07 de julho de 2026

O poder do voto


| Tempo de leitura: 5 min

Amanhã, 31 de outubro, voltamos à urna para escolher o novo presidente do País. Vamos fazê-lo sem que Dilma e Serra tenham se empenhado em discutir os principais problemas nacionais e optado por se agredirem em debates, que fizeram nos últimos 30 dias, exceção ao último, ontem.

Jogaram pedras um no outro ao discutir o aborto e escorregaram ao tentar explicar o inexplicável da corrupção política, que mais os iguala do que deixa antever um melhor que o outro. Não visaram, nem por um mísero segundinho, soluções para a péssima educação que o brasileiro recebe(?) de norte a sul deste País e nem à insegurança pública, filha da impunidade e das leis impraticáveis que fazem do Brasil uma das principais guerras civis do mundo (996.450 mortes violentas no Brasil entre 1979 e 2008 segundo o DataSUS, 91 mortes em cada dia deste período,1 à cada 15 minutos).

Continuo trabalhando com jovens e adultos treinando-os a melhorarem comunicação oral e gestual e tornarem-se eficientes e eficazes em suas relações com o mundo. Quem aparece é movido pela desejo de ser melhor no ambiente de trabalho, no trato com as pessoas. Confessam-se, acionados para falar em público ou expressarem meros pontos de vista sobre as coisas do dia a dia, travados, angustiados, com medo, boca seca, incapazes. Quando começamos a conversar, pergunto, habitualmente, sobre o que leem: um jornal por dia? Por semana? Por mês? Invariavelmente os rostos revelam surpresa. Somos brasileiros e nosso Presidente da República diz que não lê, que não teve escola, a não ser a da vida. Se ele, o mito, não faz, porque eu, ou você, faríamos?

Insisto. Sem uma olhada atenta no jornal do dia, ou no noticiário de televisão e rádio, como é que alguém pode manter conversação ou realizar comunicação efetiva? A partir de minha prosa inicial com treinandos, estabeleço a rumo: sem leitura e posicionamento pessoal, não há caminho. Alguns, desaparecem. Outros, ressabiados, insistem. Muito a contragosto, passam a ler para não serem pegos de surpresa durante os encontros de trabalho. A estatística é impressionante: sete, em cada dez, independente das atividades, não leem; são incapazes de formular opinião sobre assuntos que lhes interessam. E votam mal. Sem informação ninguém vota bem.

Tenho a impressão que os marqueteiros políticos sabem e investem nisso. Penso que orientam seus candidatos-clientes a fazerem de tudo para terem suas imagens expostas nos principais meios de comunicação de massa do País, mesmo que não digam nada, que gaguejem, que não digam coisa com coisa. Afinal, está provado. Façam como fizerem, dá no mesmo...

Estou assustado. Amanhã vou à urna escolher entre Dilma e Serra. Olho para os dois e, mesmo usando o olhar “linguagem corporal” treinado que tenho, confesso que ambos não me passam confiança. Dilma, técnica competente, gerentona dona do bordão “meu filho”, que é capaz de fazer tremer até quem tem razão, não tem a figura, a fala, o dom estadista que este País prestes a ocupar lugar de absoluto destaque no mundo do terceiro milênio precisa. Faltam-lhe as mais importantes habilidades de Lula, a capacidade de negociar e a paciência própria de enxadrista, para preparar e amadurecer decisões. Serra, político competente e gestor de trato difícil, vitórias e derrotas definidas “no braço”, aparenta cansaço, olhar perdido, gestual curto, quase descrente.

Bem. Na urna, não levarei em consideração os sorrisos fabricados de Dilma e Serra, seres que até antes da campanha não sorriam para nada, a ninguém e nem à melhor das piadas. Naquele momento íntimo, em que vou exercitar poder quase supremo através do voto, preciso pensar, isto sim, nos motivos que os levaram a não sorrir de jeito nenhum ao integrarem seus partidos políticos e a conviverem com os companheiros que têm.

HINO NACIONAL
Volto ao debate sobre aplaudir, ou não, o Hino Nacional, assunto considerado pelo radialista e companheiro Valdes Rodrigues em sua coluna Painel, em Comércio desta semana. Não há a polêmica que se discute por aí. O que gera a possibilidade dela é desconhecimento e interpretação descuidada do teor da Lei 5700/71, que disciplina a questão. Primeiro é preciso entender que não se executa ou entoa o Hino sem a presença da Bandeira (artigo 24, item I) e que a Bandeira é o principal símbolo brasileiro (parágrafo 2º, do artigo 25), “visão permanente da Pátria, sempre sob a guarda do povo brasileiro” (parágrafo 2º da Seção I). O Hino é entoado “em saudação” à Bandeira; à própria Pátria, em outras palavras. Então, não se aplaude o Hino. Aplaude-se, ou saúda-se a Pátria, representada pela Bandeira. Ao cerimonialista devidamente credenciado – a quem também compete dar interpretação correta ao uso adequado dos símbolos – cabe, observados aplausos após o Hino Nacional, direcioná-los ao pavilhão nacional, à Bandeira, à Pátria.

E MAIS
Se o Hino é executado por orquestra ou músicos como peça constante de um evento artístico, o aplauso é direcionado aos músicos, ao maestro, aos personagens que executam o obra. Se o evento é cívico, o aplauso será sempre direcionado à Pátria, representada pela Bandeira.

E, POR ÚLTIMO
No Brasil, toca-se o Hino Nacional como forró ou samba. Sua letra é cada vez mais desconhecida e não estimulada ao aprendizado desde as escolas fundamentais. Os versos são transformados em piada. A Bandeira Nacional vira biquini e soutien, canga de praia, sapatos. É hasteada em frangalhos, sem a iluminação prevista em lei. Em cerimônias, é condenada ao fundo dos palcos, ou jogada ao lado, onde a ‘visão permanente da Pátria’ não é, sequer, notada. Não é o aplauso, o problema. É cidadania. Ou falta dela.

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br