08 de julho de 2026

Preconceito


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À cada dia vivemos uma surpresa. Agora tentam impor restrições ao livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, classificando-o como racista ou preconceituoso, por falar da negra Tia Nastácia. Coisas de tecnocratas completamente divorciados da realidade brasileira e, ao que parece, ignorantes sobre a história e a cultura de nossa sociedade. Se conseguirem barrar o nosso maior escritor para o público infantil, esses neo-tacanhos logo estarão também perseguindo Machado de Assis, Jorge Amado e a outros autores indispensáveis à cultura nacional. Mas, mesmo assim, não terão conseguido romper com o preconceito, o racismo e outros males da sociedade.

A questão do preconceito tem sido discutida de maneira demagógica, hipócrita e ineficiente. Aqueles que se apresentam como arautos da igualdade pensam apenas em afrodescendentes e homossexuais e, parece que propositadamente, ignoram os orientais, os judeus, os árabes, os pobres, os deficientes físicos, as mulheres e tantos outros que sofrem discriminação vinda de seus desiguais. Fazem questão de ignorar que afrodescendente e homossexual também discrimina aos demais e, portanto, não são os “coitadinhos” que seus falsos defensores querem fazer crer.

No tempo em que viveram Monteiro Lobato e Machado, o Brasil era uma sociedade altamente discriminadora e tinha nos negros o objeto maior da desigualdade, mais pela questão econômica da abolição do que pela cor da pele ou qualquer outro fator. Com o desenvolvimento, vieram outros grupos étnicos os imigrantes que também foram discriminados e discriminaram. Mas o País transformou-se nesse imenso caldeirão de miscigenação que tende, cada vez mais, a reduzir as questões étnicas, tanto que aqui convivem pacificamente etnias rivais em suas origens judeus e árabes, por exemplo - e muitos brasileiros de hoje são afrodescendentes e, ao mesmo tempo, têm traços índios, europeus, orientais etc. A mistura, via de regra, apresenta excelentes resultados.

Quanto ao preconceito, já existe legislação que o criminaliza e evita os excessos. Sair procurando frases ou idéias preconceituosas na obra cultural é atitude, no mínimo, idiota. A literatura, a música, a propaganda e todas as manifestações são decorrência do clima vivido pela sociedade na época de sua produção. E, mesmo no Brasil preconceituoso dos séculos IXX a XX, não dá para acreditar que certas obras tenham tido o objetivo de diminuir ou ridicularizar as minorias e os desiguais. Em vez de tentar criar uma carapaça protetora a negros e homossexuais, governo, lideranças, forças da sociedade e principalmente os intelectuais deveriam lutar em busca de igualdade para todos os indivíduos, independente de sua cor, raça, religião, orientação sexual e nível econômico. Só seremos uma sociedade justa no dia em que tivermos a cidadania respeitada, com direitos e deveres iguais.

Aqueles que hoje estabelecem cota para negro, mulher ou qualquer outro segmento deveriam parar com isso porque, a partir do momento em que entra na universidade, no emprego ou em qualquer lugar pela porta privilegiada, o indivíduo fica marcado e, aí sim, a desigualdade é fortalecida. Igualdade é a palavra de ordem. Todo o resto é retrocesso e motivo para os ditos “defensores” se aproveitarem daqueles a quem dizem defender. É a neo-escravatura...

Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, dirigente da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo