comércio - O senhor recebe reclamações da população sobre o tratamento dos policiais da Força Tática?
Capitão Wellington - Durante todo o ano passado foram somente quatro reclamações. Em todos eles abri processo para apurar possíveis desvios de conduta. Quando isso acontece e é comprovada a culpa, o policial responde disciplinar e criminalmente. Somente neste mês de novembro foram registradas três mil ocorrências e nenhuma destas houve reclamação referente à atuação dos policiais. Eu recebo mais reclamações de pessoas que são autuadas no trânsito do que de pessoas que são abordadas no dia a dia pela Força Tática. As reclamações de trânsito acontecem pelo menos uma vez por semana na tentativa de desqualificar a afirmação do policial pela observância da lei.