10 de julho de 2026

Caçamba vira casa em bairro nobre de Franca


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FOGÃO IMPROVISADO - Cláudio Valério da Cruz e Juliano Machado improvisam um almoço na fogueira. Amigos vivem de doações e da renda como catadores de lixo

“Caçamba de número 1, ao lado do Franca Shopping”. Esse é o endereço que desde julho deste ano vivem dois amigos, Cláudio Valério da Cruz, 35, e Juliano Machado, 31. Após desentendimentos com suas famílias, dificuldades financeiras e sem alternativas de onde morar, os amigos se reencontraram no ano passado e há três meses passaram a dividir o teto de uma caçamba localizada em um terreno na Avenida Rio Amazonas, ao lado do Franca Shopping, local nobre da cidade.

Há três anos, quando se separou da mulher, com quem tem um filho de oito anos, Cláudio morava no Parque do Horto e era servente de pedreiro. “Depois que me separei, fui morar com minha irmã, mas não deu certo. Como não tinha para onde ir, fui para a rua”, disse. Do outro lado da cidade, Juliano Machado, pai de dois filhos de 6 e 9 anos, trabalhava como pintor, na Vila Martins. “Nunca me casei e morava com meus irmãos, mas nós brigávamos muito. Há oito anos, como não tinha pra onde eu ir, fiquei vagando pela rua”, disse.

Em novembro do ano passado, os amigos que hoje preferem ser tratados como irmãos, se encontraram próximo do atual lar, na Avenida Santos Dumont. “Teve um tempo que a gente se via muito, um ajudava o outro, mas dessa última vez que nos encontramos fazia mais de ano que não nos víamos. Daí percebemos que estávamos na mesma situação”, disse Juliano. Ao lado de Cláudio, ele foi morar em um barraco ao lado do Centro Comunitário da Vila São Sebastião, por onde ficaram seis meses. “Era um barracão desocupado, mas há três meses eles reformaram e nos tiraram de lá”.

Uma caçamba velha emprestada pelo proprietário de um terreno que, segundo eles, se chama André, foi o que lhes restou como moradia. Sem água, banheiro, nem energia elétrica, a “casa” improvisada onde eles estão possui dois colchões, um cobertor e um pequeno armário. O teto da caçamba tombada protege-os do frio e da chuva durante a noite. Durante o dia, o sol forte que bate no aço da estrutura deixa o ambiente quente e serve como despertador para os amigos, que sobrevivem do recolhimento de lixo reciclado. “Levantamos às 6 horas da manhã e só paramos à tarde. Saímos catando os materiais por bairros próximos, como Jardim Santa Helena e Vila Santos Dumont”, disse Juliano. Com a venda dos recicláveis, juntos eles ganham cerca de R$ 25 por dia. O dinheiro é dividido entre os dois e usado na compra de comida, que eles preparam em uma fogueira improvisada no terreno. Na manhã de ontem, durante a reportagem, o cardápio do almoço foi diferenciado. Salmão frito e arroz. “Um empresário doou uma caixa de isopor com mais de dez quilos do peixe. Compramos temperos e é o que temos para hoje”, disse.

Para tomar banho, eles se dirigem até uma mina próximo à Vila São Sebastião. Os amigos não querem mais continuar nesta situação. “Queremos um emprego fixo para poder alugar uma casa na cidade e sair daqui. Não gostamos de pedir ou incomodar as pessoas”, disse Cláudio. Os amigos ainda necessitam de roupas, sapatos e alimentos.

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