16 de março de 2026

Cheque em branco


| Tempo de leitura: 5 min
Em democracias mais sólidas, candidato nunca foge de debate ou sabatina. É comportamento covarde, malvisto pelo eleitor.

“Ninguém é suficientemente competente para
governar outra pessoa sem o seu consentimento”
Abraham Lincoln,
ex-presidente americano

Pronto. Depois de meses de articulações, conversas de bastidores, algumas traições, festas nas conveções partidárias, afagos em aliados e muitos coices nos adversários, dezenas de programas no horário gratuito no rádio e TV, entrevistas, sabatinas, carreatas e caminhadas, a fase de campanha eleitoral está terminada. Agora é hora de votar. Hoje, 130 milhões de brasileiros são esperados em milhares de seções eleitorais espalhadas por todo o país para decidir quem será o escolhido para presidir o Brasil, governar os Estados e representar a população no Senado da República, na Câmara dos Deputados e nas Assembléias Legilslativas. É um momento fundamental na história de qualquer nação. O resultado das urnas define rumos, muda caminhos, fixa parâmetros. Acima de tudo, altera o presente e norteia o que será a vida das futuras gerações. Impacta a nossa vida e a de nossos filhos. É uma responsabilidade e tanto que cada eleitor tem em suas mãos.

No Brasil, infelizmente, o processo político e democrático segue menos forte do que seria desejável. É bom que se diga, muito mais por culpa de nós mesmos, eleitores, do que daqueles que escolhemos para nos representar. Continuamos escolhendo nossos governantes por critérios subjetivos, muitas vezes quase pueris. O brasileiro ainda vota em quem simpatiza, num nome conhecido ou até em quem faz piada de tudo. Depois, frustrado, se desilude e passa a reclamar. Na disputa seguinte, repete muitas vezes comportamento idêntico, como se esperasse dos céus a salvação para os rumos da nação. Não é assim que se constroí um país moderno, plural, justo e democrático.

A disputa presidencial é emblemática. Sete homens e duas mulheres sonham sentar-se no terceiro andar do Palácio do Planalto, onde fica o gabinete do presidente da República, e governar os destinos da nação. Destas nove pessoas, três chegam à reta final com alguma chance de vitória. Dilma Rousseff, do PT; José Serra, do PSDB, e Marina Silva, do Partido Verde.

Pode parecer absurdo mas nenhum dos três apresentou um programa de governo formal, com propostas claras e objetivas para o que pretendem fazer caso sejam eleitos. Quem chegou mais perto foi Marina Silva, do PV, que tem um arremedo de plano, batizado de “Diretrizes de Governo”. É um conjunto superficial de propostas, mas, ao menos, é um começo, um ponto de partida que serve de documento para cobrança futura do eleitor que nela depositar seu voto. É pouco mas, sem dúvida nenhuma, muito mais respeitoso do que o tratamento dado por Serra e Dilma ao eleitorado brasileiro.

Na prática, Dilma e Serra, protagonistas de um segundo turno incerto, pedem um cheque em branco dos eleitores, como se as suas trajetórias de vida e juras de amor aos brasileiros fossem mais que suficientes para convertê-los em bons governantes. Se as projeções se confirmarem, pelo menos 105 milhões de eleitores, a soma dos que pretendem votar em Dilma e Serra, vão se conformar com isso e depositar o voto num candidato que não apresentou projeto nem plano de governo.

A explicação para o comportamento dos dois candidatos é melancólica: medo. Como temiam desde o início da campanha perder votos de segmentos específicos, preferiram não se comprometer com coisa alguma. Assim, fogem de dar explicação aos eleitores sobre a posição que têm em relação ao aborto, à união civil de pessoas do mesmo sexo, à invasão de terras, à taxa de juros, ao tamanho do Estado, ao combate à corrupção dentro do governo. Com isso, evitam se indispor com igrejas, famílias conservadoras, movimentos sociais e a bancada ruralista, os banqueiros, os servidores públicos e os fisiologistas que sonham com um cargo comissionado para tirar proveito do Estado.

Pode até funcionar para acumular votos, mas é péssimo para o conjunto dos brasileiros, que fica sem saber que rumos o país vai tomar, nem tem como cobrar dos líderes eleitos pelo voto que se atenham ao que prometeram fazer durante a campanha. Sem projeto ou proposta formal, não há documento que possa ser lembrado ou resgatado no futuro para pressionar sua Excelência a se manter na linha. Como os debates foram modorrentos e nada acrescentaram, pouco resta a fazer. Quem ganhar não tem compromisso algum com coisa nenhuma. Sobram boas intenções, faltam metas e propostas claras.

Sorte dos paulistas que na disputa do governo do Estado a situação é um pouco melhor. A maioria dos candidatos - inclusive os dois que lideram a disputa, Geraldo Alckmin (PSDB) e Aloizio Mercadante (PT) - tem plano de governo formal e compromissos públicos assumidos diante do eleitorado. No caso da população de Franca e região, tais compromissos foram reiterados nas históricas sabatinas que promovemos. Independente do eleito, o fato é que o futuro governador de São Paulo veio a Franca para participar das sabatinas que promovemos e, de maneira direta, se dirigiu à população sobre seus projetos, propostas e visão de mundo.

No caso dos candidatos da região a uma vaga de deputado federal ou estadual, a maioria se expôs corajosamente. Todos, com exceção de três nomes, participaram das sabatinas. A população sabe o que a grande maioria deles pensa, o que pretende fazer e como quer conduzir seus mandatos. Por decisão pessoal, a delegada Graciela (PP) e Tirso Meirelles (PSDB), candidatos a federal, e Roberto Engler (PSDB), que tenta a reeleição para estadual, faltaram à sabatina e privaram o eleitor de saber o que pensam. Não há nada que os impeça de agir assim, mas é ruim. Caso eleitos, o poder que a população tem de cobrar coerência fica reduzido.

Em democracias mais sólidas, candidato nunca foge de entrevista, sabatina ou debate. É comportamento covarde, malvisto pelo eleitor. Tampouco se imagina que alguém, numa destas nações, seja eleito para um cargo executivo importante, como presidente ou governador, sem uma plataforma consistente, sem explicar o que - e porque - pretende agir de determinado modo. No Brasil, ainda estamos longe deste cenário. Mas é votando com consciência, analisando propostas e fugindo das simpatias gratuitas que ajudaremos, cada um de nós, a construir um país melhor. Hoje é dia de dar mais um passo. Uma votação consciente é sempre uma tentativa de impulsionar o país no rumo certo. Vamos votar - e, dentro do possível, depurar. Não há outro remédio possível.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br