Quando há casos de agressão, abuso sexual ou total desestrutura nas famílias, a Justiça pode determinar que os filhos sejam retirados do convívio dos pais. Em Franca, eles podem ficar abrigados no Recanto Samaritano até que a família esteja pronta para recebê-los de volta ou até serem encaminhados para adoção, caso não seja possível voltar a viver com a família de origem. A Prefeitura mantém ainda o Serviço de Acolhimento em Famílias Acolhedoras que possibilita a essas crianças e adolescentes morar na casa de voluntários. São as chamadas famílias de apoio, que acolhem as crianças por tempo indeterminado, até terem a situação resolvida, e as famílias eventuais, que se dispõem a buscar os meninos no Recanto Samaritano para passar férias ou curtir um fim de semana ou feriado prolongado em suas residências.
O serviço foi criado oficialmente em 1998, mas existe há mais tempo. Conta hoje com 41 famílias, sendo apenas 12 de apoio. Até sexta-feira, 11 estavam com crianças e somente uma liberada para receber alguém. A Prefeitura precisa de mais voluntários. Quem vive a experiência de acolher uma criança que foi abandonada, vítima de maus-tratos ou violência, incentiva a adesão. O taxista Hamilton Donizete Chiarelo, 51, e a decoradora Maria Célia de Fátima Chiarelo, 47, reconhecem que é um trabalho difícil, mas gratificante. “A grande maioria das crianças não tem limite. É um desafio colocar para eles que a vida tem regras”, disse Hamilton.
Os dois estão casados há 29 anos. São pais de três filhos de 28, 24 e 18 anos. O mais velho é casado. Um dos quartos da casa costuma ser usado pelos “filhos temporários”. Hamilton e Maria Célia conheceram o Família Acolhedora numa palestra da igreja e decidiram colaborar.
Em dois anos e meio, acolheram nove crianças. Numa das vezes foram dois irmãos de 4 e 6 anos. Os pais deles eram usuários de drogas e álcool. Todas deixaram lembranças. Eles sabem nomes e idades que tinham à época (entre 4 e 12 anos) de todas. Curtem a saudade revendo as fotos.
Desde março, a família de Hamilton cuida de um garoto de 9 anos. A mãe não teve condições de criar ele nem os irmãos. Eles não sabem até quando ficarão com o menino, mas já se preparam para o momento da separação. “Quando chegam aqui em casa, já coloco no pensamento que vai chegar uma hora que vou ter de entregá-los, por mais que isso seja dolorido”, disse Maria Célia. Ela fica ansiosa quando vai receber as crianças do abrigo. “É quase a mesma sensação de esperar a chegada de um filho. A expectativa é maior porque eles já chegam prontos, falando, com personalidade formada”. O fato de acolher crianças mais velhas e com problemas familiares torna o trabalho uma oportunidade de crescimento pessoal para ela. “As crianças me dão um retorno bem grande, me ensinam a ter paciência, ter mais amor, que a vida não é só o ter, mas também ser”.
IDEIA ACEITA
Na família dos comerciantes Devanir Pizzo, 50, e Regina Célia Bernardes, 48, a iniciativa de receber em casa crianças vítimas de violência surgiu a partir de uma vista que uma das filhas do casal, a jovem Aline Cristina, 22, fez à Casa do Aconchego - abrigo de crianças vitimizadas.
Depois de ter contato com elas, Aline propos aos pais conviver com elas em sua própria residência. Os pais aceitaram e faz oito anos que levam crianças que sofreram violência e foram retiradas dos pais para passear no shopping, ir a festas e chácaras. “Sinto como se fossem meus filhos. É um trabalho difícil, que exige dedicação, mas é gratificante”, disse Regina Célia.
O casal atua como família eventual, mas já passou um período maior com duas crianças. “Certa vez uma menininha saiu do hospital e veio direto para nossa casa. Ela tinha 15 dias e ficou com a gente até completar quatro meses. Depois foi encaminhada para a avó criar. O outro menino tinha dois anos e sofria maus-tratos em sua casa. Ficou um mês morando aqui em casa e depois foi adotado por uma amiga minha, então continuei tendo contato com ele”, disse ela.