No livro Ética e Direito, Chaïm Perelman afirma que ‘O papel dos filósofos é salientar o caráter confuso e incerto de todas as nossas opiniões e idéias que não podem ser reduzidas a grandezas quantificáveis. Os desacordos entre os homens resultam de que, em vez de serem guiados pelas idéias claras e distintas de sua razão, faculdade comum a todos os homens, fraco reflexo da razão divina, eles se deixam levar por suas paixões e seus interesses, por seus preconceitos e por sua imaginação’.
Ousando discordar do renomado filósofo, nem tudo o que pode ser reduzido a ‘grandezas quantificáveis’ é claro e certo. Isso depende do sistema numérico que se vai utilizar. Nem sempre um mais um é igual a dois. Em determinado sistema numérico, um mais um é zero. Ainda que todas as nossas opiniões e idéias fossem quantificáveis, ainda assim, poderiam ser incertas.
O ser humano padece de um mal moral que impede o perfeito entendimento da realidade. O que normalmente acontece é as pessoas se refugiarem num mundo irreal por medo de enfrentar a verdade. Contar mentiras para si mesmo é uma das muitas faces das neuroses humanas.
Isso salta aos olhos. A todo o momento acontece. O grande problema é que muitas vezes a mentira é tão bem contada para si mesmo que todos acreditam nela. A pessoa se convence e convence aos outros a se embrenhar na ‘escalada da mendacidade cínica’.
Para suportar a verdade é necessário ser virtuoso, diz Padre Paulo Ricardo. A verdade dói. É melhor sustentar um ‘conhecimento fantasmático’, imaginário, do mundo e das coisas, das pessoas e suas relações.
Para satisfazer seus interesses, os seres humanos criam realidades, tornam-se demiurgos, acreditam-se superiores, se autodenominam ‘o impávido colosso’, a fonte salvífica para toda a humanidade.
Coisa estranha essa. Por exemplo, se uma pessoa que percebe um salário mensal no valor de um R$ 1,5 mil, demoraria mais de dois mil e seiscentos anos para comprar uma fazenda no interior de São Paulo, no valor de R$ 47 milhões. Também delongariam outros tantos milhares de anos para comprar fazendas no Pará, no valor de R$ 100 milhões. Se essa pessoa não é o Ronaldo “Fenômeno”, nada feito. Aliás, mesmo se fosse, demandaria uns quinze ou vinte anos jogando futebol maravilhosamente, encantando o mundo e ganhando milhões em patrocínios e marketing.
Está escrito: ‘não acrediteis em todos os espíritos’. O problema é que estamos acreditando em tudo. A nossa fé chega ao extremo de acreditarmos que Deus é brasileiro e que a Virgem Maria usa vestido vermelho. Acreditamos que o ‘Brasil é o país do futuro’, só que quem escreveu isto, Stefan Zweig, estourou os miolos com um tiro. Isso mesmo. O sujeito que escreveu que o Brasil é o país do futuro se matou. Será por vislumbrar que esse ‘futuro’ é autoadiável? Que nunca chegou e nunca chegará? Não chegará até que os brasileiros deixem de acreditar em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, ou mesmo que comunista crê na palavra de Deus e a respeita, além de respeitar a liberdade e o direito de propriedade.
Enquanto isso vão comendo a papa pelas beiradas e nos obrigando a comer no mesmo cocho que eles. Vão minando a cada dia mais a resistência moral das pessoas e inoculando o veneno mortal de suas ideologias ultrapassadas com sabor de suco de uva.
Nadir Ap. Cabral Bernardino
Professora