08 de julho de 2026

Vizinhos


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Não faz muito morávamos num bairro de poucas casas, mato, quase nenhuma vizinhança. O local era até considerado periferia. Logo em frente à nossa, havia uma única casa e, ao lado dela, uma paisagem composta por exuberante plantação de mamonas.

A pavimentação da rua terminava logo depois da nossa calçada à direita; e a rua lateral da esquerda não continuava asfaltada, acabava logo abaixo da confluência com a nossa. Não havia barulho de carros passando, nem brecadas, as crianças brincavam livremente e a porta da frente ficava aberta. No terreno ao lado, cajamangueira, figueira, mangueira, pessegueiro, grama e folhagens exuberantemente brasileiras. Na rua, um único poste com lâmpada para iluminar. Falava-se de ladrões por ali, mas ainda assim os muros não tinham cerca elétrica.

A casa da frente ficou temporariamente vazia e de repente, foi alugada. Os novos moradores, soubemos, era um jovem casal: ele médico, ela enfermeira e uma filhinha. A movimentação inusitada de carros naquele beco, numa tarde habitualmente quieta, me levou à porta. Vi uma moça bonita, de cabelos enroladinhos sentada no alpendre da casa conversando com uma senhora que presumi ser sua mãe. No jardim, brincava uma meninazinha linda, de olhos bem abertos e espertos, mais nova que meus filhos. Olhamo-nos. De longe ela sorriu, eu sorri. Entrei em casa, fiz um bolo rapidinho, café, peguei água fresquinha e fui levar para a família, que organizava a arrumação da nova casa. Surpresa: o jovem médico era de Franca; ela, de Vargem Grande do Sul, perto de Poços de Caldas, distante daqui. Foi esse o início de uma amizade que dura até hoje. Pudera: amizades que começam com bolos, café e sorrisos, tendem a durar para sempre.

Vizinhamos durante bom tempo. Prestativa e disponível, ela me ajudou em momentos difíceis de fragilidade física e emocional não apenas meus, como dos meus. Confiava tanto nela que os familiares perguntavam, nas ocorrências, se eu já tinha buscado a opinião da ‘minha médica’ sobre qualquer problema de saúde... ‘Minha médica’ era ela. Depois fomos morar em pontos distantes, embora ainda na mesma cidade e passamos a nos ver com menos frequência. Nem por isso nos distanciamos. Ela também teve momentos difíceis, e eu presente em praticamente todos eles. Nunca interpretamos essa mutualidade como qualquer tipo de retribuição: era compartilhamento, era afinidade, era mútua admiração. Era confiança. Era carinho, irmandade.

O tempo passou. A ‘menininha’ foi estudar em outra cidade, graduou-se e eu acompanhava através das informações maternas seu sucesso e crescimento profissionais. Quando nos encontrávamos ela sorria misteriosa porém abertamente, como a se recordar de alguma coisa que eu nunca soube o que seria. Recentemente anunciou seu casamento. A mãe contou-me planos, preparativos. Então, a surpresa. Nas suas lembranças duas francanas sempre estiveram em sua vida, de alguma forma contribuindo para seu equilíbrio. Uma, a diretora da escola onde estudou, a outra era eu, sua vizinha. E ela queria que estivéssemos presentes, bem perto dela, com ela, como madrinhas. Fiquei emocionada: gestos de gratidão não são mais frequentes e até me pareciam estar em desuso.

No sábado, finalmente, conheci Vargem. Não é longe, como pensava. Cidade tranquila, calma, de alpendres abertos e cadeiras na calçada. O casamento aconteceu em uma igreja moderna, ornamentada com pompa, ainda que com desafetação. Depois, num salão decorado com gosto apurado, a surpresa de um jantar feito por um competente buffet local. Tinha doces das tias doceiras. Lembrancinhas feitas com carinho extra. Noivo emocionado e noiva linda, vestida com a exuberância que só a simplicidade transmite. Madrinhas comovidas, uma delas chorona e a outra engasgada. Casamentos são ritos universais tão iguais, simultaneamente tão diferentes e, sem distinção, cerimônias tão importantes para os noivos, quanto para pais, convidados e padrinhos. Tendem a durar, quando começam assim, sob tão intensa emoção.

INCOERÊNCIA
Não há coerência nas exigências e pareceres das cerimônias religiosas católicas. As divergências acontecem não apenas no âmbito da cidade: elas mudam de igreja para igreja, cidade para cidade, Estado para Estado, país para país. E, pior: de noiva para noiva. Umas podem, outras não - escolher e usar modelos de vestidos; enfeitar a cerimônia com músicas; pedir a participação dos convidados; decorar o ambiente a seu gosto e posse; usar tapete na nave. Já tentaram me explicar o motivo das diferenças. Em vão.

INVEJA
Há um murmurinho de que Uberlândia (MG) será em breve, zona franca similar a Manaus, para comércio de importados! Ribeirão Preto vai sentir inveja mas nós, francanos, vamos desidratar de tanto chorar. Bem, não generalizemos: eu vou!

SHOPPING
O Shopping Noivos, Festas e Formaturas - 13ª edição em 2011 - está na pauta de tradicionais expositores e interessados. O evento - voltado para o público francano - atrai pessoas de toda a região. Quem visita grandes exposições do gênero - em São Paulo, Rio, Uberlândia e Ribeirão Preto - é só elogios para a forma elegante e eficiente com que nosso shopping é organizado.

BOMBEIROS
Pedi ajuda aos bombeiros. Nada grave, mas sozinha jamais solucionaria a emergência. Vieram prontamente. Agradeci e lhes disse do meu orgulho de cidadã por contar com tal proteção e da minha segurança, com a eficiência do trabalho que executam. Foi uma ocorrência leve e até pitoresca, mas eles atenderam com seriedade e circunspecção. Quando partiram, pensei na diferença do que sinto por eles e pelos políticos que escolhi os quais, dizem, são meus representantes.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br