09 de julho de 2026

A eleição do palhaço


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Toda eleição tem sua história. A de 2010 tem, como ingrediente exótico, a eleição do palhaço Tiririca para a Câmara dos Deputados, com quase 1,4 milhão de votos, mais que o dobro da votação obtida pelo segundo colocado.

É preciso tentar entender que mensagem o eleitor pretendeu transmitir. Tiririca fez uma espécie de anti-campanha, recorrendo a elementos da cultura circense, classificando-se como “abestado” e chegando a dizer que não sabe o que faz um deputado. Usou, inclusive, o bordão “pior não fica”. Suplantou a todos e deixou do lado de fora pesos-pesados da política paulista. Seria ele a reedição do “cacareco”, o simpático rinoceronte no qual, nos anos 50, o povo carioca descarregou seus votos de protesto?

Independente da campanha fora do convencional, a sociedade e principalmente a elite política têm de entender que Tiririca, a partir de agora, é deputado federal e carrega consigo a representatividade de expressiva votação. Como sobrevivente que é conseguiu fazer sucesso no circo e na tv espera-se que construa um bom mandato.

A classe política vem, há tempos, amargando silenciosa censura do povo-patrão. A eleição do próprio Lula, primeiro a deputado e depois a presidente da República, representou ruptura aos conceitos tradicionais de se fazer política neste País. Hoje, Lula é um dos governantes mais bem avaliados da história brasileira. Veio Clodovil e, agora, Tiririca, personagens fora do convencional, mas bafejados pelo povo.

Com a avalanche de votos que o levam a Brasília, Tiririca se tornará referência política. Seu mandato, sem qualquer dúvida, será um grande desafio.

Ele terá de cumprir obrigações parlamentares, políticas, partidárias e protocolares, mas não poderá deixar de ser o palhaço em quem o povo votou. Se abandonar a indumentária correrá o risco de transformar-se em fiasco.

Espera-se que, para o seu bem e o da própria sociedade, tenha ele condições de desempenhar um bom trabalho e,até, interpretar para as elites políticas o pensamento do povo que o elegeu. Se conseguir, mais uma vez o sucesso lhe será garantido.

No gesto simbólico de eleger o palhaço, o povo pode estar emitindo muitas mensagens que precisam ser corretamente entendidas e, principalmente, colocadas em prática. É importante entender o recado enquanto, ainda, é transmitido de forma pacífica. Cientistas, caciques, elites, estejam atentos...

Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo