16 de março de 2026

‘Post hoc, ergo propter hoc’


| Tempo de leitura: 7 min
Nunca dissemos que frei Jesus agiu indevidamente ou que ele cometeu falha ética. Registramos fatos. Nada além disso.

“Há homens que se agarram a sua opinião, não por
ser verdadeira, mas simplesmente por ser sua”
Santo Agostinho
, religioso e doutrinador católico

O Comércio publica hoje, na seção de Cartas da página 2, um violento e ressentido artigo com críticas a uma reportagem publicada pelo jornal em meados de outubro. Muitos leitores, por mais bem informados e atentos que sejam, podem encontrar dificuldades em aceitar como verdadeira a identidade de quem assina um texto recheado de tantas palavras ásperas em tom acusatório, tudo pontuado por um raciocínio um tanto particular e revestido de ironia pouco elegante. Sobram mágoas e ilações absurdas, faltam argumentos minimamente factíveis para sustentar qualquer tese. Seu autor? Surpreendentemente, um religioso. Mais precisamente, frei Jesus Maria López Mauleón, o pároco da Capelinha.

A ira de frei Jesus decorre da manchete “Bispo adverte frei que lançou texto contra Dilma Rousseff”, publicada pelo Comércio na edição de 16 de outubro. Naquele dia, reportagem assinada pelo jornalista Marco Felippe revelou a polêmica provocada pelo Informativo Capelinha, jornal editado sob responsabilidade do frei que, numa de suas edições, veiculou textos críticos à postura do PT e da então candidata do partido à presidência da República, Dilma Roussef, em relação ao direito ao aborto. O texto mais importante, assinado por Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo de Guarulhos, era uma crítica aberta ao Partido dos Trabalhadores, ao Plano Nacional de Direitos Humanos aprovado pelo governo Lula e à candidata do partido à presidência da República, Dilma Roussef, a quem o religioso recomendava que os “verdadeiros cristãos” e “verdadeiros católicos” não confiassem seu voto.

O artigo de Dom Luiz, publicado em centenas de cidades do país, provocou forte reação de setores ligados à candidata governista que viria a ser eleita presidente do Brasil. A pressão sobre a comunidade católica foi intensa e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) decidiu se posicionar. Oficialmente, a entidade ressaltou uma vez mais a defesa da vida, mas deixou claro que a opinião manifestada por Dom Luiz era pessoal e isolada. Publicamente, a CNBB desautorizou Dom Luiz, que integra seus quadros, de se manifestar em nome da entidade, e reforçou sua posição de não recomendar voto em ninguém.

A polêmica que afetou os rumos da campanha presidencial e pautou grande parte da disputa entre Dilma e Serra no segundo turno reverberou também em Franca. O artigo de Dom Luiz Bergonzini, reproduzido no Informativo Capelinha, provocou forte reação - e um problema adicional. Na versão distribuída aos paroquianos de Franca, o texto tinha o título “CNBB pede que fiéis não votem em Dilma”, o que não correspondia à verdade. O erro fragilizou ainda mais a posição de frei Jesus. O assunto ganhou vulto a ponto do bispo diocesano, Dom Luiz Stringhini, anunciar que encaminharia carta aos padres da Diocese esclarecendo que não era verdade que a CNBB reprovava o voto em Dilma Roussef. Dom Luiz Stringhini disse ainda que Frei Jesus havia errado em publicar o artigo. “Defendo o voto livre, porém respeitando os critérios éticos em defesa da vida e da família. Minha posição é a da CNBB, que é diferente desta”, disse Dom Luiz Stringhini em entrevista ao Comércio, numa referência os textos contidos no Informativo Capelinha. Por fim, determinou ainda que o erro no título fosse corrigido.

Assunto encerrado, certo? Não, errado. Pelo menos, para frei Jesus, que enviou a agressiva carta com 12 pontos cuja íntegra publicamos hoje na página 2. O frei, em síntese, nega que tenha tido sua atenção chamada por Dom Luiz Stringhini; diz que os artigos que publicou contra Dilma Roussef não são de sua autoria; insinua que o Comércio e o repórter Marco Felippe forjaram artificialmente uma polêmica que não existia; elogia a postura “dos valentes prelados” que tiveram coragem de se manifestar publicamente; nega que a CNBB possa desautorizar um Bispo; lembra que não é brasileiro e que portanto não vota, mas que se votasse não o faria em nenhum candidato que defendesse a liberação do aborto; insiste reiteradas vezes na tese da valorização da vida; critica o jornal por não ter registrado eventos bem-sucedidos da Capelinha; regozija-se com a posição do Papa que exortou os religiosos a se manifestarem publicamente contra o aborto e, no final, pede que o corrijamos se ele estiver errado.

Não tenho nenhuma dúvida de que frei Jesus está completamente errado. Do princípio ao fim, a carta por ele enviada é uma confusão de sentimentos que nada esclarece ou elucida. Pior, em nenhum ponto demonstra qualquer erro em relação à postura do Comércio. Afinal, qual a relação da posição do Papa com a notícia publicada pelo Comércio? Noticiamos as duas, a polêmica a posição do Papa. Quando o Comércio disse que ele era o autor dos textos? Nunca. O que tem a ver os eventos da Capelinha com a reprimenda que sofreu? Coisa nenhuma. Frei Jesus acha que quem manifestou sua opinião sobre o aborto é corajoso? Nunca dissemos o contrário.

Os fatos são simples, suas repercussões inequívocas, suas consequências, públicas. Frei Jesus defende a vida como um direito absoluto, o que é legítimo. Quis publicar artigos que, no seu juízo, orientavam os fiéis de seu rebanho sobre qual o melhor candidato à presidência da República, o que também lhe é facultado fazer. Os textos publicados - por ele e por outros religiosos espalhados por todo o país - provocaram reações emocionais. Estava instalada a polêmica. A CNBB, a maior entidade de representação dos bispos do Brasil, manifestou-se contra o texto que frei Jesus e outros tantos tinham publicado e desautorizou manifestações em seu nome. O bispo local, maior autoridade eclesiástica da região, também reagiu. Poderia, eventualmente, ter manifestado apoio público ao frei se assim quisesse, mas não o fez. Deixou claro que sua posição era a da CNBB, diferente da manifesta no Informativo Capelinha. O Comércio da Franca registrou tudo desta forma, com absoluta precisão. Sem mais, nem menos.

De tudo, o pior na carta de frei Jesus são as insinuações de que agimos movidos por má-fé. O repórter Marco Felippe, seu alvo principal, é um profissional correto que, além de jornalista, é profundamente religioso - e católico. Não é com prazer que relata problemas na sua Igreja. Mas assim como ao frei cabe zelar pela sua paróquia, ao jornalista cabe registrar o que é fato. E era fato que os textos publicados por frei Jesus provocaram intensa polêmica na cidade. Goste ou não o frei, é como a cidade e o bispo reagiram aos textos que publicou.

Quanto ao jornal, é ridículo dizer que o Comércio menospreza a relevância da Capelinha. Católicos - e todas as demais denominações religiosas - tem amplos e generosos espaços em nossas páginas. Talvez não com a frequência que deseje frei Jesus, mas certamente em volume suficiente para manter nossos leitores de todas as religiões informados sobre o que acontece nos seus respectivos templos.

Frei Jesus age como tantos que concedem entrevistas ou protagonizam episódios polêmicos e, depois, quando tudo se torna público, investem contra a imprensa. Irritam-se com a repercussão e reclamam da interpretação, mas não conseguem negar os fatos. Nunca dissemos que frei Jesus agiu indevidamente, que suas opiniões não são válidas ou que ele cometeu qualquer falha ética. Registramos o que aconteceu: uma polêmica provocada por textos que ele decidiu publicar. Conhecer os fatos era um direito da população. Nada além disso. Cumprimos nosso papel.

O título deste texto é um ditado latino que significa “Depois disso, por causa disso”. É uma falácia, pois nem sempre dois eventos seguidos tem relação de causa e efeito. Cai como uma luva para a interpretação que frei Jesus parece ter dos episódios. Para frei Jesus, os dissabores que enfrentou são resultado da publicação pelo Comércio. É um erro. Na verdade, a repercussão do caso se deve não ao registro que o Comércio fez dele, mas sim à decisão do frei de publicar, em plena ebulição do período eleitoral, um texto contrário à candidata favorita. Se ele não tivesse publicado os textos, não haveria polêmica. Sem polêmica, o Comércio não teria o que publicar. É assim que funciona, frei Jesus. Simples assim.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br