10 de julho de 2026

Mercadante: ‘Eu quero ser o governador da Educação em SP’


| Tempo de leitura: 31 min
FIRME E DIRETO - Durante mais de uma hora, o candidato ao governo do Estado pelo PT, Aloizio Mercadante, defendeu suas propostas no GCN Comunicação

*Clique aqui para assistir à sabatina

O candidato do PT ao governo do Estado, Aloizio Mercadante, foi sabatinado pelo GCN Comunicação na última quarta-feira, 22 de setembro. O petista deixou claro que a sua maior prioridade no governo será a educação e prometeu acabar com a progressão continuada. O candidato não poupou críticas ao valor das tarifas dos pedágios e afirma que vai propor às concessionárias a prorrogação dos contratos em troca da redução do valor cobrado.

Mercadante ressaltou, constantemente, os feitos do governo Lula e criticou duramente as políticas de educação, segurança pública e saúde do PSDB no Estado de São Paulo. O petista quer integrar o sistema de inteligência das polícias do Estado e trazer programas federais para São Paulo.


PRIMEIRO BLOCO

GCN Comunicação - Por que o senhor quer ser governador do Estado de São Paulo?
Aloizio Mercadante - Depois da experiência de oito anos como líder do governo Lula e agora líder do bloco de apoio ao governo, nós acumulamos uma experiência muito rica. O Brasil, que demorou tanto tempo para acreditar que o Lula seria um bom presidente da República, hoje aplaude e sabe que acertou. O Brasil tem estabilidade econômica. É um dos países que mais cresce na economia mundial. O Brasil distribui renda, tirou 28 milhões de pessoas da pobreza. Essa experiência de governo que deu certo queremos trazer para São Paulo. Tenho convicção de que nós poderemos governar o Estado mantendo o que está bem feito, mas trazendo o que há de melhor no governo Lula e que não foi possível trazer devido à disputa entre PSDB e PT ao longo desses oito anos. Eu acredito nesse Estado. Se fosse um país, seria a segunda maior economia da América do Sul, maior do que a Argentina, três vezes o Chile. São Paulo pode dar respostas muito maiores. É com essa experiência que eu quero ser governador de São Paulo depois de ter sido o senador mais votado da história do Brasil.

GCN - O senhor citou diversas vezes a sua experiência no legislativo, mas o senhor nunca exerceu nenhum cargo executivo. Seus críticos costumam dizer que o senhor não tem conhecimento administrativo para gerir um Estado como São Paulo. O que o senhor pensa a respeito?
Mercadante - Essa era a mesma crítica que era feita em relação ao Lula. Que o Lula não tinha experiência administrativa, que não tinha curso superior, no entanto, ele é o melhor presidente que o Brasil já teve. Eu me formei na USP. Sou professor da Unicamp e da PUC. Fiz meus cursos de pós-graduação, fui chefe do departamento de economia e, nesses 37 anos de vida pública, fiz uma opção na minha vida. Quando muita gente estava preocupada em trabalhar no mercado, eu achava que não dava para conviver com a ditadura. A minha geração lutou pela redemocratização do país. Na Câmara dos Deputados, fui presidente da comissão de economia, líder da oposição. Fui líder do governo e, como líder, você trata em todas as questões de todas as áreas todos os dias. Essa experiência política é muito rica. Tenho estado ao lado do presidente Lula há mais de 30 anos. Aprendi muito. Tenho certeza de que essa experiência política e acadêmica me gabaritam para assumir o Estado.

GCN - Em todas as entrevistas concedidas, o senhor tem dito que está muito confiante em uma vitória. Mas estamos a 11 dias da votação e as pesquisas de intenção de votos continuam mostrando o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, na frente. O senhor acredita que há tempo hábil e possibilidade de reversão deste quadro?
Mercadante - Na minha eleição para o Senado, eu tive 10,5 milhões de votos. Fui o senador mais votado da história do Brasil. E se fosse (guiado) pelas pesquisas, nunca seria senador. (As pesquisas) Sempre me colocaram lá atrás e disseram que houve uma mudança na última hora. Não acho que foi na última hora. Eu sentia na rua um crescimento e, quando chegou na reta final, tivemos aquela votação espetacular. Hoje, sinto na rua um clima melhor que 2002. Na eleição do governo Lula, havia a esperança, mas havia também o medo de um governo de esquerda. Hoje, as pessoas não têm mais medo. Eu venho crescendo em todas as pesquisas. Ele (Geraldo Alckmin) vem caindo. Este processo está se acelerando. E ele sabe disso. Tanto que todo dia ele me ataca na publicidade dele. Por que ele me ataca se acha que pode ganhar no primeiro turno? E por que quando ele vai no debate não tem coragem de sustentar as críticas que faz a mim? Eu cobrei isso no programa, cobrei no debate e vou continuar cobrando. E quero marcar aqui (na sede do GCN) um debate no segundo turno. Pode marcar. Por mim, já está aceito.

GCN - O caminho para sua vitória passa, necessariamente, pelo segundo turno. O senhor acha que o apoio do presidente Lula será fundamental contra Geraldo Alckmin?
Mercadante - Eu acho. Não tenho como disssociar a minha vida da do presidente Lula. Coordenei praticamente todas as campanhas dele. Fui candidato a vice-presidente com ele. Fui líder do governo. Portanto, sempre estive nas horas difíceis e nos bons momentos com o presidente Lula e ele é cabo eleitoral da minha campanha.


SEGUNDO BLOCO

GCN - A segurança pública é uma preocupação latente no Estado de São Paulo e alvo de severas críticas por parte do senhor, que tem afirmado que pretende, inclusive, criar um Gabinete de Crises, que estará diretamente ligado ao Gabinete do Governador. O que, de efetivo, o senhor pretende fazer para resolver os problemas do setor?
Mercadante - Esse é um tema que preocupa muito a população de São Paulo. O PSDB disse que houve uma queda no índice de homicídios, mas é absolutamente insuficiente. Mas roubo, assalto, furto, tráfico de drogas são uma preocupação cotidiana da população. É só a gente abrir o Comércio da Franca hoje e a gente vê o tráfico e a violência em toda a parte. Não tem uma cidade que a gente ande que não tenha uma cracolândia se instalando. Nós temos que reagir. O que falta na segurança? Primeiro, falta tratar com dignidade a polícia de São Paulo. Não é possível o governador assistir o confronto da Polícia Civil com a Polícia Militar, como aconteceu em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Tem que pagar direito a polícia. Tem que valorizar, formar melhor. Nós fizemos o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), um programa nacional. 11 estados do Brasil já se conveniaram e o governo federal aumenta o repasse de recursos para salários dos policiais. Por que São Paulo não aderiu? Porque, em muitas coisas, a atual administração do Estado não quer trabalhar em parceria com o governo federal. Nós temos que aumentar o policiamento ostensivo e melhorar o policiamento comunitário. Vamos colocar uma rádio-patrulha em um raio de 2 a 3 quilômetros, dentro das bases comunitárias. Nessas rádio-patrulhas, vamos pegar os 12 policiais que vão trabalhar lá e distribuir a fotografia, o número e o nome da cada um para os cidadãos. A população vai saber quem é o policial que está trabalhando ali. Precisou? Chama aquela rádio patrulha que você conhece. A população já conhece, ele conhece a população. O tratamento vai ser muito mais humanitário. A polícia vai ter muito mais informação e nós vamos melhorar a segurança pública. Segundo, eu vou acelerar a implantação da videoconferência. Vou implantar o monitoramento eletrônico. São Paulo está muito atrasado. Fui o primeiro a apresentar essa lei, sou co-autor dessa lei. E o que ela pretende? Quando você tem um preso que vai ter, por exemplo, uma saída temporária, como aconteceu no dia dos pais, ele vai sair monitorado. No governo do Geraldo Alckmin, nós tivemos a maior rebelião dos presídios do Estado de São Paulo. Tivemos ataque do PCC. Eu vou acabar com os celulares nos presídios, vou colocar os aparelhos de interceptação.

GCN - O policial da unidade pacificadora pode ser comparado ao de alguns modelos que existem nos Estados Unidos, onde o policial vai com a viatura para casa, inclusive, e pode usá-la. A ideia é aumentar a sensação de segurança, porque você tem o policial permanentemente naquela região em que ele trabalha. Mas isso funciona em um país onde não há milícias ou facções capazes de incendiar ônibus, atacar e matar. O senhor acha que isso funcionaria no Brasil? O policial não ficaria muito mais exposto?
Mercadante - São duas coisas diferentes. Nas áreas críticas, precisamos de bases comunitárias. A pior coisa que tem é a polícia e o estado recuarem diante dessas situações e permitir que o tráfico e o crime tome conta de uma parte da cidade. Se a polícia sabe que tem uma área em que o crime está se organizando, ela tem que enfrentar. No Rio de Janeiro, a gente não conseguia trabalhar no governo anterior nem com o prefeito anterior. Parecia São Paulo. Agora, estamos trabalhando junto com o governador e a prefeitura, partindo para cima do crime organizado nos morros. E é isso que tem que ser feito. Entra não só com policiamento. Entra com programas educacionais, centros de esporte, estímulo à cultura.

GCN - O senhor propõe, no seu plano de governo, criar uma espécie de subsecretaria de segurança pública em cada região do Estado, na qual o comando das Polícias Civil e Militar seria unificado. Como funcionaria isso?
Mercadante - A Polícia Militar tem uma função que é o policiamento ostensivo. A Polícia Civil tem uma outra função. Ela é uma polícia judiciária, uma polícia de investigação. Uma previne o crime. A outra tenta resolvê-lo quando ele já ocorreu. O problema é que hoje só 5% dos crimes estão sendo solucionados em São Paulo. Nós precisamos melhorar o policiamento ostensivo e, ao mesmo tempo, melhorar a inteligência policial. Integrar o sistema de inteligência da Polícia Civil, Militar e Federal e da Polícia Penitenciária. E é a inteligência que reverte esse quadro. Com essa integração, vamos poder coordenar melhor o esforço da Polícia. E outra coisa, vamos colocar os crimes que estão acontecendo já espacializados na internet. Vai acabar esse negócio de segredo do que está acontecendo. A população vai saber onde está ocorrendo roubo de carga, onde está ocorrendo sequestro e vai cobrar da polícia mais atenção.

GCN - Nessa exibição geoespacial do crime, o grande problema não é o número de crimes, mas como o Estado os classifica. Por exemplo, se o sujeito toma uma facada e morre cinco horas depois, ele tecnicamente não foi vítima de assassinato, mas de lesão corporal seguida de morte. Muitas vezes, somos (jornal e rádio) processados quando tratamos esses casos como homicídio. Essa questão não é ainda mais importante? Um sujeito que recebe uma facada e morre foi assassinado, não foi vítima de uma lesão corporal.
Mercadante - É muito importante o que você falou. Há uma subnotificação do crime em São Paulo. É típico do PSDB. Melhorar a estatística, disfarçar os problemas para dizer que as coisas estão melhorando. E não é verdade. Há uma subnotificação principalmente pela dificuldade do cidadão em notificar os crimes. Muitas vezes você vai a uma delegacia e eles dizem que o sistema caiu e, principalmente, falta escrivão. Se você for em São Mateus, na Zona Leste, são 400 mil pessoas. Sabe quantos escrivães tem para fazer ocorrência? Um! Não é nem mais o escrivão. É o escravão! Não é possível um sujeito só atender a demanda de 400 mil pessoas. Com isso, eles mascaram as estatísticas e parece que melhorou o que não melhorou. Eu vejo o programa do meu adversário. Parece a Disneylândia. É um negócio fantástico. A segurança está bem, a educação está boa. Agora você pergunta para ele: ‘Você pôs o seu filho na escola pública?’. Não pôs. Vai por o neto? Não vai. Então não está boa. Como eu vou dizer que a educação está boa se eu não sou capaz de colocar meus filhos e meus netos na escola pública.


TERCEIRO BLOCO

GCN - A progressão continuada, instaurada nas escolas públicas do Estado de São Paulo, é um dos temas principais destas eleições. Como o senhor avalia este sistema?
Mercadante - Considero a educação o maior desafio de São Paulo. E o que está acontecendo na nossa sociedade? O ensino particular tem qualidade. Quem pode pagar uma escola tem segurança de que o filho vai aprender e vai ter uma boa perspectiva no mercado de trabalho e na vida. Quem está condenado a colocar o filho na escola pública estadual, e são 5 milhões de jovens, todo dia reclama. Vejo pais reclamando: ‘Mercadante, não é possível, meu filho está na quarta, na quinta, na sexta, oitava série e não sabe ler e escrever’. Não sabe ler e escrever! Como a gente pode ter uma escola que não ensina o jovem a ler e escrever?! E ele vai passando, passando. As estatísticas melhoram, mas a vida vai reprovar. Ele vai ser reprovado quando sair da escola nestas condições. A progressão continuada é um conceito generoso. A ideia de você ter um ciclo integrado no processo de formação é boa. Mas o que nós temos em São Paulo hoje é a aprovação automática. O aluno passa e pronto. O professor não tem autoridade. O aluno não aprende. Hoje, falta mão de obra qualificada em vários setores da economia. Por isso, tem que formar bem para esses jovens terem oportunidade. E como a gente faz isso? Primeiro, pagando bem os professores. Não é possível ficar cinco anos sem reajuste, como ficou a categoria em São Paulo. Segundo, fazendo concurso. Se você olhar para trás, o secretário de Educação já era secretário de Educação em 1983. Nós estamos em 2010. São 27 anos e metade da categoria dos professores não tem nem concurso. Ou seja, não tem carreira, não tem estabilidade, não pode escolher a escola que vai dar aula. Não tem integração. Eu passei minha vida inteira em uma sala dando aula. Se tem uma coisa que eu conheço, é educação. Eu quero ser o governador da educação e quero ser avaliado pela educação. Se eu for capaz de melhorar a educação, eu tenho que ser aprovado no futuro. Se eu não for capaz ou quem não foi capaz, tem que ser reprovado na eleição. E por último, eu vou informatizar as escolas de São Paulo. Como um professor, no século 21, dá aula sem ter direito à internet? Essa juventude tem que estar dentro da internet, tem que ter endereço eletrônico, tem que saber aprender nessa ferramenta. Todas as profissões de hoje exigem esse conhecimento. Então, o professor vai ter um laptop dado pelo governo, pelo Estado. Ele vai ter um portal do professor com todas as aulas que ele tem que dar, todas as orientações pedagógicas, todos os acompanhamentos.

GCN - As suas propostas para educação parecem bastante claras, mas a gente não pode esquecer que a gênese na progressão continuada é o pensamento do educador Paulo Freire e a implantação veio no governo Luiza Erundina, à época do PT. Foi um erro?
Mercadante - Se você quiser fazer um processo de avaliação por ciclo, você pode até fazer. Você pode integrar o currículo e avaliar o conjunto do ciclo. Só que o que nós temos em São Paulo não é isso. Não tem avaliação nenhuma. Quando o Alckmin terminou o seu governo em 2006, o exame do Saresp, do próprio Estado, mostrou que 30% dos alunos da 1ª série do ensino fundamental não sabiam ler e escrever. Ora, se ele saiu da primeira série sem saber ler e escrever, o que ele vai aprender para frente. Que progressão continuada é essa? Na realidade é uma regressão continuada. Temos que mudar isso.

GCN - O senhor é contra ou favor da política de bônus financeiro aos professores?
Mercadante - Eu não tenho problema com bônus. Eu acho que o mais importante para o professor é ter uma carreira. É lógico que quem trabalha mais e produz mais, tem que ganhar mais. Agora, você ficar cinco anos sem dar reajuste nenhum, metade da categoria não tem concurso. Aí você cria uma política de bônus na qual até 20% da categoria pode ter direito a bônus. Mesmo que passe na prova, não quer dizer que vai receber. Só até 20% recebe. Depois que recebeu, fica quatro anos sem receber. O que eles fizeram não é um bônus, é um pau de sebo. O professorzinho fica ali achando que vai subir e não vai pegar nunca. Não dá! Tem que ter pelo menos a reposição da inflação, tem que ter carreira e pode ter bônus também por bom desempenho, não tenho nada contra.

GCN - O senhor é um dos maiores críticos do valor pago nos pedágios de São Paulo...
Mercadante - Eu?!?! Pergunta para qualquer um que paga R$ 120 para ir a São Paulo e voltar o que ele acha disso?!

GCN - Quais são as suas propostas para baratear esses valores?
Mercadante - São R$ 120 para ir e voltar de São Paulo a Franca. Imagina o que isso pesa no custo da indústria calçadista?! Ou vocês acham que isso não está no preço final do produto?! A coisa mais fantástica que eu vi foi o seguinte: o Alckmin falou assim: ‘A política de pedágio é uma política de justiça social, só paga quem usa’. Não é verdade! Primeiro que não tem justiça nenhuma com esse abuso dos preços. Segundo, paga todo mundo. Isso vai ser contabilizado no preço, vai prejudicar a competitividade da economia. Imagine uma carreta com seis eixos. Vi uma conta outro dia muito interessante, da Associação Nacional de Transportes. Uma carreta custa R$ 290 mil. Se ela fizer 12 viagens por mês, que é uma coisa razoável, partindo do porto de Santos até Ribeirão Preto, em três anos e meio, o sujeito terá pago mais de pedágio do que o valor da carreta. Isso está prejudicando o interior. Nós temos 443 cidades em São Paulo que têm só 5% do PIB. Uma das razões é o abuso dos pedágios. Nós vamos reduzir os pedágios. Como? Vamos negociar com as empresas, prorrogar o prazo de concessão e, em contrapartida, exigir a redução do preço. Dá para fazer isso? Lógico que dá. Essas empresas (concessionárias) estão tendo uma margem de lucro exorbitante. Tem que ter bom senso. Outra coisa, eles (o PSDB) dizem assim: ‘As dez melhores estradas do Brasil estão em São Paulo’. Estão. Sempre estiveram. E não foram eles que fizeram. Não foi o PSDB que fez. Ele só colocou o pedágio. E nisso eles são rápidos. São lentos para o resto, mas para isso cada 40 dias tem um pedágio novo. E a médio prazo, vamos usar a nova tecnologia. Vamos colocar os chips eletrônicos. Todos os carros vão sair com chips da fábrica. Você paga pelo quilômetro efetivamente rodado. E por último, vamos retomar a ferrovia em São Paulo. 93% do transporte em São Paulo é rodoviário. Isso é um equívoco. O problema é que ferrovia não dá para botar pedágio. É por isso que o PSDB não gosta de ferrovia.

GCN - O PT governa vários estados do Brasil e em nenhum deles a equação foi resolvida. Ou as estradas são ruins, para não dizer péssimas, e aí não tem pedágio, ou então você tem a alternativa de São Paulo com pedágios caros e estradas boas. Essa questão não é muito complexa?
Mercadante - Não. Não acredito que seja bem assim. Você vai na Bahia e você tem excelentes estradas. A Fernão Dias, por exemplo, é uma estrada que está sendo recuperada. Na última análise da ANTT, ela está em uma situação boa. E é uma estrada que tinha muitos problemas. A diferença da tarifa de pedágio estadual e federal é sete vezes, gente! Por que está tão grande a diferença? É por causa do custo de manutenção das estradas? Não é verdade. É que eles embutiram o imposto disfarçado. Eles puseram R$ 23 bilhões disfarçados nas tarifas dos pedágios, que é a licitação onerosa. Quem é que ganha? Quem der mais dinheiro para o governo. Tem que acabar com essa coisa de licitação onerosa. A licitação é quem dá a menor tarifa.


QUARTO BLOCO

GCN - O debate sobre o avanço das drogas ilícitas, como maconha, cocaína e, especialmente, crack, é intenso. Há quem defenda a liberação do consumo de algumas drogas como meio de combater e enfraquecer o tráfico. Qual sua opinião sobre o tema?
Mercadante - Sou contra. Não conheço nenhum país onde liberar droga deu certo. Nós precisamos investir em educação. A educação é a política mais importante. Motivar esses jovens para a cultura, para a dança, para a música, para o teatro. Nós perdemos esse espaço cultural nas escolas. Motivar para o esporte. Nós vamos ter a copa e a olimpíada. Eu, como governador, vou fazer uma olimpíada escolar em São Paulo para preparar os jovens para 2016. O jovem que tem 12, 13 anos hoje pode ser um atleta olímpico em 2016. O Brasil vai ter direito de disputar todas as modalidades. Vou fazer uma olimpíada para selecionar talentos.

GCN - Sempre que crimes hediondos abalam o país, como os casos que envolvem Eliza e Mércia, supostamente mortas por seus namorados, ganha força a discussão da adequação das penas no Brasil. O senhor é contra ou a favor da pena de morte?
Mercadante - Sou totalmente contra a pena de morte. Vou falar do erro mais grave que a pena de morte teve na história por parte de um estado, que foi a morte de Jesus Cristo. Então, sou contra, por princípio. E se a pena de morte resolvesse, os Estados Unidos não teriam 2 milhões de presos, como têm hoje. Agora, nós temos que melhorar bastante o código de processo penal e temos que ser mais rigorosos em muitas brechas que tem na lei. Vou dar um exemplo. O estatuto da Criança e do Adolescente protege o jovem e tem toda uma política diferenciada para o menor de idade. É uma visão muito positiva de como tratar os delitos. Mas é evidente que as quadrilhas se escondem atrás dos menores. Quando tem um crime grave, eles pegam o menor de idade para ser o laranja. Ele assume tudo para salvar os adultos. Eu aprovei uma lei por unanimidade no Senado e que a Câmara ainda não votou. Ela diz que toda quadrilha que tiver um menor de idade envolvido, os adultos vão ter a pena duplicada ou até triplicada, dependendo da natureza do crime. Ao combater o adulto, nós vamos combater o aliciamento de menores, especialmente para o tráfico de drogas.

GCN - Qual sua opinião sobre o projeto de lei que proíbe palmadas, beliscões e castigos físicos em crianças e adolescentes?
Mercadante - Sou totalmente contra castigo físico contra criança. Isso não educa ninguém. Eu acho um absurdo, temos que abolir, temos que criar valores. Não é que a criança pode fazer qualquer coisa não. Tem que ter limites, tem que ter regras. Eu acho que nós temos que fazer uma lei que coloque limites, porque tem casos de agressão à criança. E mesmo sendo pai, não pode agredir a criança. Mas também não pode ser o outro exagero. Não pode ter aquele exagero de querer resolver na lei aquilo que é a natureza de cada família.

GCN - Mas a lei não é isso? Não é uma intromissão indevida do Estado? O próprio ECA já proíbe qualquer forma de agressão severa.
Mercadante - Não pode ter agressão severa, o Estatuto da Criança e do Adolescente está correto. Mas também tem um limite da paternidade que você tem que respeitar, que é a formação, a visão. Imagina a gente chegar a um extremo de...

GCN - Deu um beliscão vai preso...
Mercadante - É, imagina, não tem nenhum cabimento. Não é a lei que resolve tudo. Relação entre pai e filho é uma relação de amor, de carinho, de proteção. É o amor mais profundo que a gente tem na sociedade.

GCN - A Argentina aprovou há cerca de um mês uma legislação que autoriza a união civil entre pessoas do mesmo sexo, seguindo muitos países onde a situação já está regulamentada, como Canadá, muitas nações européias, a África do Sul e alguns estados americanos. No Brasil, a questão segue controversa. O senhor defende a regulamentação dos direitos dos homossexuais?
Mercadante - Eu sou favorável a que não haja nenhum tipo de discriminação. Acho que tem que respeitar e tem direitos que nós temos que preservar. As pessoas têm direito à sua liberdade. Eu não sou favorável ao casamento, acho que isso não é o caminho. Agora, a união civil é um conceito muito mais amplo. Acho que nós podemos fazer uma lei moderna, respeitando os princípios e os valores religiosos. Eu acho que a gente consegue um equilíbrio estabelecendo uma lei civil que permita a união.

GCN - A união civil não trata de matrimônio. Ela trata do direito de duas pessoas se associarem. Carlos e Pedro, que moram juntos e têm uma vida sexual comum, poderiam ter direito à herança, a seguros e a uma série de teias de proteção da sociedade. O senhor é a favor ou contra essa regulação?
Mercadante - Carlos e Pedro podem viver juntos e nem precisam ter uma união sexual. Eles têm direito a ter essa união, do ponto de vista civil. Já tem, inclusive, do ponto de vista previdenciário. Eu sou favorável a ter esse conceito de união civil, que não é propriamente um casamento como está sendo definido.

GCN - E eles devem ter direito de adotar crianças?
Mercadante - Aí eu não tenho condições de avaliar. Eu acho que tem que ser muito bem analisado esse tema. A Regina, minha mulher, é professora. Deu aula a vida inteira. E ela contou para mim de um casal homossexual que tinha adotado uma criança e que era um exemplo de relação. A criança com desempenho escolar excepcional, boa convivência com as outras crianças, sem nenhum tipo de dificuldade ou preconceito. Então, não sei como me posicionar. Precisamos analisar melhor esse tema.


QUINTO BLOCO

GCN - No dia 1º de setembro, Maria das Dores, uma senhora de 47 anos, morreu no pronto-socorro municipal de Franca depois de esperar 17 horas pela autorização de internação que viria da Secretaria Estadual de Saúde em São Paulo. Como o senhor vê ocorrências como esta e o que é possível fazer para que casos como este não se repitam?
Mercadante - Eu vinha conversando com o Gilson Pelizaro (ex-vereador), o Paulo Afonso (vereador) e o Silas Cuba (vereador) e os três estavam absolutamente indignados com essa situação que não é um caso isolado, o que é mais grave. Se fosse isolado já era muito grave. O que aconteceu? O Sistema Único de Saúde, a gestão plena, a cidade transferiu para o Estado. Ao transferir a gestão plena para o Estado, fica centralizada em Ribeirão Preto ou na capital a autorização para uma simples internação. E o burocrata de plantão fica esperando um requerimento, um fax, para dizer que pode internar. Isso é completamente inconcebível. Essa centralização prejudica a qualidade da saúde da população. Isso vem se repetindo. Eu vi um caso de um médico que colocou duas pacientes no carro e teve de levar no hospital. O segundo problema é a prefeitura não ter o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). 40% das ocorrências o Samu resolve no local porque tem uma equipe especializada. E junto com o Samu, nós estamos criando as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). Em São Paulo, nós já temos 397 ambulâncias. E as UPAs são 24 horas por dia, seis especialidades e até 25 leitos de UTI. Ou seja, o Samu, ao invés de levar para o hospital que está congestionado, leva direto para a UPA para resolver os problemas. Por que nós não temos Samu e a UPA em Franca? Porque o PSDB não ajuda a trazer. São Paulo é o único estado do Brasil que o PSDB não participa do co-financiamento do Samu e da UPA. O governo federal constrói a Unidade de Pronto Atendimento e dá a ambulância. Paga 50% do custo, 25% a cidade tem que arcar e 25% o governo do Estado. Como o governo do Estado não participa com seus 25%, sobrecarrega a prefeitura.

GCN - Uma de suas propostas para a área é a criação de uma central de vagas para a marcação de consultas para agilizar o sistema. Mas o problema crucial que levou à morte da Maria das Dores foi um problema de conversa entre a Crue (Central de Regulação Única do Estado),e a Santa Casa. Essas grandes centrais de vagas, descoladas do caso concreto da cidade, não piora a situação?
Mercadante - No mundo inteiro, o sistema funciona bem. Como eu disse, urgência e emergência é Samu, UPA e Pronto-socorro. É isso que resolve. Por que tem que ter o Samu? Porque se a pessoa está sentindo um sintoma, liga, imediatamente tem um especialista atendendo. E a UPA é importante porque é 24 horas por dia. A saúde não espera horário comercial. Não adianta ter uma Unidade Básica de Saúde no bairro que está fechada no final de semana e de madrugada. Então, esse sistema está crescendo no Brasil e é a solução para o problema. A Central tem que, sobretudo, marcar consulta. Porque é um abuso o que está acontecendo hoje. As pessoas esperam até um ano para fazerem um exame. A Secretaria de Saúde fez uma pesquisa com 350 mil usuários do SUS. 30% dos pacientes demoraram até seis meses para fazer radioterapia, quimioterapia, hemodiálise e cateterismo. Qual é a minha sugestão? Fazer o Prouni da saúde. Fazer um convênio, como política emergencial, com as clínicas e laboratórios particulares para usar o período da noite e finais de semana para o SUS. Com isso, a gente aumenta rapidamente a capacidade do sistema para resolver esses casos mais clássicos, especialmente o câncer. E a médio prazo, nós temos que construir oito novos hospitais regionais no Estado, 30 policlínicas para fazer o atendimento nas especialidades, e recuperar os equipamentos que nós temos.

GCN - O senhor esteve na Francal em julho e ouviu pleitos do Sindicato da Indústria do Calçado de Franca. O principal pedido é a redução do ICMS de 12 para 7%. O senhor acredita que seja possível essa desoneração? Qual é compromisso do senhor com o setor calçadista?
Mercadante - Eu me lembro da entrevista que eu dei lá. Você se lembra qual era a manchete do Comércio da Franca? ‘Euforia’. Um aumento excepcional. E tinha estande ali que tinha vendido 500 mil pares de sapato em um dia. Foi uma coisa espetacular. O governo do PSDB, além de botar pedágio, não deu incentivo fiscal, privatizou o Banespa, vendeu a Nossa Caixa, nós perdemos os instrumentos de financiamento.


SEXTO BLOCO

GCN - Muito tem se discutido sobre as possibilidades abertas para a cura de doenças através do uso de células-tronco embrionárias. Nos EUA, o presidente Barack Obama autorizou as pesquisas. No Brasil, a questão segue controversa. Qual a sua opinião?
Mercadante - Sou totalmente favorável. Nós temos que lembrar que parte dessas células-tronco são eliminadas pelo processo de pesquisa depois de um prazo de validade. Não faz o menor sentido você poder jogar no lixo e não poder usar para salvar uma vida. Então, eu sou totalmente favorável. Acho muito importante para o Brasil. E nós temos genética hoje de ponta para usar esse instrumento em defesa da vida.

GCN - Qual a opinião do senhor a respeito da legalização do direito ao aborto?
Mercadante - Sou contra o aborto, mas é evidente que temos que ter uma política de saúde pública. Atender milhares de jovens hoje que, por falta de planejamento familiar, recorrem ao Sistema Único de Saúde, muitas vezes perdendo o útero, ficando infértil ou, às vezes, perdendo a própria vida pelas condições absolutamente precárias em que isso vem acontecendo. Investir muito em planejamento familiar e dar condições do sistema SUS tratar dessas situações.

GCN - Candidato, no encerramento do último bloco, o foi questionado sobre a desoneração do setor calçadista, mas não ficou claro. O senhor defende a redução do ICMS? Acha possível reduzir de 12 para 7%?
Mercadante - Olha, eu vou ter que estudar a fundo. O setor vem muito bem nesse momento. A prioridade para desoneração nesse momento é alimentos e remédios. E os remédios, estamos pagando mais ICMS para um ser humano se tratar do que um animal com um produto veterinário, o que é uma completa irracionalidade. Então, nós temos que exonerar remédios e alimentos. Sapato pode ser, se for necessário, para não perder investimentos e não perder a competitividade da economia de Franca. Mas hoje ela está muito bem. Eu diria que não é prioridade nesse momento.

GCN - A ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, foi envolvida nos últimos dias num escândalo de corrupção. Independente de sua culpa, a situação é constrangedora. Mais uma vez, líderes do PT, como o presidente Lula, ao invés de se envergonharem ou se desculparem, atacam violentamente quem denuncia. Em alguns casos, incentivam a população a atacarem os jornais e revistas. Não é uma profunda inversão de valores? O problema é a corrupção e não quem a denuncia. Ou não?
Mercadante - Eu acho que é muito importante o papel da imprensa em denunciar. O governo tem que estar muito atento, porque existe problema de desvio de conduta e as medidas têm que ser tomadas. O presidente Lula tomou imediatamente as medidas. A ministra está fora da Casa Civil e de qualquer outra função pública. Tudo está sendo apurado, tem que ser investigado com rigor. A Polícia Federal está fazendo, o Ministério Público, o Tribunal de Contas. Portanto, as instituições brasileiras hoje têm atitude. No governo Lula, as coisas não são varridas para baixo do tapete como eram antes. O procurado geral da República não é mais o engavetador geral da república. Tem cinco governadores cassados, um governador que foi preso. E por último, nós temos a mais ampla liberdade de imprensa. Esse é um valor fundamental. O presidente Lula disse assim: ‘Só tem um jeito de restringir a liberdade de imprensa: é o leitor não comprar o jornal, é o telespectador mudar o canal da televisão e o ouvinte mudar de rádio’. Fora isso, não tem democracia. E nós respeitamos esse valor, quero parabenizar a imprensa. Apesar que quando tem denúncia do lado de lá (envolvendo a oposição), não tem o mesmo empenho em divulgar por alguns veículos de imprensa. E é isso que falta no equilíbrio republicano. É evidente que existem jornais hoje que têm sua linha editorial associada à outra candidatura. Eu espero que a maturidade do Brasil chegue ao ponto que é a maturidade da democracia americana. Os veículos dizem se estão com esse ou aquele. Tem gente que estava com o Obama e tem gente que estava com o McCain. O eleitor lê sabendo com quem está falando.

GCN - O BNDES anunciou há poucas semanas a liberação de um empréstimo de R$ 146,5 milhões para a reforma do hotel Glória, no Rio, propriedade do empresário Eike Batista, homem mais rico do Brasil e um dos 10 mais ricos do mundo. Apesar desta condição privilegiada, Eike vai poder pagar o empréstimo em 10 anos, com 48 meses de carência, juros anuais de 9%. Por que um pequeno empresário brasileiro, como o industrial calçadista, não consegue linhas de financiamento nem próximas destas?
Mercadante - Nós estamos na ante véspera da Copa do Mundo. Vão chegar 600 mil turistas no Brasil. E três milhões de brasileiros vão se movimentar para assistir a copa do mundo. O Rio de Janeiro vai ter papel fundamental na copa e logo a seguir nas olimpíadas. Vai ter um fluxo ainda maior de turistas e ele não tem estrutura hoteleira para absorver o impacto da copa do mundo e da olimpíada. Então, o BNDES está olhando para frente. Quem não olha para frente, porque é lento, devagar, quase parando, é o governo do PSDB em São Paulo, que até agora não conseguiu sair do muro para dizer onde vai ser a copa. O BNDES está fazendo correto. Tem que financiar hotel no Rio e tem que financiar hotel em São Paulo.

GCN - Como o senhor vê as candidaturas cada vez mais comuns de pseudocelebridades, como da Mulher Pêra e de Tiririca, que faz parte da sua coligação?
Mercadante - A beleza da democracia é que cada um vota em quem quer. Não é o candidato majoritário que vai dizer esse pode, você não pode. Cada um vai escolher o que quiser. O que eu penso, e eu não tenho problema nenhum de dizer, eu acho que o povo tem que votar em gente séria. Eleição não é uma brincadeira. Tem que votar em gente que tem compromisso, que tem currículo, que tem história, que tem projeto.

GCN - Em 16 anos de governo, o senhor vê algum ponto positivo na gestão do PSDB em São Paulo? Qual?
Mercadante - Vejo. Eu acho que eles fazem coisas boas para poucos. Por exemplo, Etecs e Fatecs. E nós queremos fazer mais e melhor para todos, especialmente o ensino público de qualidade.