08 de julho de 2026

A alegria evem.


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Sem conseguir dizer de melhor modo, a mágica é a seguinte: quando ampliamos a capacidade de esperar, devotadamente, ao alcançar a realização sonhada (material ou espiritual) somos agraciados por um sentimento claro, único, redondo: a-le-gri-a.

Não deve ser à toa que alegria começa com “ah!’ e termina com “ah!”.

Foi assim: era noite, e eu estava a despedir de uma querida amiga. Sozinha, a seguir meu caminho, vi os chicotes de prata ao longe, olhos ao alto vi os desenhos arabescos horizontais, galhos prateados na noite escura. As nuvens, mal visíveis, arrastavam os seus pés pesados, resmungando dores ou talvez esbravejando porque tinham que lavar os céus. Era muito céu para lavar, as nuvens conversavam entre si, com vozes engrossadas e altissonantes.

Pelos caminhos que ligam a casa da minha amiga até a minha casa, acompanho o rodeio dos chicotes estalando rápidos as luzes prata, nuvens-pedras se chocando acima da minha cabeça. Mas não tenho medo, fico feito menininha esperando o Papai-Noel. É terrível, mas é bom. É estranho, mas vou ganhar presente.

Confesso: adoro estes prenúncios. Eles me dizem de uma performance que vai resultar verde mais verde, as flores mais flores, o pó vai se assentar. A terra vai se condensar, ameigada, adoçada, mais escura, exalará o seu perfume, entregue ao pisar líquido do que vem.

As donas-de-casa vão esquecer a vassoura, os panos de tirar pó. Vai rolar a festa, recadinho dos céus. Adeus tosses, espirros, os pulmões vão festejar, no abre-fecha dos seus foles, nossa sanfona portátil de São João.

Até ensaiei passinhos de dança para saudar aquela que demorava. Ouvia sons de tamborim nos telhados, saudava ventos mais vigorosos como se a passarela estivesse sendo montada para ela passar.

Um dia, semana passada, cheguei a ouvir uns barulhinhos, era noite, e aprendi que o fogo, quando começa a crepitar, tem o mesmo som que ela faz quando chega de mansinho, nos seus incontáveis pezinhos aqui, acolá, ali, outro lá. Deus me livre do fogo, nos tempos em que ela esquece de vir!

Daí ela despencou, foi do jeito que esperei, e eu sambei, valsei, requebrei, soltei meu rock, minha pluma, minha pétala, meu suspiro.

Foi visitinha rápida, ela se foi na madrugada de terça, e o sol e o céu azul retomaram a cena. Ficou tudo renovado. Ela há de voltar, vai cair no ritmo, pisando telhados, ruas, árvores, gentes, cachorros, carros, vai pisar fraco, forte, tamborilar, batucar sons graves e agudos nas latinhas, em diferentes timbres.

Ela vai criar uma bateria de sons para acompanhar o tambor, cansado de esperá-la, no meu ressecado coração. A líquida alegria, para todo mundo, mágica que ninguém jamais soube fazer.