Discussão iniciada após a realização pela Sociedade Italiana de mais uma festa popular da Nossa Senhora de Achiropita, a partir de reclamação de comerciantes com o objetivo de retirar a festa do centro da cidade e transferi-la para local fechado e distante, merece uma reflexão sobre o caráter da cidade e da sociedade em que vivemos, pois a isso se soma o mesmo padrão de comportamento da direção da Catedral em relação ao uso da praça central.
Ninguém desconhece as mudanças que nossas cidades estão sofrendo a partir de uma espiral de violência urbana que, nas grandes cidades, aparenta guerrilha entre traficantes e polícia. Mas se olharmos os indicadores de mortos e mutilados pelo trânsito, são muito mais altos que os ocorridos em confrontos policiais, assaltos, brigas ou outros incidentes letais. A violência também está expressa no envenenamento do ar, da água, dos alimentos e nas precárias condições de vida de milhões de brasileiros, sem água tratada, esgotamento sanitário ou pavimentação.
Há inúmeros aspectos a considerar na análise de tais fatos, notadamente da educação, sob todos os aspectos insuficiente e ineficiente. O índice de desemprego ainda é grande, a renda em crescimento ainda é baixa, as condições habitacionais e de transporte da maioria ainda é precária, apesar dos avanços obtidos durante os últimos anos.
Em Franca não há nenhum lugar onde haja limpeza européia como a exigida por comerciantes do centro. A coleta de lixo regular não impede o surgimento de milhares de despejos de resíduos injustificados nos mais de 30 mil terrenos baldios espalhados pela cidade, a coleta seletiva (falta educação ambiental) recolhe pouco material, a varrição das ruas é insuficiente. Basta ver a condição das bocas-de-lobo e dos córregos urbanos quando se aproximam as chuvas.
O centro da cidade é um espelho da sociedade local. É o lugar com a melhor infraestrutura, sob todos os aspectos. O Plano de Gestão Integrada do Centro que vigorou entre 2002 e 2004 foi abandonado pelo atual governo, que prefere usar medidas de força higienizadoras contra o comércio popular e que atingem os mais pobres, usuários do comércio central.
A Prefeitura, que desconhece planejamento urbano, não vê que o centro da cidade enfrenta um desafio: o envelhecimento. Sua população (idosa) se reduz ainda mais pela saída da Unesp e pela ausência de investimentos em habitações novas.
Investimentos públicos como o Poupatempo ajudam sua vitalidade, mas seu horário de funcionamento não. É preciso utilizar melhor a infraestrutura existente para dar mais animação ao centro, atrair as pessoas para morar lá e utilizar a região além do horário comercial, com cultura e serviços. Um centro cultural na AEC teria ajudado. Quanto mais se reprimir o uso do centro para outras atividades além do comércio, como a festa da Achiropitta, mais inseguro ficará e mais desperdício de infraestrutura teremos, fazendo com que a cidade continue se espalhando, cada vez mais insustentável e violenta pelo trânsito e pelas longínquas periferias desurbanizadas. Todos perderão.
Mauro Ferreira
Doutor em Arquitetura e Urbanismo, professor da FESP-UEMG