O crescimento da candidata Marina Silva na última semana da campanha presidencial foi absolutamente extraordinário e talvez sem precedentes. Se a campanha se estendesse por mais duas semanas possivelmente ela colheria resultado ainda mais expressivo.
Aqueles, como eu, que pregávamos a necessidade de um segundo turno, até para examinar com mais profundidade os programas de governo dos candidatos, devemos agradecer a ela a oportunidade. Os engessados debates eleitorais presididos por empolados e inflexíveis mediadores se tornaram maçantes e nada acrescentaram de luz ao voto do eleitor, especialmente do indeciso. Marina implodiu o plebiscito entre Dilma e Serra e saiu da eleição como uma nova força política com futuro bastante promissor.
Ela que durante toda a campanha eleitoral gravitou nas pesquisas entre 8% e 12% do eleitorado, conseguiu obter quase 20 milhões de votos, correspondente a mais de 19% dos votos válidos. O segundo turno, inquestionavelmente, deve-se a ela. Muitos, no entanto, indagam quais seriam as razões objetivas desse crescimento?
Primeiramente há que se registrar que ela ostenta uma carreira política absolutamente limpa. Foi senadora e Ministra do Meio Ambiente do governo Lula e contra ela não pesa nada que possa desaboná-la.
Em segundo lugar, candidatou-se por um partido cuja ideologia – a defesa do meio ambiente e do progresso sustentado –, não desagrada ninguém. Alguns podem até questionar os meios adotados pelo PV para atingir seus objetivos, nunca, porém, os objetivos em si.
Por outro lado Marina tem uma história de vida que coincide com a de muitos outros brasileiros. Nasceu pobre em um Estado pobre. Alfabetizou-se já com idade avançada e fez das dificuldades da vida uma bandeira de luta.
Se bem analisarmos, a trajetória de vida dela tem muitos pontos de contato com a do Presidente Lula. Ademais, foi inquestionavelmente a candidata com o melhor desempenho nos debates, muito embora alguns a critiquem por dizer sempre o que deve ser feito, sem, contudo, dizer como.
Inegável, porém, que muitos votaram em Marina por absoluto desencanto com as candidaturas de Dilma e Serra. Dilma por não ter uma história política que permita uma avaliação segura e precisa do que pode fazer. Serra, porque manteve uma campanha desprovida de qualquer emoção. Passou a impressão de que ele estava cumprindo, a contragosto, uma missão imposta pelo partido.
Enfim, a Marina, a ‘Marina Morena’ como dizem versos do grande Dorival Caymmi, surpreendeu a nação e roubou a cena. Eleição, rotineiramente, traz surpresas.
Sem dúvida, na política, mais do que em todos os setores da atividade humana, a assertiva de Goethe de que ‘Só sabemos com exatidão quando sabemos pouco. À medida que vamos adquirindo conhecimento, instala-se a dúvida’, revela-se de verdade incontestável.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca