Estamos na última semana da campanha eleitoral que pecou pela agressão colocada no lugar das propostas. Principalmente no segundo turno tivemos o espetáculo deprimente da falsidade apoiada em técnicas de marketing para enganar o eleitor. Faltaram propostas e sobraram agressões de lado a lado como se não houvesse expectativa de vida após as eleições. Tropas de choque e partidários de ambos os lados emitiram milhares de e-mails, muitos mentirosos, outros sofismáticos e disparatados para tentar denegrir a imagem do candidato que não é de sua simpatia ou interesse. Com isso, lamentavelmente, a eleição, em vez da chamada festa cívica, transformou-se em palco de exibição da turba.
Pouco diferente dos outros países sulamericanos que viveram de déu-em-déu, alternando períodos autoritários e democráticos, o Brasil vive hoje a sua mais longa experiência democrática. Há 31 anos ocorreu a anistia e aos poucos o regime autoritário se desfez. Os exilados, banidos e perseguidos puderam voltar à vida normal e já tivemos dois presidentes (em quatro mandatos) vindos das fileiras dos adversários do antigo regime, hoje rotulado como ditadura. Agora, independente de quem ganhe, será o terceiro adversário de 64 a dirigir o País. Serra foi exilado e Dilma pegou em armas e até cumpriu pena, mas tudo isso foi apagado pela Anistia outorgada pela Lei n´ 6.683, de 28 de agosto de 1979.
Muitos dos eleitores de hoje eram crianças ou nem haviam nascido nos chamados “anos de chumbo”. Foi um período de confronto e seus participantes ainda conflitam em ideias e avaliações. Só a história, dentro de algumas décadas, quando estiverem sepultadas as paixões sobre aquele momento, terá meios encontrar uma definição para o período e, até, classificar heróis e vilões. As manifestações que vemos hoje em dia demonstram que a sociedade brasileira ainda não está preparada para essa tarefa. Os perseguidos de então, embora anistiados pelos seus agravos, ainda querem julgar os perseguidores e vice-versa. É um fogo que só o tempo poderá apagar.
O Brasil de hoje não pode ser alimentado por fogueiras e paixões do passado. A democracia confere ao povo o direito de escolher seus governantes e representantes parlamentares. Infelizmente, o comportamento de muitos dos envolvidos nessa disputa é imaturo e ainda está carregado de feridas de um passado que já foi oficialmente apagado pela Anistia. Quem ainda faz questão de ver sangrar as feridas do passado é, no mínimo, masoquista.
Apesar da anti-campanha que acabamos de assistir, é do absoluto interesse da população escolher entre as candidaturas, aquela que melhor possa atender aos anseios nacionais. Sem pensar na “perna torta”, no “olho de vidro” ou no “passado negro” desse ou daquele, devemos votar em quem tenha propostas que mais atendam às nossas necessidades, como cidadãos. Afinal de contas, tudo o que queremos é um governo que nos dê melhores condições de vida e possa projetar uma sociedade melhor para nossos filhos, netos, bisnetos etc... Vote bem. Vote com a sua consciência!
Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo