O homem faz os relatos, precisando nomes, precisando datas.
Ângelo Scarabucci instalou a fábrica de fogos de artifício aqui em Franca, em 1901. Ficava em propriedade agrícola hoje delimitada pelas ruas Padre Anchieta, Floriano Peixoto, Saldanha Marinho, Nuno Alberto...
O progresso requereu despejo, as instalações foram morar lá na outra banda do Córrego do Cubatão, nas proximidades de onde hoje se encontra a Unimed. Posteriormente, houve nova mudança, desta vez lá para o alto da Santa Cruz, perto de onde hoje existe a Escola Scarabucci.
- Meu pai era genro do Ângelo Scarabucci. O nome dele? Chamava José Vitório Teixeira.
Em 1937, José Vitório, que trabalhava para o sogro, resolveu montar sua própria fábrica de foguete, de buscapé, de traque, de bombinha. Então, a fábrica Fogos Teixeira cresceu lá na Fazenda Candeias, local depois apelidado de Chácara Santo Antônio e, hoje, Vila Teixeira.
- Quantos anos eu tenho? Noventa anos e seis meses.
E Jersey Scarabucci Teixeira, sem necessidade do menor esforço, desfia lembranças.
Revela seu orgulho de haver estudado no Ateneu Francano, de propriedade de Augusto Marques.
- Ninguém fez mais por Franca do que ele. E ninguém fala isso.
Formado contabilista, trabalhou sempre na fábrica, ao lado do pai, até o falecimento deste, ocorrido em 1975.
- Aí a fábrica fechou.
Desde então, na mesma Vila Teixeira, Jersey opera no comércio de fogos de artifício. Compra e vende.
Consultório de oftalmologia nos aproximou. Trocamos informes, comentamos experiências. Estou convicto de que, depois de anos de tratamento, fiquei mais pobre e enxergo menos. O amigo não ficou mais pobre, mas foi aconselhado a não dirigir carro. Certamente por não enxergar o semáforo.
Uma coisa, porém, é certa: Jersey enxerga o passado como se ele fosse iluminado permanentemente pelo sol do meio dia.