08 de julho de 2026

Osso duro de roer


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Na segunda-feira fui ao cinema assistir a Tropa de Elite 2. Ao sair da sala 1, fiz questão de parar uns minutos ao lado da porta principal e atentar para o semblante das pessoas. Queria ver como estariam depois de submetidas a tantas cenas pontuadas por violência e corrupção. Apurando o ouvido, captei uma frase que ficou ocupando espaços na minha mente: “por que os candidatos não discutem isso?” A pessoa se referia a esses que vêm tratando eleitores como seres com déficits cognitivos, a quem a realidade escapa. Os temas que incomodam e perturbam, porque dizem diretamente respeito às garantias constitucionais para todos, ausentaram-se até aqui das falas ensaiadas e das entrevistas engessadas.

Aquele demonstrativo, isso, enfatizado pelo homem de uns quarenta anos, em observação à mulher que o acompanhava, é algo de extrema complexidade: remete ao avanço da criminalidade, da violência urbana e sua relação com as drogas. O assunto ganhou a atenção do cineasta José Padilha desde o documentário Ônibus 174.

Tropa de Elite2 se instaura quase como antítese a Tropa de Elite 1. Se antes o incorruptível capitão Nascimento, chefe do Bope, protagonizava o justiceiro que atendia às aspirações da população vitimada, agora, decorridos quinze anos, torna-se, por obra de interesses políticos, o tenente-coronel Nascimento, lotado na Secretaria de Segurança Pública do Estado. É ali, quase em doses homeopáticas, que vai se desvelando ao seu olhar o esquema até então nunca imaginado: o inimigo é outro. Deixa de ser o bandido dos morros para se revelar o que ele chama de ‘sistema’, conjunto de elementos político-policiais-midiáticos organizados.

Como espectador, torna-se um pouco difícil entrar no segundo filme sem ter visto o anterior. Tropa de Elite 1 e 2 mostram correlações e compõem as duas faces de uma mesma moeda, refletindo maneiras ideológicas de ver a realidade. Mas a vida em sociedade não é tão simples como às vezes tende a acreditar Padilha. Não se pode entendê-la apenas pelo viés direitista, segundo o qual “bandido bom é bandido morto”, muito menos pelo viés esquerdista, com tintas à la Rousseau, para quem o homem nasce bom e é estragado pela sociedade. Há muito mais coisas a descobrir e explicar em cada destino ou individualidade, como até sugere o jovem bandido que retira dentes de um crânio calcinado, enquanto resgata de maneira tosca uma fala de Hamlet. Shakespeare bem perto do microondas dos morros cariocas, quem diria?

Padilha, pelo seu Nascimento, no segundo filme denuncia a falsidade, o engodo, as astúcias, o crime, a corrupção avassaladora que pemeia todos os organismos políticos e policiais aliados a setores da mídia conspurcada por interesses escusos. Mas salva a mídia que elege a investigação e representa o último temor das personas públicas com “ficha suja”. Numa cena impactante, falando como testemunha numa CPI, o tenente-coronel que trocou a farda pelo terno diz que dos deputados presentes na Câmara, “50% são responsáveis por esquemas criminosos”. Depois se corrige e aumenta a porcentagem para 90%. É um momento catártico para o público, como o é a cena em que o protagonista espanca um deputado criminoso.

Em termos de estrutura, a história é narrada em off, de forma linear mas em flash back, pelo próprio Nascimento, num quarto de hospital. À narrativa social cola-se outra, a da vida pessoal do protagonista, em crise diante do novo companheiro da ex-mulher e do filho adolescente. As duas histórias se imbricam, tornam-se uma só. Todas as imagens são marcadas pelo caos de objetos, casas, barracos, ruas, aglomerados, vozes quase sempre dissonantes. Quando não há sangue, os tons são encardidos, mesmo se o mar está presente. Faltam cores e vida. Sobeja morte.O tom pessimista é inarredável durante todo tempo e se acentua no final, nos grandes planos que destacam o centro do poder em Brasília. Para Nascimento, não há escape. O sistema pode se enfraquecer durante algum tempo, para reaparecer mais vigoroso, como a figura mitológica da Hidra de Lerna, a quem inutilmente se cortavam as cabeças, pois logo em seguida renasciam.

A música do Tihuana que abre o díptico fala em ‘osso duro de roer’. É uma metáfora vigorosa para a sensação que nos invade, tão logo os créditos informam que Tropa de Elite 2 acabou, de forma um tanto abrupta. O osso reaparece inteiro para ser roído, pois a realidade na qual estamos inseridos não é menos letal que a do filme.Talvez ela seja apenas menos explícita.