Cantos e desencantos (Franca SP 2010) somam apenas isto ou, em essência, encantam mais do que isto no espírito do leitor? É que o livro, todo ele, em prosa poética ou em poesia navegante em prosa, se é uno pelas emanações emocionais que permaneceram em fogo lento ao correr da vida do autor, é, igualmente, multifacetado e espiralante, que vêem a ser fugas latejantes, palpáveis e fugidias, súmulas de uma vida aparentemente sem tropeços maiores. Marcaram fundo na sensibilidade do autor que, em pulsações elípticas, transferiu-as aos leitores.
A literatura de Luiz Cruz de Oliveira, desde os aplausos no começo da carreira, é marcadamente personalíssima, sem busca de originalidades que mais artificializam do que contribuem. Tudo nela, à primeira vista, é simplesmente despretensioso. Em seus textos as palavras mudas, que parecem não tomar relevo, guardam e resguardam a pulsação permanente de um espírito artístico, crítico, humano e filosófico diante do que viu e vê, do que o cercou e o cerca ao correr da vida. Nunca caminha para ilações fortes. Ao revez, a leveza e os meios tons é que trazem, na arte escrita do autor, surpresas outras, que calam muito mais na alma e no coração de quem o lê.
Temos o que, então, neste surpreendente livro? Perplexidades continuadas, espelhos e contra-espelhos que se somaram ao correr dos anos idos, latências incontornáveis do cosmo interior de todo um palmilhar de vida simples mas bem vivida. O autor faz voleios, desde o início na querida Cássia, peregrina como quer na sua arte escrita, tal como ele diz a certa altura: “Aqui, passo a passo, venho compondo e cantando a minha estrada”. Ora, poeta, dizemos nós, a vida é feita de ausências ilocalizáveis e de perseverança em persegui-las. Você, Luiz Cruz de Oliveira, arrasta consigo o leitor nessa peregrinação de vôos aos tempos idos, em sensíveis encantos e desencantos subjacentes.
Reminiscências, vislumbres a um tempo líricos e impressionistas do passado, encontros e desencontros da própria vida. A sombra e persistência da ausência de si mesmo, que é a interrogação maior de qualquer um a vida inteira.
Perpassa, ao correr do livro, uma aura poética continuada. A certeza da chegada da ausência não é uma afirmação pessimista. Vem a ser, ao revez, a luta contra a morte, esse mistério, tão presente, que atormentou o escritor Lúcio Cardoso ao correr de toda a sua obra feita de surpresas raras.
Que diabo de livro você escreveu, Luiz Cruz de Oliveira? Qualquer elogio mais formal levaria à redundância. Bem melhor dirigir-me ao filho de Cássia valendo-me da linguagem do homem comum da terra:
- Eita, livro bom da peste!
Sem mais delongas: arte literária, das melhores, é isto.
E ponto final!