O resultado da votação para presidente da República foi derrota política para Lula. Sua arrogância dava como certa a vitória de Dilma Rousseff (PT). Os apoiadores da candidata afirmavam sem nenhum pejo que a carreira política do ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB) se encerraria nessa contenda eleitoral. A senadora Marina Silva (PV) era desqualificada como carta fora do baralho: ‘uma candidata que não se sabe para o que veio’, diziam. Descobriram!
A conquista do segundo turno representa vitória contra esse tipo de arrogância e um alerta: a maioria dos eleitores brasileiros votou contra a candidata inventada pelo ‘dedaço’ do presidente Lula. Juntos, os votos de Serra e Marina formam uma maioria que pode se reproduzir no segundo turno e tendência que não pode ser desprezada se examinada com isenção.
Marina Silva perdeu mas seus quase 20 milhões de votos garantiram a realização do segundo turno. Tornou-se vitoriosa em termos políticos. Depois de sair do governo Lula e se candidatar à presidência, Marina Silva definiu uma estratégia: discutir os problemas do País e superar o engessamento que Lula queria nessas eleições ao buscar opor os governos do PSDB e do PT dos últimos 16 anos. Lula imaginava que iria fazer Dilma vitoriosa através de um plebiscito: o ‘nós’ (os bons) contra ‘eles’ (os maus), ludibriando a população com números sem substância qualitativa ou isentos de qualquer interpretação e debate. Um equívoco que Marina soube explorar e que o eleitorado corroborou, respondendo com expressiva votação. É uma velha lição política aquela que diz que não se ganha eleição na véspera. Os petistas avaliaram que a eleição iria ser um ‘passeio’. O excesso de confiança de Lula, ao atacar uma imprensa que sempre cumpriu seu papel no tocante às denúncias de corrupção, a gangrena da nossa democracia, levou Lula a perder o senso de medida e também os votos que poderiam garantir a vitória de sua candidata. A cidadania democrática se insurgiu contra as inclinações de autoritarismo do presidente.
Discutir o País é o ponto de partida e o ponto de chegada de qualquer política que busca elevar a qualidade da nossa recente democracia. Foi isso que Lula quis evitar criando a imagem de País pronto e acabado, à sua imagem e semelhança, inebriado pelo consumo e pelo marketing governamental. A cidadania lhe deu uma lição preciosa: disse que quer um segundo turno para discutir concretamente aquilo que se refere diretamente às obrigações do governo federal, especialmente as que envolvem a infra-estrutura, a saúde, a segurança e a educação, essenciais para a conquista, avanço e manutenção do desenvolvimento e do bem-estar dos brasileiros. A cidadania quer o debate que não houve, sem a prerrogativa de que sua candidata seja a melhor simplesmente porque é ‘amiga do presidente’ e tem ‘orgulho disso’ ou porque ela está ‘destinada’ a ser a ‘mãe dos brasileiros’. Lula precisa entender que é o Estado patrimonialista - aquele que as elites costumam entender como coisa sua - que a democracia brasileira está deixando para trás.
A eleição revelou que da parte da oposição (Serra e Marina) existe a disposição para aprofundar temas que importam para a construção de um Brasil novo e voltado para o futuro.
O arco que passa pela proposta de um ‘desenvolvimento exigente’ tem tudo para se articular com a idéia generosa da sustentabilidade e indicar as bases de uma economia forte, projetada para uma longa perspectiva, sem esquecer os desafios imediatos do presente marcados pela nossa gritante iniquidade. É a política que pode e deve construir o futuro. Com suas vitórias, vai deixando a arrogância para trás.
Alberto Aggio
Professor da UNESP-Franca