“Todo homem é o arquiteto de seu próprio destino”
Salústio, escritor e senador Romano
O processo eleitoral está praticamente terminado no país. É claro que ainda falta decidir a quem caberá a honra de ocupar o cargo mais importante da nação, o que só será definido no dia 31 de outubro, data do segundo turno da eleição presidencial. Dilma Roussef (PT) ou José Serra (PSDB), um deles será ungido, pelo voto popular, o quadragésimo presidente do Brasil. Mas de resto, a disputa eleitoral é passado. Todos os senadores foram escolhidos, a Câmara dos Deputados sabe quem são seus 513 integrantes, as assembléias legislativas conheceram suas novas bancadas. Os governadores de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Rio Grande do Sul, estados mais ricos e com maior número de eleitores, foram definidos no primeiro turno.
O processo eleitoral foi limpo, as urnas eletrônicas funcionaram mais uma vez, a apuração foi rápida e precisa. O resultado traduz o desejo manifesto pelos eleitores, mas o saldo das urnas foi ruim para Franca e região, que saem da disputa menores do que entraram. Elegemos dois deputados estaduais, número que a cidade mantém há quase dez anos, e nenhum federal. Perdemos Marco Aurélio Ubiali (PSB), o único representante da região em Brasília. Para seu lugar, não houve votos suficientes para consagrar ninguém.
Não há nisso nenhuma novidade ou surpresa. Precisamente no dia 06 de junho, portanto há mais de quatro meses, publiquei, neste mesmo espaço, um artigo com o título “Pode Faltar Voto”. Ali, nas mil palavras que me são reservadas para opinar semanalmente, alertei que o cenário da disputa eleitoral em Francacaminhava para um desastre. Muita gente vendia ao eleitorado o contrário e estimulava a ilusão de que a cidade teria condições de eleger três deputados estaduais e dois federais. Pura balela.
Os artífices deste engodo eleitoral apoiavam seus argumentos em teses frágeis, quase infantis. Faziam contas imposíveis, projetavam números irreais. Sempre tive uma visão bem mais realista. “A análise atenta e criteriosa da lista dos deputados eleitos em 2006 e o cruzamento com os dados de suas bases eleitorais constata o óbvio que o delírio de alguns prefere ignorar. Três deputados é um bom resultado para Franca”, escrevi. “Sair todo mundo na disputa pelos votos é um direito dos candidatos. Só não sei se é o mais inteligente a fazer. (...) Difícil vai ser encontrar alguém para pagar a fatura se, por conta da divisão do eleitorado, a cidade perder representação política”.
Não tenho nenhuma vocação para profeta ou vidente. Apenas preservo alguma medida de raciocínio lógico, um pouco de noção de história e um mínimo de bom senso. Ninguém precisava de qualquer atibuto adicional para chegar à idêntica conclusão. Só boa-fé. Havia candidatos demais para votos de menos. Deu no que deu. Além dos políticos derrotados, perde a cidade, privada de ter alguém em Brasília para defender diretamente seus interesses. Poderia ser qualquer um, desde que tivesse raízes em Franca e compromisso com a sua população.
O problema é que em Franca sobram políticos dispostos a sacrificar conquistas da cidade em nome de seus projetos pessoais. Saem em disputas suicidas, sem chance de vitória, apenas para projetar o próprio nome para a eleição seguinte. No caso específico, a prefeitura municipal. Não são poucos os que querem mesmo é a cadeira de Sidnei Rocha. Como se fosse uma pré-festa, lançaram-se na disputa de uma vaga de deputado apenas para catapultar o próprio nome. Não é ilegal, mas é inegável que a multiplicidade de candidatos reduziu as chances da cidade. Na divisão de votos, acabamos sem eleger deputado federal.
É bom que se diga que a campanha um tanto esquizofrênica do médico Marco Aurélio Ubiali tampouco ajudou. Melhor de ação do que de discurso, o médico apostou sua reeleição na pulverização de sua candidatura, fez campanha em dezenas de cidades e deixou para marcar presença em Franca tarde demais. Sonhou com os votos das mais de 300 Apaes (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) espalhadas por todo o Estado que, em seus desvaneios, trabalhariam por seu nome. Errou feio.
Some-se a isso o desastre de sua declaração pós-vitória de 2006, quando disse que montaria um apartamento para a mulher e a filha em Ribeirão Preto, e têm-se a tragédia anunciada. Por mais que tenha tentado explicar depois, pegou mal. De nada adianta culpar a imprensa por ter divulgado sua trapalhada. Ele realmente montou um apartamento e sua mulher e filha de fato ficaram em Ribeirão por um tempo. Isso não significa dizer que ele não tenha lutado por Franca. Revela apenas amadorismo e falta de sensibilidade. O eleitorado, pelo que se viu, não gostou nem um pouco.
Agora, é lamentar. E, claro, arcar com as consequências. Tanto Ubiali quanto a delegada Graciela são suplentes. Em tese, se algum dos deputados eleitos pelo PSB for chamado para um cargo importante num ministério ou numa secretaria de Estado, o médico pode até retomar seu mandato em Brasília. Há uma chance, mas será sempre um suplente. Terá menos força e condições de defender Franca.
Quanto a Graciela, é irônico que a delegada dependa da validação da bandalheira para conquistar uma vaga em Brasilia. Se o STF (Spremo Tribunal Federal) decidir que candidatos condenados por improbidade administrativa podem assumir seus cargos e o Ficha Limpa valer só para as próximas eleições, ela entra. Se decidir o contrário e ratificar a decência já, Graciela fica na saudade.
Há ainda uma questão adicional cuja resposta deve gelar a espinha de seus assessores mais próximos: e se ela entrar? Porque se sobrar uma vaga em Brasília e ela assumir, haverá dois problemas. O primeiro, óbvio, de relacionamento. Graciela e o prefeito Sidnei Rocha se gostam tanto quanto Tom e Jerry. Um deputado, sem contrapartida do prefeito, pode muito pouco. O segundo é que, se virar deputada, Graciela sepulta as condições para se candidar a prefeita. A eventual renúncia a um mandato para lutar pela sucessão de Sidnei Rocha seria muito difícil de explicar. Por isso mesmo tenho comigo, intimamente, que neste instante a delegada e seus assessores nem torcem pela vaga em Brasília. Ser eleita seria um contratempo difícil de administrar.
Na terra das três colinas, a vida segue, com dois deputados estaduais e nenhum federal. Fortes na Assembléia, inexistentes no centro do poder. Em política, como na vida, colhemos o que plantamos. A depender da semeadura de 3 de outubro, é hora de reduzir enormemente as expectativas de apoio federal para Franca. Os tempos serão de verbas ainda mais escassas. E visibilidade nula.
CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br