Leituras e avaliações dos resultados eleitorais são divergentes e atendem, claramente, a interesses específicos. É por isso que vemos alguns articulistas, bufões, destilando raiva e tentando disfarçar fazendo avaliações antropológicas dos resultados e, outros, mais sérios, tentando compreender o que realmente acontece nos processos eleitorais.
Eu, na medida do meu possível autocontrole, tento analisar friamente o que, de fato, o cenário político demonstra. Afinal, não é por eu não gostar do PSDB que tenho que desclassificá-lo ou, mesmo, denegrir a imagem de seus militantes. Infelizmente (e não me digam que não é verdade) muitos, através de setores da imprensa, tentaram desqualificar o Presidente Lula demonstrando que os conservadores e intelectualmente míopes não aceitam no poder central qualquer outro que não os seus legítimos representantes. Sim, estou defendendo Lula e, não o PT. Esse, acho que fica, cada vez mais, igual aos demais partidos.
Portanto, a leitura que faço do atual processo eleitoral é a de que a grande mídia teve enorme influência na condução da campanha presidencial e, em boa parte, no seu resultado, pelo menos no tocante à votação da candidata Marina.
É notório que a mídia necessitava de uma ‘terceira via’ para não permitir que o processo eleitoral presidencial ficasse polarizado entre os dois grandes, Dilma e Serra (ou PT e PSDB). Isso seria extremamente desfavorável às necessidades dos grandes grupos midiáticos. Dessa forma, considerando os motivos pessoais que levaram Marina a deixar o governo Lula, foi fácil abrir espaço a ela e, assim, torná-la o franco atirador do projeto Serra/grande mídia. Observem que a Marina só aparecia comentando as denúncias de quebra de sigilo fiscal e de tráfico de influência na Casa Civil; obviamente duas denúncias exploradas de maneira a prejudicar a candidatura Dilma. Assim, Marina poderia se tornar (e tornou-se) uma ‘verde útil’. Colocaram na boca dela o discurso moralista mas ‘esqueceram’ de lhe dizer que o Serra é, de todos os candidatos, quem mais responde processos na justiça: 17 ao todo, três deles por improbidade administrativa.
Portanto, dizer que Marina foi a grande vencedora no primeiro turno é, no mínimo, ridículo. A grande vencedora foi a Dilma com 46,9 % dos votos válidos. Não foi nem Serra, que ficou em segundo lugar e, muito menos Marina que nem disputa o segundo turno. Chega de distorcer a lógica democrática do sistema eleitoral.
Dizer, também, que Lula é arrogante e saiu derrotado é, também, no mínimo cômico (quem pensa assim deve ter ‘Tiririca’ na cabeça). Ora, Dilma é candidata do Lula e o que ele deveria dizer sobre ela? Que iria perder? Não! Portanto, dizer que Dilma ganharia no primeiro turno é um ato político próprio de todos os adeptos da sua candidatura. Muitos simpatizantes de Alckmin disseram que ele ganharia no primeiro turno. Quase não ganhou. Se não tivesse ganho, poderíamos dizer que todos os seus eleitores e defensores são arrogantes? Não! Ainda comentarei muito sobre eleições no mês de outubro, mas, o que eu espero mesmo, nesse segundo turno, é que a mídia nacional possibilite o debate entre as duas propostas de governo e que, parte dela abandone a mesquinha atitude de simplesmente manifestar sua preferência partidária de forma tão ignóbil.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário