A expressão foi cunhada pela filósofa alemã Hannah Arendt, diante da crueldade do Holocausto e como profecia aos novos tempos pós-guerra, mas bem que poderia traduzir o contexto de insensibilidades que vivemos no Brasil. A foto de Cassiano Lazarini, fotógrafo deste Comércio, publicada na capa do jornal de quinta-feira, 21, é um flagrante da crueldade que se olha sem um pingo de compaixão, um dos sentimentos que mais nos define como humanos. Animais não sentem compaixão por seus semelhantes, pois não têm condição de se colocar em lugar de outro.
Quem viu a foto e leu o texto que a ladeava, sabe do que se trata. A câmera fixou os instantes posteriores à execução de um homem de 28 anos que, ao ser surpreendido por seus matadores, tentou correr para apanhar um revólver que lhe permitiria defender-se. Quem não viu a foto pode encontrá-la acessando a matéria. Uma olhada detida garantirá a compreensão do que se comenta. É o retrato da banalização do mal e da violência tornado quadro perturbador. De um lado, o desespero da mãe do morto no momento em que chegava à cena e constatava a desgraça irreversível. De outro, as expressões dos circundantes: riso debochado de adultos frente à morte violenta, olhar indiferente de crianças de rostos inexpressivos, todos aparentemente testemunhas involuntárias daquela execução. É impactante imaginar que não haja em seus semblantes algum sinal de incômodo ou desconforto diante de um corpo que estava vivo e por ali jogava futebol instantes antes dos nove tiros.
A que atribuir corações tão duros, olhares tão frios, pensamentos tão impermeáveis à vida do outro? O filme Tropa de Elite, que tem levado milhares às salas de cinema do país, mostra cenas bem semelhantes, sugerindo que há uma doença contagiosa no tecido social. Estamos em guerra civil neste País. Ao final de 2008 o DataSus do Ministério da Saúde divulgou pesquisa que começou em 1979 e que registrou 996.450 mortes violentas no Brasil. Durante 10.950 dias, 91 mortes em cada um deles. Por cálculo simples, uma morte a cada 15 minutos, número comparável ao de países em conflito bélico. Os números brasileiros explodiram nos últimos dois anos. E o pior é que neles não estão as mortes do trânsito, a segunda guerra. Pesquisa de 2007 assinada pelo IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada), órgão do governo federal, apontava 35 mil mortes, 400 mil feridos, 1,5 milhão de acidentes e custos de R$ 22 bilhões por ano: quase 100 mortes por dia! Mesmo com os registros mascarados de hoje, estes índices também cresceram exponencialmente.
A população que tem um mínimo de lucidez deveria estar em estado de choque com estes números e as razões que os produzem: má distribuição de renda, educação esfacelada, insegurança pública, saúde sem responsabilidade com a vida. E impunidade que deriva de leis defasadas e burras, que privilegiam o crime, garantem criminosos e são impossíveis de serem praticadas porque amarram a decisão de juízes. Não há futuro promissor, pois o tema da violência urbana ausentou-se por completo das falas dos candidatos Dilma Rousseff e José Serra. Com um ou outro, parece que a solução não virá. E isto é, a uma semana do segundo turno, no mínimo, desalentador.