Cacareco era um hipopótamo, um imenso e simpático hipopótamo cujo domicílio eleitoral localizava-se no zoológico de São Paulo. Numa das eleições para a edilidade paulistana realizadas na década de 60 do século passado, recebeu uma verdadeira consagração popular. Seu nome foi grafado nas cédulas, pois, na época, não havia o recurso da urna eletrônica. Sem campanha na televisão, jornais, revistas, out-doors e panfletos, Cacareco foi o vereador mais votado da capital paulista. Não tomou posse, evidentemente. Era um bicho, um animal e, embora tivesse ficha limpa, era inalistável e inelegível. Porém, ficou famoso, famosíssimo. Ganhou até uma marchinha de carnaval que começava assim:
“Ca ca careco
Cacareco, Cacareco
É o maior... “
Em virtude do fenômeno Cacareco, a Justiça Eleitoral proibiu a divulgação dos protestos populares registrados nas cédulas de papel.
O voto eletrônico não possibilita as manifestações populares jocosas, irônicas, rebeldes, amargas. Em compensação, os partidos políticos incumbem-se de dar um toque de humor às eleições lançando o palhaço Tiririca, o pugilista Maguila e outros mais. E não ficam por aí. Sua irresponsabilidade vai além. Trazem para vida pública bichos muito mais perigosos: lobos com pele de cordeiro, velhas raposas, bagres ensaboados, hienas que riem do sofrimento do povo, gordas ratazanas nutridas nos porões da corrupção, cobras criadas nos subterrâneos dos palácios... Basta
Que tenham votos. O voto para o político é o mesmo que o lucro para o capitalista. Não importa de onde vem, de que submundo emerge. O voto é como o dinheiro: não precisa revestir-se de qualquer moralidade.
Se o prezado leitor tivesse a paciência de observar a propaganda política na televisão, perceberia com uma certa clareza ( pelo jeito de olhar, sorrir e falar ) as más intenções de alguns candidatos, verdadeiros mamíferos invertebrados à espera de uma teta do governo. Tiririca, pelo menos, foi autêntico. Mostrou a sua cara tal como ela é: cara de palhaço, cabelo de palhaço, chapeuzinho de palhaço, boca de palhaço, pinta de palhaço. Enfim, um palhaço em busca de um grande picadeiro.
Tiririca ganhou. Alastrou-se como erva daninha. Foi um fenômeno eleitoral. Agora, isto é, no próximo ano, na próxima legislatura, pelo menos os seus eleitores poderão gritar:
-Hoje tem espetáculo?
-Tem sim senhor!
-Hoje tem marmelada?
-Tem sim senhor!
- E o palhaço, quem é?
- É o Tiririca, Mané!
- É o Tiririca, Mané!
E assim, prezado leitor, continua “tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.