11 de julho de 2026

Quase cinco mulheres são agredidas por dia em Franca


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MEDO CONSTANTE - Maria (nome fictício) costura sapato em sua casa. Ela apanhou durante oito anos do ex-marido e chegou a ser esfaqueada por ele: “Para quem já tentou me matar uma vez, fazer de novo não custa nada. Tenho muito medo de morrer”

A dor e a angústia de quem convive com a violência dentro de casa, aos poucos, têm deixado a esfera familiar para ganhar o registro na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Franca. Desde o surgimento da Lei Maria da Penha, que pune com mais rigor os autores de agressões contra mulheres, o número de queixas que chega à polícia não para de crescer. Só nos primeiros nove meses deste ano, uma média de 144 mulheres por mês procurou a delegacia para denunciar seus agressores. A média mensal de 2009 foi 112 denúncias.

A delegada titular da DDM, Graciela Ambrósio, atribui o aumento dos casos denunciados à maior intolerância das mulheres com a violência. “Temos visto mulheres que nunca registraram ocorrência denunciando os companheiros. Elas não estão mais admitindo a violência e procuram a delegacia”.

Para a delegada, o encorajamento das vítimas para denunciar se deve às conquistas femininas na sociedade e ao trabalho de conscientização sobre violência. “Muitas mulheres achavam sua situação normal e não denunciavam. Também pensavam que a situação podia melhorar ou não tinham tanta confiança na Polícia e na Justiça. Percebemos que estão mais confiantes porque não é só a delegacia tem trabalhado contra a violência, mas toda a sociedade”.

De janeiro a setembro, a DDM registrou 1.301 casos de ameaça e agressão contra mulheres. Embora tenha havido aumento do ano anterior para este, autoridades atestam que muitas mulheres ainda se negam a registrar a ocorrência e convivem caladas com surras e agressões psicológicas. O medo gerado pelas ameaças dos agressores e problemas com drogas e álcool explicam a falta de iniciativa.

O Comércio entrevistou mulheres que viveram o drama de serem agredidas por seus companheiros e hoje tentam reconstruir a vida. Elas contam como foi conviver com uma rotina de violência e como encontraram forças para procurar a polícia.

Maria (nome fictício) demorou oito anos para conseguir se livrar da violência de seu ex-marido, que é alcoólatra. Aos 16, conheceu o homem que é pai de cinco dos seus sete filhos. Ele é cerca de dez anos mais velho que ela. Logo no começo da relação, decidiram morar juntos. Foi ao lado do homem com quem teve filhos que Maria enfrentou os dois maiores dramas de sua vida: o vício em crack e a violência doméstica.

Maria está com 29 anos. Não se lembra da primeira surra nem quantas foram, mas não esquece das vezes em que foi enforcada, nem dos socos que levou do ex-marido e do choro e gritos dos filhos enquanto assistiam a essas cenas. Também não tira da memória as noites em claro que passou ao lado dele, na mesma cama, depois das agressões. Alega que não tinha como fugir porque ele trancava a casa e dormia com as chaves na mão. “Não tinha para aonde ir. Ele ainda falava que ia me matar se eu saísse”.

Pisar na delegacia para denunciá-lo era sinônimo de mais socos e chutes. Em oito anos, Maria prestou apenas três queixas contra o ex-marido, mas retirou todas. Durante esse tempo, ignorou as broncas e conselhos de vizinhos “para largar aquela vida”. Dependia dele para sustentar os filhos e o vício em drogas. Ele trabalhava como chapa e ela não.

Numa das discussões, Maria disse que quase morreu. Diz que levou 22 facadas dele nas costas, na cabeça e na mão. Ciúmes teriam motivado o ataque. “Foi o dia mais horrível da minha vida. Gritava socorro e ninguém vinha me ajudar. Ele falou que ia me matar, foi até o armário, pegou uma faca e me deu vários golpes. Ele só parou porque fingi que estava morta”.

Segundo Maria, ele chegou a ser preso uma vez por agredi-la, mas não foi por conta das facadas. “Acho isso uma humilhação porque eu quase perdi minha vida e ele saiu impune”. Depois de quase ser morta, Maria ainda aceitou o ex de volta. Três meses depois do episódio estavam juntos de novo. “Aceitei porque estava passando fome e ele trabalhava”.

Maria precisou enfrentar um verdadeiro martírio até decidir dar um basta na dependência das drogas e do ex-companheiro. Ele não queria que ela se tratasse. Ela foi escondida para a casa de recuperação da Amafem (Associação Mão Amiga de Amparo Feminino). Os filhos foram levados para um abrigo e devem voltar a viver com ela no fim do ano. Maria ficou seis meses internada para se livrar do vício em crack. Diz que conseguiu. De volta à sua casa, passou a se sustentar. Trabalha como manicure e costura sapatos. “Hoje vejo que uma mulher não precisa de homem dentro de casa para tratar dos filhos”.

Maria namora e, grávida de três meses, espera o oitavo filho. Não tem contato com o ex, mas continua com medo. “Ele me ameaça, manda recado por vizinhos. Para quem já tentou me matar uma vez, fazer de novo não custa nada. Tenho muito medo de morrer”.

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